Como surgem as habilidades naturais para perceber emoções?

EmoçõesA habilidade em interpretar e utilizar a comunicação não verbal, na esmagadora maioria dos casos, não ocorre naturalmente.

As altas habilidades naturais em perceber aspectos da comunicação não verbal podem estar associadas a contextos em que a pessoa, no seu ciclo de vida, passou por abusos ou conviveu em ambientes em que tinha de prestar atenção aos indicadores não verbais tendo em vista o seu bem estar.

Essa conclusão é explicada pela necessidade da pessoa sobreviver em meio à violência, minimizando as chances de ser vitimizada.

Como estratégia geral, ela passa a observar as emoções e a linguagem corporal de seus agressores com o objetivo de antecipar-se ao que pode ocorrer. Dessa forma, vai treinando a sua percepção sem dispor de nenhum conhecimento formal sobre comunicação não verbal.

Mas torna-se mestra em perceber as alterações de humor e reconhecer emoções básicas como raiva, expressões de desprezo e medo.

Em minha carreira profissional, algumas vezes trabalhei em temas que envolviam pessoas que foram vítimas da violência. Muitas deles encontraram a brutalidade dentro de seus próprios lares. Nesse contexto, conheci diversas pessoas que mostravam habilidades especiais para interpretar as emoções pelas expressões faciais.

Diversas vezes tive que atender pessoas hospitalizadas em razão da violência que sofreram e, invarivelmente, elas conseguiam perceber nossas mínimas reações emocionais em relação a sua condição.

Imagino que esse não seja o único contexto no qual possam se desenvolver essas habilidades, pois já conheci pessoas manipuladoras que não possuíam um histórico de terem sido abusadas.

O desejo em “levar vantagem” pode se tornar muito incentivador para aqueles que desejam manipular as emoções de alguém e, a partir daí, tirar proveito dela.

Como vemos, esse contexto não é nada saudável, mas encontramos pessoas com altas habilidades a partir da prática em manipular emoções. Isso pode começar ainda cedo, quando, por exemplo, uma criança deseja ganhar um doce e passa a observar quando seu avô estará mais receptivo às suas investidas.

A principal diferença dessa hipótese para a a da violência é que existe uma aceitação social para ela. Quando somos crianças, manipular os adultos pode receber o nome de “dengo”, oque não é considerado, necessariamente, negativo.

É importante enfatizar que tudo ocorre em um processo crescente.Dengo não é manipulação de emoções, mas pode abrir a porta para isso. A partir daí, a pessoa vai “treinando”, em sua vida, como manipular outras pessoas pela percepção das emoções.

Não é sem razão que esse assunto é tema de diversos filmes. Apesar dos exemplos anteriores, onde as habilidades para reconhecer as emoções pelas expressões faciais ocorrem em ambientes violentos ou como estratégia para tirar vantagem de outrem, possuir essa capacidade é uma bênção e pode auxiliar de forma muito positiva sob muitos aspectos.

Não podemos esquecer que a forma de usar uma determinada habilidade é sempre uma decisão moral.

Uma pessoa que tem conhecimentos em como abrir uma fechadura, por exemplo, pode nos ajudar a entrar em casa depois de perdermos a chave, no contexto de um trabalho honesto, ou entrar em casas para furtar.

Não é o conhecimento que determina qual dos caminhos será trilhado. É a pessoa que os possui, suas crenças, valores, emoções e desejos.

Para as pessoas que não desenvolveram naturalmente a habilidade em reconhecer emoções pelas expressões faciais, não resta outra saída senão aprender e treinar suas habilidades em outros contextos. Em certa medida, todos nós temos experiência pessoal com a percepção e interpretação da comunicação não verbal.

Qual criança nunca se escondeu quando percebeu aquele olhar de reprovação dos pais diante de alguma “arte” que estava em andamento?

Dispondo do embrião dessas habilidades, é preciso nutri-lo para que toda a capacidade e os benefícios do adequado entendimento da comunicação não verbal possam ser experimentados.

O treinamento é benéfico mesmo para as pessoas que possuem um dom natural para interpretar a comunicação não verbal, pois a experiência mostra que essas pessoas se tornam mais seguras, confiantes e assertivas em um grau significativamente mais elevado.


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Como surgem as habilidades naturais para perceber emoções?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/como-surgem-as-habilidades-naturais-para-perceber-emocoes/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2011). Como surgem as habilidades naturais para perceber emoções?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/como-surgem-as-habilidades-naturais-para-perceber-emocoes/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
Sergio Senna

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3 Comments

  1. A pesquisa tem um ponto de vista um pouco equivocado sobre o desenvolvimento de leitura facial e corporal natural..
    A leitura de expressões vem desde criança, más com o tempo isso se torna automático fazendo com que se torne expressões naturais.
    Quando os fatos contradizem as ações a reação que as pessoas tem e os sentimentos esboçados requerem uma analise maior e específica do comportamento.
    A desconfiança e a dúvida ajudam muito para que as pessoas procurem uma maneira de detectar mentiras.. essa é a base da procura e aprofundamento de estudos sobre o comportamento humano. (leitura facial e corporal).
    espero ter ajudado..

  2. É interessante que podemos explorar o lado oposto dessa história, né. Existem aquelas pessoas que não conseguem de forma nenhuma ter esse tipo de aprendizado – a não ser que seja algo bem direcionado, como um tratamento mesmo e treinamento em ahabilidades sociais -, são os autistas.

    Eles mal conseguem olhar nos olhos das pessoas, na maioria das vezes.

    Bom artigo!

    Abraço!

  3. Dr. Sérgio,

    Interessante, que ao contrário do que fala o seriado sobre os “naturais”, as pessoas que desenvolve tal percepção sobre a linguagem não verbal, geralmente possuem mais facilidade para emoções específicas, e não todas, como se mostra no seriado.

    Uma criança que apanha muito, como o exemplo do artigo, tenderá a desenvolver uma percepção aguçada para detectar a raiva, mas outras emoções talvez tenha dificuldade, como emoções agradáveis por exemplo.

    No seriado passa a idéia de que é possível “dominar” a percepção sobre todas as emoções.

    Abraços,

    Edinaldo Oliveira

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