Linguagem corporal e o comportamento respondente

Ao lermos livros sobre linguagem corporal e os sinais da mentira, bem como diversas matérias sobre o tema que estão publicadas na Internet, vemos uma argumentação de que a mentira ativa o Sistema Nervoso Autônomo (SNA).

 De forma geral, a literatura sobre linguagem corporal (principalmente a caracterizada como auto-ajuda) sustenta que, a partir dos sinais observados, podemos concluir se alguém está mentindo ou dizendo a verdade. Será que os sinais do SNA são tão confiáveis assim?

 

A resposta não é tão simples quanto a pergunta e eu diria que uma abordagem adequada envolve, no mínimo, a análise de dois aspectos: (1) A ativação do SNA está ligada exclusivamente à mentira? (2) Estímulos antecedentes diferentes podem eliciar (disparar) a mesma resposta do SNA?

 

A questão 1 é fácil de responder. Obviamente, não é só a mentira que ativa o SNA.

 

A questão 2 envolve uma complexidade maior. Os experimentos de Pavlov são bem populares e bastante antigos (conhecido como condicionamento clássico). Em determinadas circunstâncias, estímulos de diversas naturezas (incluindo alguns que eram neutros) podem eliciar respostas do SNA.

 

A partir dessas observações, explicarei melhor como as pessoas andam “simplificando” demais a observação do comportamento não verbal (principalmente a linguagem corporal, as expressões faciais e os gestos) ficando suscetíveis a erros grosseiros de análise.

Vamos começar por algo que chamo de Psicologia 1.0 – Comportamento Respondente.

Esse tipo de comportamento é, em poucas palavras, aquele que aparece imediatamente após um estímulo.

Essa abordagem teórica funciona muito bem quando queremos entender algo organicamente mais primitivo como uma resposta do SNA que é provacada “quase” que imediatamente por nossos hormônios.

O próprio Dr. Ekman sugere que os sinais não verbais, expressões faciais e alguns gestos são “hard wired” (básicos e ligados ao funcionamento do organismo) e por isso seriam tão confiáveis.

O grande problema é que mesmos esses comportamentos podem ser eliciados por estímulos diferentes.

 

Linguagem Corporal

Vejamos o experimento de Pavlov:

1. Comida é apresentada, então o cão saliva;

2. Comida é apresentada junto com a sineta que toca, então o cão saliva;

3. Depois de um tempo de repetição (emparelhamento de estímulos) de 2, toca-se apenas a sineta e o cão saliva.

 

Mas que raios a sineta tinha a ver com a saliva? NADA!

 

Esse experimento clássico e muito bem conhecido foi realizado com animais, porém o ser humano também funciona de forma semelhante.

 

 Durante a vida, certos estímulos que eram neutros podem ser emparelhados e, uma vez que isso ocorra, passam a eliciar respostas autonômicas (sejam expressões faciais, sejam gestos, sejam náuseas etc).

 

Nessa postagem simplificamos bastante o raciocínio, que provem de teoria muito robusta e que já tem mais de um século de experimentos científicos e de prática clínica para sustentá-lo. Na psicologia clínica, é utilizado para explicar alguns casos de Sindrome do Pânico, por exemplo.

 

 Esse raciocínio também serve para demonstramos que não dá para ver alguém gaguejar, ou ficar vermelho, ou coçar o nariz, ou esfregar a mão no corpo, ou encolher-se, ou muitos outros sinais e já ir dizendo que a pessoa está mentindo. Só por que o SNA foi ativado.

 

Como uso isso para entender e observar a mentira?


A observação dos sinais visíveis de ativação do SNA é muito válida para a identificação da mentira. Nossa argumentação é de que essa observação deve ser feita com técnica e cuidado.

Em outro artigo trataremos da linguagem corporal e do condicionamento operante, que também pode influir no estabelecimento do nosso comportamento. Antes de terminarmos, é importante ressaltar que estamos analisando apenas os processos conhecidos como básicos. Se a isso acrescentarmos os processos superiores e que nos caracterizam como humanos, as interpretações podem ficar ainda mais complexas.

Outro alerta importante diz respeito à forma como os analistas do IBRALC interpretam a linguagem corporal. Procuramos considerar que os processos básicos (comuns a todos os animais) e os processos superiores (aqueles que nos caracterizam como humanos) compõem, de forma sistêmica, o nosso psiquismo e que não há, necessariamente, uma hierarquia entre eles.

 

 Esse aviso é importante, pois há abordagens que consideram que, já que somos humanos, os processos superiores se sobrepõem aos básicos (o que não se verifica na prática). Começamos pela explicação da influência dos processos básicos, mas consideramos tudo em nossas análises concretas.

 

A interpretação do comportamento não verbal não admite conclusões apressadas com base em poucos indicadores, então cuidado com julgamentos apressados e baseados em poucas observações e em pouco conhecimento sobre o assunto.

Um abraço

Sergio Senna


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Linguagem corporal e o comportamento respondente. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/comportamento-respondente-linguagem-corporal/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2012). Linguagem corporal e o comportamento respondente. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/comportamento-respondente-linguagem-corporal/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
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