Aglomeração em sua loja é um fator positivo?

Aglomeração em sua loja é um fator positivo?

Com a aproximação do final de ano, muitas lojas e espaços comerciais (como shoppings center, galerias, etc) começam a preparar a decoração de natal, e isto nos remete as lembranças de nossas últimas compras de natal, o quão sofrível pode ser esta atividade, ofuscando um pouco o sentido do verdadeiro “clima de natal”. Isto fica claro nas constantes reclamações dos consumidores e em suas faces pouco sorridentes, basta verificar com um pouco mais de atenção as pessoas no centro da cidade nesta época. aglomeração-linguagem-corporal-natal-estresse

Para quem possui algum tipo de comércio, nesta época terá o movimento da sua loja intensificado. É neste ponto que devemos ficar atentos: aglomerações no ambiente da loja podem prejudicar nossas vendas?

Evidentemente que muitos fatores podem fazer parte da equação desta resposta (inclusive muitas variáveis da proxêmica), entretanto, através do experimento de superpopulação, feito pelo etólogo – quem estuda comportamento animal – e pesquisador comportamental John Calhoun, com ratos, em meados de 1950/60, podem nos indicar algumas evidências do quão prejudicial pode ser  muitas pessoas dividindo um espaço restrito.

Tais estudos inclusive foram utilizados como base para o desenvolvimento da teoria acerca da proxêmica, por Edward T. Hall

 

Como ocorreu a experiência?

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John Calhoun, no outono de 1986, no chá de bebê de seu primeiro neto.

Em 1962, John Calhoun publicou na revista Scientific American um estudo de grande repercussão no meio científico. Sob o título “Densidade Populacional e Patologia Social”, foi descrito em um experimento as consequências do aumento da população de ratos em uma gaiola com um comedouro na parte central e outros distribuídos pelos cantos, onde ia sendo aumentado progressivamente o número de ratos no interior de uma gaiola. O aumento da população tornava-os agressivos, capazes de atacar sexualmente e de devorar os demais.

No final, com a gaiola apinhada, os ataques sexuais e as mortes se multiplicavam, bem como a ferocidade das lutas em defesa de posições privilegiadas junto à vasilha com comida colocada na parte central, embora houvesse acesso fácil aos comedores localizados nos cantos da gaiola. O autor concluiu que a superpopulação coloca o indivíduo e o sistema social sob estresse, mecanismo responsável pela eclosão de violência.

Calhoun desenvolveu o termo chamado “esgoto comportamental” para designar tais distorções, tal fenômeno é o resultado de qualquer processo comportamental que reúna animais em número absurdamente elevado, por isto o termo “esgoto”, pois tal fator age no sentido de agravar todas as formas de patologia que possam ser encontradas dentro de um grupo. (HALL, 1981)

O artigo “Densidade Populacional e Patologia Social”, passou a ser citado 150 vezes por ano. Desde então, seu estudo foi incluído como um dos “Quarenta estudos que mudaram a Psicologia”, comparando-se com artigos de grandes pensadores, como Freud, Pavlov, Milgram, Rorschach, Skinner e Watson (Hock, 2004)

Rapidamente esta experiência tornou-se conhecida entre a população geral, entretanto, existem divergências sobre o assunto, conforme podemos perceber no trecho do livro “Borboletas da alma: escritos sobre ciência e saúde”, onde os mesmos relatam que “durante décadas, a imagem da “gaiola comportamental” de Calhoun contaminou o entendimento das causas da violência urbana: tornou-se crença geral que quanto maior a concentração humana nos centros urbanos, mais violência.

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Ninguém lembrou que, no centro de Tóquio, uma senhora pode andar tranquila à meia-noite, e que São Paulo ou Los Angeles, cidades de grande extensão e densidade populacional muito menor, então entre as cidades mais violentas do mundo…é o que dá extrapolar diretamente para o homem dados obtidos com animais. Apesar de mamíferos, os roedores não são primatas.”

Evidentemente que um só experimento, com ratos, não poderia refletir o mesmo resultado, pois somos seres de complexidade maior. Entretanto, com ressalvas, o estudo tem seus méritos, se agregado com outros fatores (como culturais, proxêmicos, regras de exibição, etc). Para entender melhor, recomendo a leitura do artigo “A linguagem corporal é cultural?

Interessante que esta preocupação com grandes concentrações populacionais, já é abordada inclusive na área criminal/urbanística, como podemos notar no trecho do artigo Respeito às Funções Urbanísticas e a Prevenção da Criminalidade Urbana: Uma Visão Integrada à Luz da Escola de Chicago, onde o autor cita que “em médio prazo, toda a população humana se concentrará no ambiente urbano. Nesse contexto, é possível e necessário correlacionar o planejamento urbano com a violência urbana. A Constituição Federal, ao tratar da função social das cidades, estabelece o imperativo do estabelecimento de plano diretor nas urbs brasileiras com mais de vinte mil habitantes, objetivando, assim, ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes (art. 182 da Constituição Federal).”

 

Voltando as compras.

aglomeração-linguagem-corporal-loja-cleanApós trazermos à tona os estudos de John Calhoun (com as ressalvas indicadas anteriormente, pois não podemos afirmar que o experimento por si só é conclusivo e adaptativo para nossa realidade, tal qual como foi feito), podemos perceber a importância de dispor de um espaço adequado em nossa loja, bem climatizado, com espaços bem definidos, informações de fácil acesso, etc.

Preste atenção na próxima vez que frequentar algumas lojas, em quais você se “desligou” do ambiente por ter suas necessidades, mesmo que apenas as fisiológicas (como calor, sede, nível de ruído, etc) atendidas, podendo se concentrar exclusivamente na compra. Agora imagine fazer a mesma compra em um lugar quente, com alta poluição visual e sonora, dentre outros fatores “perturbadores”, qual loja provavelmente seria a escolhida para efetuar a compra? Sem entrar em questões mais complexas de nossa psiquê, como satisfação, status, etc. Pense nisso!

Abaixo, destacamos alguns exemplos práticos de como diminuir os efeitos negativos da aglomeração:

  • Quanto mais amplo o espaço e menos “barreiras” (como móveis, por exemplo) existirem, melhor, tendemos a ficar mais à vontade neste tipo de “configuração”, algumas lojas já adotam este conceito, fornecendo um amplo espaço para o cliente circular dentro da loja (muitas vezes maior que a própria vitrine com os produto);

  • Evite entradas da loja e demarcações para filas com espaços restritos, pois se as pessoas estiverem se esbarrando na loja, a menos de 30 cm umas das outras, tenha certeza de que estarão se sentindo muito desconfortáveis;

  • Climatize o ambiente de forma agradável (nem muito frio, nem muito quente). Sabemos que este critério é um pouco subjetivo, portanto use do bom senso;

  • Deixe à disposição alguém que possa fornecer informações ou qualquer “mimo” para o cliente. Algumas redes possuem atendentes especializados nos produtos e outros especializados em tornar o ambiente mais agradável, oferecendo água, suco, etc;

  • Tente tornar o ambiente “acolhedor”, um exemplo que vem crescendo bastante é o espaço para o marido, filho, acompanhante, etc da cliente: um espaço reservado com sofá, tv, ar condicionado, bebidas, brinquedos, etc…tudo para que a cliente fique à vontade para observar/comprar os itens da loja. Note que isto é muito comum em revendas de automóveis, separando um espaço mais confortável para o cliente.

Estes foram apenas alguns exemplos, assim, reflitam bastante na criação dos “ambientes comerciais”, e caso o mesmo já esteja pronto, tente avaliar o que pode ser melhorado nos termos propostos no presente artigo, as vezes, pequenas alterações podem repercutir positivamente nas vendas.

Para aprofundar o assunto, recomendamos que leiam os artigos da nossa série “Marketing, publicidade e vendas”, clicando aqui.

É isto, até a próxima,

Edinaldo Oliveira

 

Referências:

FARIAS, Paulo. Respeito às Funções Urbanísticas e a Prevenção da Criminalidade Urbana: Uma Visão Integrada à Luz da Escola de Chicago. Direito Público. Disponível em < http://www.direitopublico.idp.edu.br/index.php/direitopublico/article/viewFile/519/533 >. Acesso em 09 de outubro de 2012.

HALL, Edward. “A dimensão oculta”.2ª edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora S.A. 1981. Edição original em inglês The Hidden Dimension.. Anchor Books, 1966

HOCK, Roger R. 2004.  Forty Studies That  Changed Psychology: Explorations in the History of Psychological Thought. 5th Ed. New York: Prentice Hall.

JUNIOR, Edinaldo Oliveira. A proxêmica na comunicação não-verbal.. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < http://ibralc.com.br/sem-categoria/a-proxemica-na-comunicacao-nao-verbal/> . Acesso em  09 de outubro de 2012.

PIRES, Sergio Fernandes Senna. A linguagem corporal é cultural?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < http://ibralc.com.br/web-destaque/a-linguagem-corporal-e-cultural/> . Acesso em  09 de outubro de 2012.

VARELLA, Drauzio. Borboletas da Alma. Editora: Companhia das Letras, 2006, 1ª Edição. São Paulo

 

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JUNIOR, Edinaldo Oliveira. [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/aglomeracao-em-sua-loja-e-um-fator-positivo/> . Acesso em [data-php].

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Junior, Edinaldo Oliveira. (2012). [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em [data-php], de https://ibralc.com.br/aglomeracao-em-sua-loja-e-um-fator-positivo/ .

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. Aglomeração em sua loja é um fator positivo?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/aglomeracao-em-sua-loja-e-um-fator-positivo/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

. (). Aglomeração em sua loja é um fator positivo?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/aglomeracao-em-sua-loja-e-um-fator-positivo/.

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Edinaldo Oliveira

Graduado em ADMINISTRAÇÃO - GESTÃO DE NEGÓCIOS pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caruaru/PE (2005) e Pós-Graduado em Engenharia de Software pela mesma faculdade, em 2010, além de graduado em Gestão da Tecnologia da Informação, pela ESTÁCIO, em 2014. Diletante do campo da psicologia, com foco no estudo da comunicação não verbal, especialmente no que se refere as expressões faciais, e como esta ferramenta pode ser aplicada em diversas áreas, a saber: segurança, defesa, educação, vendas, nas organizações e na saúde. Além disto, é amante da astronomia, astrofotografia e fotografia.
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