Exame RMF: Verdade ou Mentira?

Exame RMF: Verdade ou Mentira?

Primeiramente, o que viria a ser a Ressonância Nuclear Magnética (RNM)? Nada mais é do que um exame para diagnóstico por imagem que retrata imagens de alta definição dos órgãos através da utilização de campo magnético. A ressonância magnética não utiliza radiação e visa gerar imagens da estrutura cerebral.

maquina-rmf

Por outro lado, a Ressonância Magnética Funcional (RMf), ou do inglês functional Magnetic Resonance Imaging (fMRI), seria um “avanço” da tecnologia RNM, pois consegue visualizar o fluxo sanguíneo ou medir o nível de oxigênio no sangue, formando assim a imagem.

Dentre as técnicas utilizadas em RMf, a mais empregada atualmente baseia-se no chamado efeito Bold. O termo Bold é uma sigla para Blood Oxygenation Level Dependent effect, isso porque esse método baseia-se no nível de oxigenação do sangue. O uso da técnica Bold é tão difundido atualmente que sempre que se fala em RMf, considera-se, implicitamente, que o método seja esse, a não ser que um outro seja especificado (COVOLAN et al, 2004). De forma extremamente resumida, poderíamos dizer que a RNM verifica a estrutura anatômica, ao passo que a RMf verifica a função metabólica.

A RMf tem sido aplicada a uma grande variedade de estudos funcionais, e especialmente um deles nos interessa: as investigações neuropsicológicas envolvendo reações emocionais e julgamentos morais (MOLL et al, 2002), mas afinal, em que medida estas informações podem nos interessar?

Já citamos no artigo “Quais são as técnicas para detecção de mentiras?” (Leia aqui), que este exame vem sendo experimentado como um novo polígrafo, e um caso recente (ocorrido em 2007) colocou à prova esta teoria: Teria o ex-sargento Gary Smith assassinado seu colega de quarto Michael McQueen ou McQueen teria cometido suicídio e Gary estava tentando encobrir este suicídio? (The Washington Post, 2007)

Observem as imagens originadas da varredura do cérebro de Gary Smith:

gary-verdade-mentira

Na parte superior, podemos perceber maior atividade em algumas regiões do cérebro, quando foi instruido a mentir, já na imagem inferior, quando ele foi instruido a dizer a verdade, podemos observar uma atividade cerebral bem menor.

Os advogados de defesa queriam usar essa tecnologia como evidência no tribunal, afirmando que Gary Smith não queria atirar fatalmente em seu companheiro de quarto, mas o juiz determinou que não isto não seria admissível, porque não há consenso científico entre sua atividade cerebral e as provas levantadas no caso (que o incriminavam).

Mais detalhes do estudo podem ser acessados no artigo  Debate on brain scans as lie detectors highlighted in Maryland murder trial (clique aqui), entretanto, diversos neurocientistas divergiram sobre a eficácia de tal método na detecção da mentira, pois em alguns momentos o método se mostrava preciso e em outros não. 

A presente ferramenta é com certeza um avanço no campo da detecção da mentira, entretanto, a mesma deve ser utilizada como mais uma ferramenta de análise, e não como único e exclusivo método de detecção.

 

Até a próxima,

Edinaldo Oliveira

 

Referências: 

COVOLAN, Roberto; ARAUJO, Dráulio B. de; SANTOS, Antonio Carlos dos  e  CENDES, Fernando. Ressonância magnética funcional: as funções do cerébro reveladas por spins nucleares. Cienc. Cult. [online]. 2004, vol.56, n.1 [cited  2012-11-09], pp. 40-42 . Disponível em <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252004000100027&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0009-6725.

LARIS, Michael. Debate on brain scans as lie detectors highlighted in Maryland murder trial. The Washington Post. Disponível em <http://www.washingtonpost.com/local/crime/debate-on-brain-scans-as-lie-detectors-highlighted-in-maryland-murder-trial/2012/08/26/aba3d7d8-ed84-11e1-9ddc-340d5efb1e9c_story.html>. Acesso em 07 de novembro de 2012.

LONDOÑO, Ernesto. With Murder Trial, Family Seeks Truth in Son’s Death. The Washington Post. Disponível em <http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2007/11/14/AR2007111402473.html>. Acesso em 07 de novembro de 2012.

MOLL, J.; OLIVEIRA-SOUZA, R.; BRAMATI, I.E.; GRAFMAN, J. “Functional networks in emotional moral and nonmoral social judgments”. Neuroimage 16, 696-703 2002.

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Quais são as técnicas para detecção de mentiras?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < http://ibralc.com.br/a-mentira/quais-sao-as-tecnicas-para-deteccao-de-mentiras/> . Acesso em 07 de novembro de 2012.

 

Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

JUNIOR, Edinaldo Oliveira. [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/exame-rmf-verdade-ou-mentira/> . Acesso em  [data-php].

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Junior, Edinaldo Oliveira. (2012). [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em  [data-php], de https://ibralc.com.br/exame-rmf-verdade-ou-mentira/ .

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. Exame RMF: Verdade ou Mentira?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/exame-rmf-verdade-ou-mentira/> . Acesso em 3 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

. (). Exame RMF: Verdade ou Mentira?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/exame-rmf-verdade-ou-mentira/.

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Edinaldo Oliveira

Graduado em ADMINISTRAÇÃO - GESTÃO DE NEGÓCIOS pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caruaru/PE (2005) e Pós-Graduado em Engenharia de Software pela mesma faculdade, em 2010, além de graduado em Gestão da Tecnologia da Informação, pela ESTÁCIO, em 2014. Diletante do campo da psicologia, com foco no estudo da comunicação não verbal, especialmente no que se refere as expressões faciais, e como esta ferramenta pode ser aplicada em diversas áreas, a saber: segurança, defesa, educação, vendas, nas organizações e na saúde. Além disto, é amante da astronomia, astrofotografia e fotografia.
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10 Comments

  1. Rogério, só para comentar sua questão pertinente sobre se esses aparelhos seriam capazes de diferenciar uma memória falsa de uma verdadeira…Eu li uns artigos, há um tempinho atrás, sobre justamente esse assunto.

    O consenso dos cientistas, até ode li, é que mais estudos são necessários na área, mas, com toda limitação, os poucos estudos existentes parecem ir na direção de que as memórias verdadeiras, quando evocadas, causam uma atividade meior de áreas sensoriais do que as falsas memórias.

    Então, algumas pistinhas aqui e ali já existem sobre esse assunto. Talvez no futuro isso seja refinado e tenhamos uma maior precisão.

    Abraço!

    • Obrigado, Felipe. muito interessante o seu comentário.
      Também não fazia ideia dessas pesquisas. Espero futuramente ver um equipamento com capacidade de diferenciar essas duas situações. Mesmo eu achando que isso pode demorar muito tempo. rs

      Abraços!

      Rogério B.

  2. O problema que vejo na relação do Sgt. Gary, entre o cérebro “mentiroso” e o “verdadeiro”, são as perguntas que teriam feito ele dizer a verdade ou a mentira. Creio que quanto mais elaborada a pergunta, mais exige do funcionamento cerebral.
    Fui pesquisar na net para ver se encontrava algum assunto relacionado, e encontrei um interessante:

    ” Dr. Faro e seus colegas testaram 10 voluntários. A seis deles, pediram que disparassem uma arma de brinquedo e então mentissem, dizendo que eles não o fizeram. Três outros voluntários que assistiram disseram a verdade sobre o que aconteceu. Um voluntário abandonou a pesquisa.

    Enquanto davam seu testemunho, os voluntários foram conectados a polígrafos e também tiveram sua atividade cerebral medida por ressonância funcional. Neste tipo de exame, um ímã muito forte ajuda a fornecer retratos da atividade cerebral em tempo real.

    Houve diferenças claras entre os mentirosos e os que disseram a verdade, disse a equipe de Faro numa reunião da Sociedade Radiológica da América do Norte, em Chicago.

    – Encontramos um total de sete áreas de ativação no grupo que mentiu. Encontramos quatro áreas de atividade no grupo que falou a verdade.

    De modo geral, mentir pareceu exigir mais do cérebro do que dizer a verdade, descobriu a equipe.

    A mentira ativou uma parte frontal do cérebro – as áreas média inferior e pré-central – bem como o hipocampo, a região médio-temporal e as áreas límbicas. Algumas dessas estão envolvidas em respostas emocionais, disse Faro.

    Durante a resposta verdadeira, os exames mostraram ativação de partes do lobo frontal, do lobo temporal e do giro cingulado.

    Faro ressaltou que o estudo era pequeno e limitado. Não se pediu que os voluntários tentassem especificamente enganar o equipamento, relatou o pesquisador, lembrando que algumas pessoas podem enganar os polígrafos, os detectores de mentira convencionais. ”

    Como o próprio texto já diz, é extremamente limitado a pesquisa, pode ser a raiz no processo evolutivo de detecção de mentira, como pode ser apenas uma especulação.
    Teria que ser abrangido um número maior de pessoas e com algumas variáveis possíveis, como tentar enganar o equipamento com verdades e mentiras mais elaboradas, por exemplo.
    A teoria da técnica BOLD segue a lógica comparativa semelhante as que usam a pressão sanguínea pra detectar uma mentira, na qual se acredita que uma pessoa ficaria mais tensa no momento em que se deparasse com tal situação, elevando seus batimentos e pressão arterial, na técnica BOLD seria elevação da atividade neural.
    Só quando houver a certeza dessa extensão entre a mentira e atividade neural, aí sim podem começar os estudos mais elaborados na relação entre RMf e a mentira.

    Lembrando que essa é apenas a minha opnião. rs.

    Excelente artigo, Edinaldo, acertou na dica, gostei muito!

    Abraços e até mais!

    Rogério B.

    • Olá Rogério,

      Sabia que você ia gostar, já que envolve um pouco sua área de trabalho.

      Interessante o seu relato. Se você ler o artigo que falou sobre a pesquisa, vai ver um dos testes que levou ao falso positivo. O evento ocorria da seguinte forma:

      Primeiramente os pesquisadores colocaram estudantes em uma máquina de ressonância magnética funcional e mostraram-lhes uma série de datas irrelevantes. Os alunos foram convidados a pressionar um botão “Não” se a data não significasse nada para eles (por exemplo, uma data de aniversário significaria algo). Após reconhecer os padrões cerebrais destes alunos, os pesquisadores puderam detectar com precisão quando os estudantes estavam mentindo.

      Entretanto, os alunos também aprenderam a enganar a máquina da seguinte maneira: ao invés de mover um dedo do pé, eles imaginavam apenas estar movendo este dedo, desta forma, a taxa de precisão caiu para 33%. Ou seja, poderiam de fato estar movendo o dedo ou não, e com o artifício (apenas imaginar o movimento), conseguiam enganar a máquina.

      Além disto, como você falou, emoções complexas dificultam a determinação de uma precisão no resultado.

      Existe um outro estudo que “mapeia” áreas do cérebro relacionadas a determinadas emoções básicas, irei em um próximo momento tentar elaborar algum artigo sobre este estudo. Minha intenção aqui foi trazer à tona a utilização deste equipamento.

      Abraço e até a próxima.

      Edinaldo Oliveira

    • Vou aguardar os próximos artigos, acho muito interessante os equipamentos que podem descobrir algo tão complexo do funcionamento cerebral, que é o desenvolvimento de uma mentira.
      E ainda é mais interessante essa pesquisa que você me mostrou.
      Acho que os equipamentos que possuímos atualmente, não são capazes de compreender e revelar algo tão complexo, quanto o funcionamento cerebral, ainda mais no quesito da imaginação que é ilimitada. Como seria no caso de uma pessoa com falsas memórias? Apresentaria uma verdade ou uma mentira?
      Por isso creio ser complexo demais pra um equipamento. rs;

      Abraços e obrigado!

      Até mais!

      Rogério B.

    • Olá Rogério,

      Vou tentar trazer mais artigos sobre o assunto.

      Só lembrando que os aparelhos, neste caso o de RMF, são apenas instrumentos para as pesquisas, que aos poucos vão fornecendo alguns padrões mentais durante a mentira/verdade, entretanto, tais máquina dificilmente irão se tornar “detectores de mentira” (pelo menos que funcionem bem). Acredito mais no seu uso aliado à percepção humana, pois além de percepções fisiológicas (como nos antigos polígrafos, que analisam batimentos cardíacos, pressão, etc…) teremos uma informação a mais (o que ocorre fisiologicamente no cérebro e que áreas são acessadas).

      Obrigado por mais esta visita.

      Abraço,

      Edinaldo

    • Concordo com toda sua colocação, Edinaldo.
      Também creio que no futuro esses aparelhos possam servir como aliados, mas ainda acho muito difícil se tornarem, por completo, detectores de mentiras efetivos.
      Não tinha visto o comentário do Felipe, obrigado pelo aviso!
      Abraços e até logo!

      Rogério B.

    • Rogério,

      Eu acredito – e espero – que a avaliação humana nunca saia da equação desta análise, não creio que máquinas poderão fazer isto um dia com alto grau de confiança no resultado, somos muito complexos.

      Abraço,

      Edinaldo

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