Dedução e análise do comportamento

Recentemente, recebi um comentário em uma postagem que tratava dos requisitos que precisam ser desenvolvidos para que alguém seja um especialista em interpretação do comportamento não verbal:

 Especialista em Linguagem Corporal

Achei o comentário e as perguntas tão interessantes que resolvi escrever um artigo sobre o tema.

O nosso leitor escreveu o seguinte:

Dr. Senna, gostaria que o senhor me esclarecesse uma pequena dúvida que tenho há muito tempo. Esses estudos que o senhor faz com relação a linguagem corporal tem a ver com a linguagem comportamental? Para elucidar melhor isso, vou citar um exemplo;

Sempre gostei de livros de literatura policial, como os da Agatha Christie, Conan Doyle, Edgar Allan Poe, entre outros. Nesses livros sempre tem um detetive muito bom no senso dedutivo e genial. Um exemplo clássico, é o eterno Sherlock Holmes, que tornou famoso essa prática.

Pois bem, como o senhor sabe, ele utiliza o método dedutivo e científico para resolver os mistérios, mas ele não se baseia especificamente na leitura facial, ele abrange para uma coisa muito mais complexa e ampla, que é a leitura comportamental do indivíduo. O modo como caminha, o porquê daquela roupa, porque ele tem as mãos calejadas… Tudo isso à base da observação, com isso, ele realiza a dedução. Embora nesses livros muitas vezes mostram um senso dedutível exagerado, que chega a beirar ao fantasioso em alguns aspectos. Uma coisa me chamou atenção à respeito disso.

Porque eu queria saber se as técnicas que o senhor usa, se limitam apenas à linguagem corporal ou abrangem mais além. Vale lembrar um detalhe que poucas pessoas sabem. O Conan Doyle criador do personagem Sherlock Holmes, não criou ele do nada. Ele teve um professor de medicina chamado Joseph Bell, que segundo Doyle era extremamente brilhante em deduzir a personalidade das pessoas, sem nunca ter as visto. Ele fala que ele conseguia olhar para a mão de um paciente e revelar que tipo de ofício ele exercia. Ou olhar para o modo dele se comportar e dizer o porquê daquele comportamento.

Eu sempre achei genial esse tipo de coisa, porque você consegue revelar detalhes de uma pessoa usando uma técnica basicamente de observação e dedução. Queria que o senhor esclarecesse melhor isso, já que é um especialista no ramo, além de psicólogo. (grifos nossos)

Sobre isso tenho a dizer que a observação para predição do comportamento só é possível por que existe um certo padrão (variável, é verdade) mas estável o suficiente para permitir que façamos inferências. Venho explicando isso em várias postagens (veja algumas abaixo):

O Estudo da linguagem corporal é ciência?

Identificamos melhor a mentira assistindo Lie to Me?

Linguagem Corporal e o comportamento respondente

 

Os comportamentos se relacionam uns com os outros e estabelecem cadeias comportamentais ou vínculos entre eles, fenômeno que recebe nomes diferentes  dependendo da abordagem em Psicologia que se proponha a explica-lo. O que nos importa é que existem relações entre os comportamentos.

O difícil para o analista, é que essas relações podem ser alteradas (natural ou artificialmente e sem controle consciente do sujeito) ao longo da história de vida de alguém. Para explicar isso, escrevi um artigo que trata do comportamento respondente e do condicionamento clássico e operante, o que chamo de Psicologia 1.0. Esse é um conhecimento básico para quem quer analisar o comportamento humano. 

Por perceber a carência dos assim chamados “especialistas” nesse tipo de conhecimento por demais básico, é que questiono tanto as tais receitas de bolo com padrões rígidos do tipo:

  • posição do olhar e mentira:
  • 93% da comunicação ser não verbal;
  • não sorrir ser sinal da mentira; e
  • tantas outras que já foram objetos de artigos no Portal IBRALC e que você encontra na TAG MITOS.

Especificamente sobre a questão da dedução, digo que é a principal ferramenta de que dispõe o analista do comportamento para tentar encontrar as relações entre os comportamentos e seus indicadores. Uma pessoa vai observar o comportamento de outra, comparar o que observou com a linha de base do próprio sujeito e criar hipóteses, considerando outras observações tais como o ambiente, as interações da pessoa, sua história de vida, seu comportamento verbal etc. Às vezes, essas relações são muito óbvias, em outras ocasiões elas podem ser muito difíceis de encontrar: um verdadeiro desafio para mentes brilhantes.

Nesse contexto, o analista tem que lembrar que o comportamento humano obedece a alguns princípios, entre eles o da equifinalidade: o mesmo comportamento observado pode ser causado por razões diferentes.

Linguagem corporal - FrioEntão, se essa pessoa desavisada leu um livrinho de linguagem corporal que afirma serem os braços cruzados um indicador de que a pessoa é fechada e além disso ela tira essa conclusão a partir de uma foto….. vai poder fazer um rosário de interpretações sobre a “personalidade fechada” dessa pessoa que está sendo analisada.

O que o analista não sabia, e que também não dá para ver na foto é que estava frio naquele local….. o que é razão suficiente para a pessoa cruzar os braços.

Penso que esse é o motivo pelo qual muitos preferem uma lista fixa de indicadores: observar o comportamento, criar hipóteses e lidar com elas dá muito trabalho. E, na minha experiência, tenho percebido que as pessoas, no geral, não querem ter esse trabalho todo. É por isso que venho, há tempos, argumentando que não se pode afirmar que alguém está mentindo apenas com base em um indicador.

Outro dia, navegando pela Internet, vi um desses assim autodenominados especialistas fazer uma análise do casal de policiais militares que foi assassinado pelo filho em São Paulo. Achei aquela análise um absurdo tão grande e de tamanha irresponsabilidade que, se o tal analista fosse psicólogo, valeria uma denúncia ao Conselho Regional.

Nesse caso, meu cara leitor, também foi utilizado o método dedutivo, mas a partir de indicadores e de pressupostos equivocados. Então, cuidado, pois não é só o método que garante o acerto, mas também assumir pressupostos corretos e, principalmente, manter o respeito às pessoas que estão sendo observadas.

Um abraço e siga comentando as nossas postagens.

Sergio Senna


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Dedução e análise do comportamento. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/deducao-analise-comportamento/> . Acesso em 4 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2013). Dedução e análise do comportamento. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 4 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/deducao-analise-comportamento/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
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5 Comments

  1. ola, sei que a materia é antiga, mas tem alguns cursos além da linguagem corporal para se aprimorar nessa area e aprender a fazer deduções quase como o sherlock?

  2. Obrigado, pela explicação referente ao meu comentário. Sempre achei que essas “receitas de bolo” não funcionavam. É muito mais amplo, e a pessoa sempre precisa usar o famoso MÉTODO SOCRÁTICO para poder chegar a conclusão verdadeira. Se não acaba virando um pouco de sofismo, como você mesmo observou em relação ao exemplo da foto. Quero também agradecer pelas suas contribuições no campo e pelo portal excelente que criaste. Muito bom mesmo! Continuo meus estudos pelos seus artigos aqui. Um abraço!

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