Análise do comportamento não verbal e a linha de base

Análise do comportamento não verbal e a linha de base.

Neste artigo, iremos conceituar e destacar a importância da “linha de base/baseline” na análise do comportamento não verbal.  Segundo Dr. Ekman, em um de seus periódicos sobre a série Lie to Me, conceitua a linha de base como algo que “refere-se ao comportamento habitual de uma pessoa durante circunstâncias normais. Mudanças na linha de base (em circunstâncias normais) sugerem que algo importante está ocorrendo: pode ser o estresse de estar sob suspeita ou reações emocionais por estar contanto uma mentira. Sem uma linha de base, corremos o risco de interpretar erroneamente determinados comportamentos, pois não sabemos se o interlocutor age sempre desta forma. É arriscado julgar sem uma linha de base, daí a minha prática de nunca tomar uma importante decisão baseada em uma reunião, única e breve.” (Tradução livre).

Mônica Portella e Maurício Bastos, em seu artigo “Sinais não verbais da Mentira”, nos fala que “antes de suspeitar que alguém está mentindo, é importante conhecer o comportamento usual da pessoa, obtendo assim uma linha de base de seu comportamento. Ou seja, antes de suspeitar de dissimulação é importante conhecer o comportamento natural da pessoa. Por exemplo, se uma pessoa costuma contar usando todos os dedos e, em uma determinada situação, conta apenas com o dedo médio em riste, podemos suspeitar que está tentando dissimular a emoção de raiva. Porém, se costuma contar utilizando apenas o dedo médio em riste, esse sinal faz parte de seu comportamento natural.”

Recomendamos a leitura do artigo dos seguintes artigos:

Não existe um único e definitivo sinal da mentira, assim, nenhum tipo de gesto, expressão facial ou mudança no tom da voz pode indicar por si só que o interlocutor está mentindo. Assim, além de possíveis gestos e expressões faciais que indiquem uma possível incongruência entre a linguagem verbal e não verbal, devemos adicionalmente conhecer o comportamento padrão do usuário, ou seja, sua linha de base.

 

Como analisar a linha de base do interlocutor?

Poderíamos criar dois termos para diferenciar possíveis situações de análises:


1. Análise do tipo Show de Truman
(Fazendo claramente uma alusão ao filme de mesmo título), onde geralmente analisaremos figuras públicas, e que provavelmente terão diversos vídeos, em várias situações, disponíveis na Internet, por exemplo. Desta forma, poderemos selecionar antecipadamente alguns vídeos (de preferência em situações diferentes: alguns em situação descontraída, situação “neutra” e em alguma situação crítica/tensa).

Geralmente apresentadores, esportistas, casos em evidência (como crimes chocantes), interrogatório em ambiente controlado, etc.,  são as figuras mais cotadas para uma análise mais refinada, do tipo Show de Truman.

2. Análise  de campo, onde geralmente não teremos acesso a vídeos que contenham situações diversas do interlocutor, aqui se encaixam situações como as entrevistas de empregos ou abordagens policiais ainda em campo, por exemplo, onde o responsável pela abordagem deve criar inicialmente situações que levem o interrogado a lhe fornecer um padrão de comportamento um pouco mais consistente.

Neste tipo de abordagem, geralmente são feitas perguntas em que já sabemos a resposta, perguntas sobre assuntos confortáveis e desconfortáveis, enfim, vamos explorando diversas áreas e percebendo o tipo de reação gerada a cada pergunta. Por esta razão, conforme descrito no conceito feito pelo Dr. Ekman no início do artigo, o ideal seria termos mais de uma oportunidade de encontro, para obtermos padrões mais confiáveis.

 

Exemplo de análise comportamental se utilizando da linha de base.

Destacaremos um caso bastante curioso: O do jogador Adriano e o caso do disparo acidental de uma arma de fogo dentro do seu veículo, que atingiu uma das passageiras do veículo. (clique aqui para ler mais detalhes do caso)

Foi escolhido este caso como exemplo, justamente por percebermos um dos “indicadores da mentira” mais propagados no meio da comunicação não verbal: o gesto de balançar negativamente a cabeça enquanto fala algo “contradizendo” o que foi dito.

Em algumas situações afirmamos que fizemos algo, mas durante o discurso (afirmando verbalmente que fizemos algo), balançamos negativamente a cabeça, então, alguns especialistas chegaram à conclusão de que haveria uma incoerência (ou mentira) no que está sendo dito, seria algo como se o cérebro estivesse negando o que é dito. O assunto é controverso, e não entrarei em mais detalhes, visto que estamos tratando de outro tema.

Interessante notar que neste caso do jogador Adriano, o mesmo faz tal gesto ao alegar que não tem culpa no caso, assim, muitos dos que analisaram o vídeo culparam imediatamente o jogador apenas por este gesto, mas se analisarmos alguns vídeos do jogador com um pouco mais de cuidado (aqui se encaixaria no caso Show do Truman), conseguiríamos ir além de um “simples gesto da mentira”.

Observem o vídeo da primeira entrevista sobre o caso:

Viram que ele balançou negativamente a cabeça em alguns momentos? Agora observem estes outros dois vídeos:

Outra entrevista, em um clima totalmente descontraído:

Uma entrevista mais “tensa”:

 

Ficou curioso para saber o resultado da perícia?? Veja este vídeo:

 

Portanto, sempre que possível, além de incongruências verbais x não verbais e alguns gestos que apontem para uma possível ansiedade, formem uma linha de base do interlocutor, e após isto, tentem perceber se o comportamento do mesmo difere ou não desta linha de base. O assunto é sério e exige responsabilidade, então, muito cuidado com suas conclusões.

Até a próxima,

Edinaldo Oliveira

_________________________

Artigo originalmente publicado em 25 de agosto de 2012.

Atualizado em 12 de julho de 2016

_________________________

Referências:

EKMAN, Paul. Periódico Série Lie to Me, 2009. Disponível em: http://www.paulekman.com/wp-content/uploads/2009/11/Episode-11-Undercover.pdf. Acesso em: 24 de agosto de 2012.

PIRES, Sergio Fernandes Senna. A verdade em nossas caras. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em <http://ibralc.com.br/a-mentira/a-verdade-em-nossas-caras/> . Acesso em  25 de agosto de 2012.

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Entenda a Programação Neurolinguística. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < http://ibralc.com.br/web-destaque/entenda-programacao-neurolinguistica/> . Acesso em  25 de agosto de 2012.

PORTELLA, Mônica; Bastos, Maurício. Sinais não verbais da mentira. Disponível em: http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/56/artigo180226-5.asp. Acesso em: 24 de agosto de 2012.


Visite as Seções do Portal:

 


Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

OLIVEIRA, Edinaldo Rodrigues. Análise do comportamento não verbal e a linha de base. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/analise-do-comportamento-nao-verbal-e-a-linha-de-base/> . Acesso em 3 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Oliveira, Edinaldo Rodrigues. (2016). Análise do comportamento não verbal e a linha de base. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/analise-do-comportamento-nao-verbal-e-a-linha-de-base/.

The following two tabs change content below.

Edinaldo Oliveira

Graduado em ADMINISTRAÇÃO - GESTÃO DE NEGÓCIOS pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caruaru/PE (2005) e Pós-Graduado em Engenharia de Software pela mesma faculdade, em 2010, além de graduado em Gestão da Tecnologia da Informação, pela ESTÁCIO, em 2014. Diletante do campo da psicologia, com foco no estudo da comunicação não verbal, especialmente no que se refere as expressões faciais, e como esta ferramenta pode ser aplicada em diversas áreas, a saber: segurança, defesa, educação, vendas, nas organizações e na saúde. Além disto, é amante da astronomia, astrofotografia e fotografia.
Posted in Comunicação Não Verbal and tagged , , , , , , , , , .

5 Comments

  1. Edinaldo oliveira, mais uma vez me supreendeu ! Parabéns por este artigo tão rico em informações e por tirar muita dúvida minha ! Caro amigo continue assim, nos fornecendo artigos importante para nosso crescimento! Mais uma vez obrigado! garanto que essa informação será e, é muito rica para todos nós, apaixonados por essa ciência! abraços e sucesso sempre !

  2. Texto muito legal, Edinaldo!

    Achei muito pertinente a abordagem do tema, já que a maioria dos leigos se deixa influenciar muito fácil por sinais insuficientes para classificar um gesto como sinal da mentira. Ressaltar a importância de uma linha de base na qual possamos nos basear – o famoso referencial – é essencial numa análise bem feita do comportamento.

    Abraço!

    • Olá Felipe,

      Muito obrigado!

      A “linha de base” é um conceito simples, mas por vezes desconhecido ou não utilizado. Iniciei alguns artigos com uma abordagem mais simples (O dos gestos e este agora, em breve farei outros), para que nossos leitores não deixem de lado esses conceitos “básicos” durante a análise.

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

Deixe uma resposta