Detonando mitos sobre linguagem corporal

Quando as pessoas descobrem que eu me especializei em analisar o comportamento não verbal, elas, não raras vezes, ficam preocupadas e reagem como se fosse possível descobrir os seus pensamentos mais profundos.

É óbvio que tal profundidade de análise não é possível e somente algum ser sobrenatural dotado de onisciência seria capaz de tal feito. Esse é apenas um dos muitos mitos propagados pela literatura de auto-ajuda e que se espalharam entre as pessoas.  Adiante eu comento mais três:

 

1º mito: A linguagem corporal corresponde a 93% da comunicação.

 

Dois estudos realizados pelo Dr. Albert Mehabrian tiveram suas conclusões mal interpretadas e indevidamente generalizadas como se “o impacto total do significado de uma mensagem se baseasse em: 7% palavras usadas; tom 38% de voz, volume, velocidade da fala, tom de voz, 55% expressões faciais, gestos , posturas e outras formas de linguagem corporal. ”

Entretanto, Mehabrian nunca alegou que você poderia ver um filme em língua estrangeira e que entenderia 93 por cento do conteúdo apenas observando as expressões faciais ou a linguagem corporal. As pesquisas foram focadas na comunicação de emoções – especificamente, gostar ou não gostar.

A partir daí, fica claro que a comunicação não verbal não é responsável por tamanha parte do processo comunicativo. Aliás, basta bom senso para perceber a estupidez dessa afirmação. Nunca consegui entender como as pessoas engoliam isso…..

Se você quiser mais detalhes sobre essas pesquisas, suas possibilidades e limitações, leia o nosso artigo:

Veja o artigo completo sobre esse mito

 

2º mito: Mentirosos não fazem contato visual.

 

Culpa - Linguagem CorporalO mito mais conhecido sobre linguagem corporal e a mentira é que não fazemos contato visual quando mentimos. Enquanto alguns mentirosos (especialmente crianças) têm dificuldade em mentir olhando nos seus olhos, a maioria dos mentirosos, especialmente os mais descarados, irão encará-lo com toda ternura e despejar inúmeras mentiras com a maior sinceridade!

É por esse e outros motivos que foi cunhada a expressão “cara de pau”. Alguém que mente descaradamente, sem medo de ser feliz. Lembre-se que os mentirosos mais eficientes simulam muito bem com o objetivo de “provar” que eles não estão mentindo, fazendo contato com os olhos e simulando outros indicadores de confiança. Não caia no canto da sereia. Mentirosos, sim, olham em seus olhos enquanto mentem.

 

3º mito: Braços cruzados sempre significam resistência.

 

Braços cruzados - linguagem corporal

Naturalmente, os braços cruzados podem indicar resistência, especialmente se a pessoa adotar esse gesto em um contexto de estresse. Mas também pode significar muitas outras coisas – ou nada – dependendo da situação. Em palestras, eu espero que as pessoas estejam um pouco fechadas ao início, motivo pelo qual me esforço por prover a informação mais precisa possível e tratar as pessoas com amabilidade e paciência.

Outro cenário muito comum para cruzar os braços é sentar-se em uma cadeira sem braços. A falta de apoios aumenta a probabilidade de que a pessoa cruze os braços – como seria também esperado diante de uma queda na temperatura ambiente.

Além disso, observa-se que a concentração para resolver um problema pode fazer uma pessoa cruzar seus braços e até mesmo caminhar de um lado para o outro nessa posição.

Você acha mesmo que a mulher na foto ao lado está fechada?

Então, cuidado, viu quantas hipóteses para alguém estar de braços cruzados e falando com você?

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Abraço

Sergio Senna


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Detonando mitos sobre linguagem corporal. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/detonando-mitos-linguagem-corporal/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2012). Detonando mitos sobre linguagem corporal. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/detonando-mitos-linguagem-corporal/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
Sergio Senna

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5 Comments

  1. O grande problema com as informações difundidas sobre linguagem corporal, nos livros de auto ajuda, é que o título se torna mais atrativo do que a investigação sobre o autor do livro.
    Vendo de uma maneira probabilística a maioria das pessoas que procuram um livro de auto ajuda, já devem estar com um problema sobre elas ou com alguma desconfiança sobre a própria vida social, quando deparada com títulos “Descubra o que os outros estão pensando!”, “Nunca mais seja enganado” ou “Seja um detector de mentiras humano” – todos títulos de livros existentes que já me encontrei – parecem cair como uma luva na situação momentânea. O que acaba levando às enganações exacerbadas existentes nessa área científica.
    Creio que mais vale os estudos com motivos mais nobres e cautelosos do que a busca por uma “carta na manga” para sua própria vida social. Digo isso, porque a fusão de sentimentos que temos sobre determinada pessoa ou situação pode nos levar a muitos enganos na hora da interpretação da linguagem corporal, o que talvez seja uma situação normal a análise errônea pode transformar em algo catastrófico inexistente: exemplo: uma pessoa coçando no nariz, é acusada de ser mentirosa, outra fazendo o sinal de não com a cabeça, considerada mentirosa também, braços cruzados por causa do frio, uma retração.
    Cuidado com os artigos de internet e dos livros, muitos são feitos para apenas vender, e ainda mais cuidado com propostas muito fácil de detecção de mentiras. A vida não é igual a Lie To Me.

    Mais um excelente artigo Dr. Sergio Senna!

    Abraços e até logo!

    Rogério B.

    • Prezado Rogério, obrigado pela sua participação sempre atenta no Portal.

      Um dos meus motivos para manter o conteúdo do Portal IBRALC foi meio quixotesco: eu queria informar melhor as pessoas sobre a análise do comportamento não verbal. Eu percebia que havia uma literatura perversa que prometia mundos e fundos e facilidades de análise que não existiam na realidade.

      De alguma forma eu queria me contrapor a isso, mantendo um conteúdo que servisse de referência para aqueles que são interessados sobre o tema.

      Desde que inaugurei o Portal recebi diversas propostas de associação com pessoas que mantém conteúdos de procedência duvidosa. Mesmo com toda a minha crítica às práticas dessas pessoas em oferecer informação imprecisa e, por vezes, mentirosa não percebi qualquer constrangimento em me proporem parcerias.

      Sistematicamente ofereço negativas a essas investidas e venho me preservando de pronunciamentos sobre paquera, pegação etc (que são grandes motivadores para a criação desses mitos e da venda de livros que prometem resultados milagrosos). Sou casado com minha esposa há quase 25 anos. Estamos planejando nossas bodas de prata. Quem sabe parte dessa vitória foi conseguida utilizando técnicas verdadeiras de análise do comportamento não verbal ao longo de tantos anos para que pudéssemos entender um ao outro?

      Já encontrei muita gente decepcionada com as receitas de bolo. É uma pena que primeiro a pessoa tenha que passar por uma experiência frustrante para depois se reorientar para um estudo mais consistente.

      Continuarei a explicar outros mitos. Estou para escrever sobre um dos mais complexos, que provém da PNL: o Sistema de Representação Primária. A PNL propõe que uma pessoa tem um sistema preferencial para interpretar: ou visual, ou auditivo ou cinestésico. Alguns autores gananciosos chegam a divulgar que “estudos científicos” comprovam…..

      A realidade é o contrário, os estudos científicos contradizem isso.

      Aguarde, pois certamente você vai gostar.

      um abraço
      Sergio Senna

    • Olá Rogério,

      Gostei bastante das suas considerações, pois retratam bem a realidade…

      Sou extremamente contra técnicas “amorosas” de linguagem corporal, pois não vejo fundamento no que se alega por aí, mesmo sem levantar questionamentos em relação a ciência por trás delas (se é que existe alguma), basta ter um pouco de bom senso e veremos que não existe muita lógica na proposta destes especialistas.

      Recentemente vi que estão replicando uma pesquisa da psicóloga Amy Cuddy, professora da Harvard Business School, acerca de que certas “poses poderosas” poderiam influenciar nossos hormônios, de forma que ganhamos uma vantagem sobre determinada situação (como uma entrevista de emprego por exemplo).

      Você pode ver uma matéria com o resumo da pesquisa aqui: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1158473-pesquisa-mostra-o-poder-das-posturas-corporais.shtml

      Quem posou de poderoso teve aumento nos níveis de testosterona e queda nos de cortisol, o que faria que alguém desconfortável em determinada situação, após fazer tais poses, pudesse repetir a situação e obter mais êxito.

      Não li a pesquisa em detalhes, entretanto, acho um pouco estranho tais resultados,(1) porque alterações hormonais podem ter diversas razões (o simples fato de acordar, de andar, se movimentar, o estresse, tudo influencia…), e (2) já percebeu que após uma entrevista por exemplo, na segunda repetição você já está mais tranquilo? pois de certa forma já esta mais ambientado, já pensou em possíveis respostas, etc etc??

      Entretanto, tal pesquisa tem uma forte apelação, assim como as “técnicas de conquistas amorosas”, pois é muito bom imaginar que fazendo determinada pose por alguns minutos, irei ganhar alguma vantagem em certas situações, e o mundo quer isso: vantagem ganha de forma rápida, afinal, ninguém quer mais esperar.

      Se quiser ganhar dinheiro, o ramo é este meu amigo…mas a consciência é sua… rsrsrs

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

    • Eu que agradeço pelo portal, Dr. Sergio Senna. Se não fosse por ele, eu estaria ainda vagando pelo mundo da PNL, mesmo desconfiando, mas ainda acreditando que poderia ser tudo verdade.
      Creio que experiências amorosas devem ser encaradas com outra abordagem, muitas pessoas o buscam praticamente como uma competição, – o que as leva buscar uma ”carta na manga” para o relacionamento em livros de auto ajuda – não existe mais o princípio do amor recíproco, onde existem partes iguais. No final, a busca disso tudo é uma objetivação para quem vai sair ganhando mais com o término ou perdendo menos, no quesito emocional. Lamentável.
      E já estou aguardando ansiosamente o próximo artigo sobre a orientação primária, digo porque uma vez eu estava lendo um livro e havia um teste: Feche os olhos e pense sobre o lugar em que você morava quando tinha sete anos de idade. Resultado; Se visualizou as paredes da casa, as cores, a orientação é visual, se ouviu vozes é auditivo e se teve sentimentos sobre o lugar, cinestético. Era relatado que 95% das pessoas tem orientação visual. Que conveniente essa porcentagem, não? rsrs.
      Edinaldo Oliveira, eu li o link que você me mandou, me senti lendo um livro de auto ajuda. rsrs
      Achei tudo muito superficial, ”pagar” uma de poderoso não o transforma em um, mas pelo que notei, tem muita gente satisfeita com esses estudos. Particularmente falando, achei meio um insulto a inteligência e ao bom senso, mas cada um acredita no que quer.
      Acho que a posição pode até dar um ar de poder, mas isso é complementar, tem muitos outros fatores envolvidos, principalmente a exposição de opiniões, argumentações, vocabulário e etc…
      E concordo contigo, o ramo pra conseguir dinheiro é esse, já que todo mundo parece muito satisfeito com o que lê nesses livros. rs

      Obrigado!

      Abraços e até mais!

      Rogério B.

    • Olá Rogério,

      Belas considerações as suas…gostei bastante.

      Quanta a tese da posição de poder, estou vendo com um colega meu, mestre em biologia, para tentarmos achar alguns furos e gerar um artigo rsrs

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

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