A mentira aparece no rosto?

A mentira pode ser vista na face?

Apesar de não existir um único e decisivo sinal da mentira, existem indicadores que podem servir de base para as nossas avaliações.

Esses indicadores devem sempre ser considerados em seu contexto, uma vez que não há um “nariz de Pinóquio” que cresce quando alguém mente.

É muito importante observar essa última afirmação, uma vez que você encontrará muita informação de baixa qualidade na Internet, ensinando a reconhecer sinais da mentira sem tomar os devidos cuidados.

Imputar uma mentira a alguém que fala a verdade pode ser muito mais prejudicial a você do que ser enganado por um mentiroso profissional…

Por isso, não caia na lábia de quem lê um livro de auto-ajuda sobre linguagem corporal e começa a difundir fantasias sobre o tema. Nesse artigo vou explicar por que não é uma tarefa trivial identificar os sinais da mentira.

Uma boa parte dos indicadores da mentira levantados pela ciência tem relação com a ativação do sistema nervoso autônomo.

A ilustração abaixo traz um resuno desses sinais:

Indicadores da mentira no Sistema Nervoso Autônomo

Essa observação se baseia no fato de que quando mentimos nosso sistema nervoso se ativa, pois sabemos que estamos torcendo fatos, escondendo ou criando informação. Nosso corpo demonstra agitação, suor, ruborização, respiração e batimentos cardíacos acelerados e dilatação da pupila entre outros sinais visíveis que tenham a mesma origem.

No entanto, é necessário ser cuidadoso, pois qualquer desses sinais, ou mesmo todos eles em conjunto podem não ter qualquer relação com a mentira.

Vamos supor, por exemplo, que alguém esteja realizando uma entrevista de emprego. A própria entrevista em si pode ser suficiente para desencadear esses sinais.

Outra técnica utilizada para identificar sinais da mentira é observar o que chamamos de “carga cognitiva”. Mentir não é fácil. Além de criar uma “versão” de fatos que não ocorreram, o mentiroso tem que conectá-los, fornecer detalhes e ainda controlar o seu sistema nervoso. Para atingir esse feito, o mentiroso torna-se mais lento, pois tem que lidar com muita informação e, adicionalmente, não cair em contradição. Nesse caminho, a única solução é diminuir a velocidade da fala, ganhar tempo transformando perguntas em parte das respostas, ser o mais vago possível e evitar o contato com o interlocutor.

No entanto, os estudos científicos indicam que 15% da população não apresenta essa redução de velocidade ao elaborar fatos que não ocorreram, controlam bem os sinais da agitação causada pela descarga de adrenalina e são bastante persuasivos. Isso não os torna mentirosos, mas indica a capacidade para encobrir os sinais da mentira. Mesmo diante desse contexto, podemos ficar tranqüilos, pois 85% da população mente muito mal o que nos dá chance de nos sairmos bem e o mentiroso profissional tem predileção por certos perfis como os gananciosos e vaidosos, que são muito mais fáceis de enganar do que pessoas com outros perfis.

Na face, sinais da mentira podem aparecer de muitas formas. A carga cognitiva pode ser notada pela agitação da pessoa, movimentação da cabeça, pela mudança constante a direção do seu olhar e, principalmente, se tudo isso vier acompanhado pela demora em responder.

No entanto, se os indicadores forem observados, isso ocorrer significa que estamos diante de um mentiroso? A resposta é não!

Diante de uma pergunta, ou mesmo durante a fase narrativa da mentira, uma pessoa pode mostrar-se surpresa ou com medo. Vamos exemplificar essa afirmação com uma breve consideração sobre a dinâmica das pálpebras.

Abaixo, vemos a distinção entre uma pálpebra relaxada (surpresa) e contraída (medo):

a. Na expressão acima, observa-se a abertura do olho (surpresa), mas não há tensão nas pálpebras.

b. Expressão de medo representada pela tensão palpebrar, principalmente observada na parte inferior.

Note que a pálpebra que nos comunica medo é bem mais tensionada (b), enquanto que, na surpresa (a), vemos a abertura dos olhos sem grande tensão nas pálpebras.

O medo também pode ser notado pela contração do músculo Risório, que “estica” a nossa boca na direção horizontal como ilustrado na figura abaixo. Esse é um músculo cientificamente conhecido por estar associado aos estados emocionais de medo.

Sua ação fica evidente pela observação da tensão nos lábios e pelo aparecimento das rugas de Risório, que estão marcadas pelas setas vermelhas na figura.

Além de notar esse tipo de sinal, é necessário considerar o contexto, o momento em que a pessoa demonstrou essas expressões, a pergunta que foi feita ou o que estava sendo dito, entre outros aspectos que alguém realmente interessado na verdade precisa levar em consideração.

Esses são cuidados que muitos “especialistas” em linguagem corporal não têm quando ensinam o que aprenderam nos livros que andam por aí. Tenha em mente que as técnicas atuais são efetivas, ajudam muito, mas não são receitas de bolo, muito menos são infalíveis.

Prossiga em seus estudos e acompanhe nossos artigos sobre as micro-expressões na face.

 

Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

[box]PIRES, Sergio Fernandes Senna. [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/a-mentira-aparece-no-rosto/> . Acesso em [data-php].[/box]

Formato Documento Eletrônico (APA)

[box]Pires, Sergio Fernandes Senna. (2012). [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em [data-php], de https://ibralc.com.br/a-mentira-aparece-no-rosto/.[/box]

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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. A mentira aparece no rosto?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/a-mentira-aparece-no-rosto/> . Acesso em 4 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2011). A mentira aparece no rosto?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 4 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/a-mentira-aparece-no-rosto/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
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19 Comments

  1. Além das expressões de aversão que disse antes também notei outras duas (não acabei de ver o vídeo) no momento 1:54 também vi aversão,além de um chamado desprezo no momento 3:05,como disse não dico com toda certeza por falta de perícia

  2. Sim,eu também vi aversão em 3 momentos 1:50,2:29,2:41 mais ou menos isso,também vi momentos de nervosismo em quase todo vídeo,talvez arrependimento em alguns momentos do vídeo,não digo com certeza pois não tenho perícia para isso,de fato não tenho,não há mais que um mês que comecei a me interessar por micro-expressões,mas desde que comecei tenho alguns bons resultados,digo pelo menos no programa METT kk

  3. Não gosto muito de comentar vídeos que não são em português que eu entendo um pouco Edinaldo, rsrsrs. Mas vamos La: Acho que tem vários momentos de desprezo, que talvez poça ser confundido com o Deeping Delight, como aos 3:16. A 1:50 aversão.

  4. Eu achei que ele teve momentos de expressividade intensa, mas na maior parte do video ele permaneceu dando poucos indícios…acho eu, na minha pouca experiência nas análises. rs Já vi mais expressivos

  5. Edinaldo Oliveira, não entendo inglês falado… então o contexto da reação com o que a mulher está falando… não vou saber o que se passa… porém acredito ter visto raiva perto de 1:50… depois, mais para frente… vi alguns “Deeping Delight”… sua expressão parece ter começado a ficar mais “aliviada”… e surgiu alguns sorrisos rápidos…

  6. Ele parece estar com uma expressão de preocupação, né. Pode ver que sempre que o veredito é dado ele abaixa a cabeça ou os olhos, ou os dois. E a boca parece estar seca por causa do nervosismo, tanto é que ele engole a seco e molha os lábios umas duas vezes.

  7. Eu sempre fico imaginando um caso desses onde a pessoa tem fobia social,por exemplo!É bem complexo essa análise,sou curioso nesses assuntos.

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