A verdade e o respeito à pessoa e sua narrativa.

Sobre o Depoimento de Xuxa ao programa Fantástico, no qual fala dos abusos sofridos em sua infância/adolescência.

 

Em 20 de maio de 2012, o programa Fantástico apresentou o depoimento da apresentadora Xuxa Meneghel, no qual ela abriu mão de sua privacidade, e revelou fatos relevantes de sua vida, entre eles os abusos sexuais sofridos desde a infância até a adolescência

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O assunto foi largamente explorado pela mídia e frequente alvo de considerações positivas e negativas pela opinião pública, e especula-se abertamente sobre a veracidade dos fatos narrados, e sobre a intenção de tais revelações.

A propósito de tantas formulações, gostaria de tecer alguns comentários.

Preliminarmente devo dizer que não conheço a Maria da Graça Meneghel. Conheço o lado artísitico-publicitário-social da Xuxa, conheço o que uma edição jornalística pode fazer, e reconheço o estado emocional alterado, quando os conteúdos tratados fogem do âmbito do cotidianamente aceitável.

Não conheço nada de leitura corporal, especialmente das micro-reações corporais além dos episódios do seriado Lie To Me. Assim, considero leviano de minha parte, como alguém mais interessada em considerar o ser humano e sua subjetividade/intencionalidade, julgar a apresentadora, justamente por também desconhecer isso na Xuxa.

 

 Pondero a expressão “abrir mão da privacidade”. A mim me parece contraditória, pois se o conteúdo está pronto para ser levado a público pelo próprio autor, para ele tal conteúdo já não pertence somente a si, devendo necessariamente pertencer ao mundo dos conteúdos públicos, não havendo mais, portanto, do que abrir mão.

 

Posso, no entanto, avaliar algumas das consequencias desse ato, e especular então sobre a intencionalidade da Xuxa, àquela altura apenas Maria da Graça, e com o perdão do trocadilho, ao revelar a sua desgraça. É inegável o papel de uma pessoa rica, linda e famosa na formação da opinião pública, e por que não?, na libertação da opinião pública sobre assuntos TÃO duros, e mais frequentemente do que se precisaria, TÃO mantidos no mundo “privado”.

Além das notícias veiculadas pela imprensa ao longo da semana passada, que davam conta de grande quantidade de denúncias, supostamente encorajadas pelo depoimento da apresentadora, eu mesma recebi, na mesma semana, pessoas em situação parecida, mas que nunca tinham revelado nada a ninguém por culpa, medo, vergonha, arrependimento.

Não devo me alongar sobre suas histórias, sob risco de ir além do que posso/devo. Mas se a intenção era essa, a Maria das Graças Meneghel, ali apresentada como Xuxa, conseguiu atingir seu intuito. Se não era, e se foi movida por puro sensacionalismo (o que, pessoalmente, não acredito), ela atirou no que viu, e acertou no que não viu. Ótimo!

 

Qual o lugar da verdade no processo psicoterapêutico?

verdade-mentiraQuanto à veracidade dos fatos trazido à baila, considero que, quando um cliente senta na poltrona em minha frente, no consultório, em nada me interessa a veracidade de sua história. A questão é que, verdade inteira, meia verdade, ou verdade alguma, tanto faz: algum sofrimento, às vezes muito sofrimento, há ali, a ponto de levá-lo a buscar ajuda.

O que foi, o que é, no mundo real dos fenômenos, nunca saberei ao certo e me contento com o que me foi apresentado, com o que o cliente deu conta de trazer até ali. Importa como ele os pode ressignificar para continuar sua trajetória. Verdades e mentiras se desmisturam e ficam claras no decorrer do processo psicoterapêutico.

Embora a compreensão dos fenômenos apenas como eles se apresentem seja atitude inerente ao meu trabalho e ao meu aporte teórico-existencial, ao longo do tempo, se tornou tão meu no dia-a-dia, que ao assistir ao vivo (sim, eu assisto o Fantástico), não expressei nenhum comentário, não para omitir uma opinião, mas porque na minha compreensão de vida, de ser humano, não tinha elementos suficientes para ter uma opinião…

Os únicos desejos que tive no momento, foram de profunda compaixão pelo sofrimento daquela pessoa, e o desejo de que ela estivesse no meu consultório para, aí sim, compreende-la e aos seus motivos. Ela, e tantos outros que viram ou se tornam a si mesmos alvos da mídia e da opinião pública…

 

Por isso escolhi uma abordagem de trabalho e modo de vida que não “fuça” nem especula sobre o outro. Acolhe, compreende, checa a própria compreensão com o fenômeno trazido pelo cliente, e assim a pessoa vai se conhecendo, se modificando, “se crescendo”, rumo ao seu melhor.

 

E acho que tem mais tecido pra costurar, mas o que era pra ser só um comentário, virou ensaio… 

Saudações

Ana Lúcia Palma


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

. A verdade e o respeito à pessoa e sua narrativa.. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/a-verdade-e-o-respeito-a-pessoa-e-sua-narrativa/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

. (). A verdade e o respeito à pessoa e sua narrativa.. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/a-verdade-e-o-respeito-a-pessoa-e-sua-narrativa/.

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Psicóloga, Psicoterapeuta Humanista, Especialista em Psicologia Clínica, Fundadora e Coordenadora do CPHB - Centro de Psicologia Humanista de Brasília.

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15 Comments

  1. Edna Borba Interessante o ponto de vista número 1, sobre a projeção de nossos desejos no outro, no caso, na fantasia de “mundo perfeito” dos famosos…. excelente comentário.

  2. Olá, Edinaldo Oliveira, veja, o fato de uma personagem pública, famosa e rica chamar tanta a atenção ao narrar um episódio bem intimo de sua vida e que, lamentavelmente, é a realidade de muitas crianças brasileiras, chamando a atenção de todo o país, traz uma provocação que parte de outro questionamento: o pq de somente quando uma figura, repito, pública, rica e muito famosa, vem relatar algo já sabido pelas autoridades e sociedade, conseguir repercussão tão grande?! Portanto, o foco da questão é pensar sobre esse fenomeno terrivel. Se xuxa passou por isso, muitas outras crianças passam diariamente. No entanto, qdo o público faz a critica penso q: 1) É por não aceitar q uma personagem assim como essa, destrua neles a ideia de que ela é feliz e que eu tb posso ser ferindo a imagem idealizada de que eu tb posso chegar a ter essa mesma felicidade q ela conquistou: anseio de todo ser humano; 2) Tb pode ser por estar desacreditado nessas pessoas que mantém vidas de exibicionismo diante de um pais onde a maioria é pobre, revelando o descaso pela pobreza que se contrasta com a riqueza desses poucos. Gente q não sabe entender suas próprios pulsões, ou conflitos e não podem se tratar adequadamente. Penso q não cabe critica a xuxa, nem tão pouco fazer dela o foco das atenções. As criticas, de modo geral e nesse caso, surgem devido a crença de publicidade por traz do sofrimento de outros menos favorecidos. Portanto, são os prós e contra da vida pública. Finalmente, nós como sociedade devemos cobrar das autoridades medidas mais adequadas para, tratando o problema, diminuir os indices e sofrimento de quem passa por isso.

    • Edna, gostei muito de lhe ouvir (ler)! É tudo isso junto, mas o que importa mesmo, nesse e em qualquer caso, são os frutos sociais que se podem colher!
      Um abraço,
      Ana Lucia Palma

  3. Acho que o comentário da Atena traduz o que eu penso e talvez não tenha expressado de forma correta, principalmente quando diz que os adultos deveriam dedicar-se em alertar e esclarecer adolescente. É o que me interessa neste episódio da Xuxa, até porque tem muitas crianças passando pelo mesmo problema e neste momento pode haver uma identificação que permita ajuda-la.

  4. Atena Vieira, achei muito interessante quando você falou:

    “Sempre, sempre há uma motivação por detrás de qualquer ato humano, mas esses motivos jamais poderão ser “descobertos” por outrem até porque, muitas vezes, a própria pessoa os desconhece por serem de caráter inconsciente.”

    Muitos que fazem a análise não verbal, acham que sabem mais das emoções alheias mais do que o próprio interlocutor. E o pior: tiram conclusões precipitadas.

  5. Atena Vieira Tomei a liberdade de transcrever sua resposta, para facilitar a sequência…

    O que se espera de um psicólogo ? Eis a resposta: “modo de vida que não “fuça” nem especula sobre o outro. Acolhe, compreende, checa a própria compreensão com o fenômeno trazido pelo cliente”, portanto sinto -me honrada em ter Ana Lucia como colega.
    Não existe nada mais relativo do que “a verdade”. Como a maior parte da humanidade ainda não desenvolveu a consciência, é comum a gente ver debates sobre a verdade disso ou daquilo. Arvoram-se em juízes, deixam-se levar pelo “disse me disse” e pela primeira impressão sobre fatos ou pessoas.
    Atualmente, com o culto à celebridade e à imagem (pura e simples), estamos vivendo num mundinho cada vez mais falso e, muitas vezes, quando alguém fala a sua verdade os demais logo desconfiam de motivações ocultas.
    Sempre, sempre há uma motivação por detrás de qualquer ato humano, mas esses motivos jamais poderão ser “descobertos” por outrem até porque, muitas vezes, a própria pessoa os desconhece por serem de caráter inconsciente.
    O que levou Xuxa a fazer sua revelação? No meu entender não é da conta de ninguém, mesmo ela sendo um personalidade pública. Desde quando que uma pessoa, por ser pública ,precisa ser posse dos demais para escrutínio e julgamentos?
    Até podemos condenar o sujeito público quando seu comportamento afeta negativamente a sociedade (afinal é visto como exemplo), o que nao foi o caso.
    Acho que está mais do que na hora de as pessoas dedicarem o seu tempo para assuntos mais vitais e importantes do que a vida das celebridades. Sei perfeitamente que elas afetam aos adolescentes, mas os adultos deveriam dedicar-se em alertar e esclarecê-los e não ficar botando mais lenha na fogueira.
    É isso o que eu penso.
    Abraços e parabéns pelo debate.

  6. O que se espera de um psicólogo ? Eis a resposta: “modo de vida que não “fuça” nem especula sobre o outro. Acolhe, compreende, checa a própria compreensão com o fenômeno trazido pelo cliente”, portanto sinto -me honrada em ter Ana Lucia como colega.
    Não existe nada mais relativo do que “a verdade”. Como a maior parte da humanidade ainda não desenvolveu a consciência, é comum a gente ver debates sobre a verdade disso ou daquilo. Arvoram-se em juízes, deixam-se levar pelo “disse me disse” e pela primeira impressão sobre fatos ou pessoas.
    Atualmente, com o culto à celebridade e à imagem (pura e simples), estamos vivendo num mundinho cada vez mais falso e, muitas vezes, quando alguém fala a sua verdade os demais logo desconfiam de motivações ocultas.
    Sempre, sempre há uma motivação por detrás de qualquer ato humano, mas esses motivos jamais poderão ser “descobertos” por outrem até porque, muitas vezes, a própria pessoa os desconhece por serem de caráter inconsciente.
    O que levou Xuxa a fazer sua revelação? No meu entender não é da conta de ninguém, mesmo ela sendo um personalidade pública. Desde quando que uma pessoa, por ser pública ,precisa ser posse dos demais para escrutínio e julgamentos?
    Até podemos condenar o sujeito público quando seu comportamento afeta negativamente a sociedade (afinal é visto como exemplo), o que nao foi o caso.
    Acho que está mais do que na hora de as pessoas dedicarem o seu tempo para assuntos mais vitais e importantes do que a vida das celebridades. Sei perfeitamente que elas afetam aos adolescentes, mas os adultos deveriam dedicar-se em alertar e esclarecê-los e não ficar botando mais lenha na fogueira.
    É isso o que eu penso.
    Abraços e parabéns pelo debate.

  7. Prezada Ana Lúcia,

    Que belo lucro seus comentários renderam…parabéns pelo texto, vamos aprofundar os debates.

    Abraço,

    Edinaldo Oliveira

  8. Dando andamento aos debates iniciados sobre a linguagem corporal e a privacidade, aprofundamos o tema com este novo artigo, escrito por Ana Lúcia Palma, onde aborda o respeito à narrativa do interlocutor.

    Ainda sobre o Depoimento de Xuxa ao programa Fantástico, no qual fala dos abusos sofridos em sua infância/adolescência, é justo fazermos juízo sobre o que o interlocutor nos fala?

    Temos a obrigação de sempre encontrar a verdade?

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