A perspectiva evolucionista das emoções. Por que somos como somos?

A perspectiva evolucionista das emoções. Por que somos como somos?

O que é uma emoção? Existem várias maneiras de responder a essa pergunta. Para simplificar as coisas, poderíamos perguntar, inicialmente, o que causa determinado comportamento emocional.

Vimos no texto sobre os porquês de Tinbergen que existem quatro maneiras de se responder a essa pergunta, sendo essas respostas complementares: esfera fisiológica, ontológica, da história evolutiva e dos motivos pelos quais tais características foram selecionadas ao longo da evolução (causas últimas).

Do ponto de vista das causas últimas, podemos citar aqui a vasta literatura da psicologia evolucionista. Antes de adentrar no terreno das emoções especificamente, falarei brevemente sobre os pressuspostos cognitivos que embasam a visão da área.

 

A Teoria Modular

A psicologia evolucionista baseia-se na idéia de que a nossa mente é composta por inúmeros módulos. Estes, seriam unidades especializadas no processamento de determinado tipo de informação (Barkow, Cosmides & Tooby, 1992). Uma evidência seriam, por exemplo, os autistas savants, como ilustrado em dos posts aqui do Ibralc, que possuem habilidades pronunciadíssimas em certos domínios mas níveis baixíssimos de habilidade em outros, como Kim Peek, que tem uma memória prodigiosa mas não conseguia nem escovar seus dentes sem a ajuda do pai.

 homem-primitivo-evolucionistaHá ainda certo debate sobre quantos módulos a mente teria, ou o quão modularizada seria, no sentido de haver ou não um processador central (ou geral) que integre as informações processadas por diferentes módulos. Mas o que é amplamente aceito é que esses módulos evoluíram especializados em resolver problemas frequentes do ambiente de adaptação evolutiva (AAE) da nossa espécie, ou ainda de nossos ancestrais hominídeos (Cosmides & Tooby, 1990).

Os módulos, portanto, seriam inconscientes e, por isso, extremamente mais velozes do que o poder de deliberação humana. Aliás, os módulos, também, conduziriam nosso poder de reflexão sobre questões. Um famoso exemplo é o do linguista Noan Chomsky (1957), com sua Gramática Gerativa. Para o autor, a capacidade humana para a linguagem não é fruto exclusivo do aprendizado, mas sim da influência dos estímulos ambientais “em cima” de uma tendência já existente para o desenvolvimento da língua. Evidência disso é a estrutura sintática semelhante entre os idiomas das mais diversas culturas.

Nesse caso, o indivíduo não refletiu longamente sobre como teria de ser a estrutura linguística de seu idioma, assim como um indivíduo que avista uma serpente não reflete longamente se ficará paralisado, se correrá ou se tentará matar o animal de alguma forma. Esse é um exemplo de medo, mas o mesmo ocorre com outras emoções.

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Repare na semelhança da desse lobo raivoso e da expressão facial de raiva em um humano. As expressões fazem parte de uma das mudanças mobilizadas pelos “programas emocionais”, selecionadas ao longo da evolução para melhor responder aos desafios do passado evolutivo.

No caso da raiva, que é uma das emoções mais presentes e mais destrutivas, é comum falarmos coisas que não queremos e magoar quem amamos. Da mesma forma, acabamos agindo de forma indevida, fazendo uso de violência, mesmo que não seja contra uma pessoa, mas jogando um objeto longe, por exemplo.

Outros comportamentos acompanham essa emoção, como a expressão facial característica que por si só já pode ser prejudicial, isso sem contar as sensações corporais ocasionadas pelas mudanças fisiológicas que nos deixam aptos a atacar.

 

Emoção – programas que recrutam módulos

Diante disso que falamos, o que é, então, uma emoção? Na informática, existe um termo chamado demons (Cosmides & Tooby, 1990). Trata-se de algoritmos que são mobilizados sempre que detectam uma situação propícia. É como se ficassem adormecidos até que detectem o tipo de estímulo ou situação exatos para entrarem em ação, se quisermos ir logo usando os termos mais psicológicos.

 Como Matsumoto (2009) disse, o termo emoção é como uma metáfora que se refere a uma série de fatores. Além das modificações comportamentais e fisiológicas já citadas, existe uma série de vieses cognitivos relacionados às emoções.

 Por exemplo, submetidos ao medo nossa percepção é modificada: não só nossa acuidade visual parece ficar especialmente sensível à qualquer pista que possa representar uma ameaça, mas nossa audição também. Quando estamos com medo, um barulho de pisões não é o mesmo, nem mesmo o estalar de folhas secas. Ficamos mais sensíveis a sons furtivos (Tooby & Cosmides, 2008).

Da mesma forma, alguém com ciúmes (uma emoção não considerada básica) pode ter a memória afetada por esse viés, lembrando de evidências que apóiem seu estado emocional. (Idem)

Nossa atenção também é afetada pelas emoções. Quando estamos com medo (ou preocupados) de que algo de mal aconteça com um ente querido, teremos mais facilidade para nos focarmos em pensamentos sobre o evento do que em piadas, por exemplo (o que faz com que seja partiluarmente incômodo quando estamos nesse estado ou com raiva e aquele amigo, na melhor das intenções, vem querendo desviar o foco para algo que nos “relaxe”, como uma piadinha ou qualquer outra amenidade). (Idem)

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Leda Cosmides e John Tooby

Poderíamos citar ainda o aprendizado, os reflexos e algumas outras habilidades. Nesse sentido, trocando em miúdos a frase de Matsumoto, é como se as emoções fossem, cada uma delas, um nome que damos para modificações em diversas esferas do comportamento humano, frente a determinados estímulos ambientais (ou internos, no caso de pensamentos). Continuando, ainda, com a terminologia cognitivista, é como se as emoções fossem programas mentais com o poder de mobilizar desde comportamentos até o recrutamento de módulos específicos (bem como os demons).

É interessante ver como um fenômeno às vezes tido, por leigos, como estritamente subjetivo e “psicológico”, é tão ligado à nossa biologia, ou melhor ainda, à nossa descendência de outros animais.

Esse insight proporcionado pela psicologia evolucionista – que é uma área que procura congregar achados de diversas áreas como psicologia social, biologia, neurociência, antropologia, arqueologia e etc – é precioso no sentido de nos fazer olhar o ser humano sob uma outra ótica. Para nós aqui, interessados na linguagem não-verbal, também, afinal, tal visão reforça a conexão basal entre nossas emoções e o que ocorre em nosso corpo, denunciando sinceramente nossos mais íntimos pensamentos ou denunciando nossos disfarces, para aqueles que tem olhos para ver, é claro.

E você? Concorda? O que acha que esse panorama acrescenta?

 

Referências

Barkow, J.H., Cosmides, L., & Tooby, J. (1992). The Adapted Mind Evolutionary Psychology and the Generalization of Culture. New York: Oxford University Press.

Chomsky, N. (1957). Syntatic structures. The Hague: Mounton.

Cosmides, L. & Tooby, J. (1990). The Past Explains the Present, Ethology and Sociobiology, 11: 375 – 424.

Matsumoto, D. (2009). The Origin of Universal Human Emotions. San Francisco State University.

Tooby, J., Cosmides, L. (2008). Handobook of Emotions, The Evolutionary Psychology of the Emotions and Their Relationship to Internal Regulatory Variables, pp. 114-137), NY: Guilford.

 

Como citar este artigo:

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NOVAES, Felipe. [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/a-perspectiva-evolucionista-das-emocoes-por-que-somos-como-somos/> . Acesso em [data-php].

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Novaes, Felipe. (2012). [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em [data-php], de https://ibralc.com.br/a-perspectiva-evolucionista-das-emocoes-por-que-somos-como-somos/ .

 


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. A perspectiva evolucionista das emoções. Por que somos como somos?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/a-perspectiva-evolucionista-das-emocoes-por-que-somos-como-somos/> . Acesso em 3 Dec 2016.

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. (). A perspectiva evolucionista das emoções. Por que somos como somos?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/a-perspectiva-evolucionista-das-emocoes-por-que-somos-como-somos/.

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Estudante de psicologia, com interesse em psicologia cognitiva, psicologia evolucionista, neuropsicologia e neurociência. Atualmente estudo as expressões faciais das emoções básicas sob a perspectiva evolucionista e neurocientífica. Editor do blog de variedades www.nerdworkingbr.blogspot.com
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