Falsa Confissão

Falsas confissões são mais comuns do possa nos parecer em um primeiro momento. A literatura científica e a prática são irrefutáveis quanto a isso. O que levaria alguém a confessar algo que não cometeu?

Falsa Confissão

Parece difícil de imaginar que alguém, em sã consciência, iria assumir a culpa por algo que não fez. Porém, a pesquisa científica vem indicando que é fácil de fazer as pessoas confessarem algo que nunca realizaram. É necessário alertar que essas pesquisas ocorrem em ambiente experimental controlado, o que é muito diferente da vida real, pois uma sala de interrogatório em uma delegacia de polícia pode representar pressão extra para o interrogado.
Desde 1992, existe, nos EUA, o Projeto Inocência, que é uma instituição não governamental (ONG) de auxílio a condenados que vem utilizando testes de DNA para provar a inocência de condenados.

Até a elaboração deste artigo, o Projeto ajudou a inocentar 302 pessoas que haviam sido injustamente condenadas. Entretanto, um dado surgiu da experiência dessa ONG. Cerca de um quarto das pessoas inocentadas através da prova do DNA haviam confessado o crime.

 

Pesquisa e falsas confissões

Um dos trabalhos mais recentes sobre o tema, publicados na revista Law and Human Behavior por Saul Kassin e Jennifer Perillo, é intitulado Inside Interrogation: the lie, the bluff and false confessions.

 

Para realizar o experimento foram utilizados 71 estudantes universitários que foram informados da sua participação em um teste para medir os seus tempos de reação em um computador. Os sujeitos deveriam pressionar as teclas de um teclado quando estas lhes fossem faladas.

Os voluntários foram informados de que a tecla ALT estava com defeito, e que se fosse pressionada, o computador deixaria de funcionar e todos os dados experimentais seriam perdidos.

Na verdade, o computador foi programado para falhar independentemente do que fosse digitado. Quando isso acontecia, o pesquisador perguntava se o participante havia pressionado a tecla proibida, agindo de forma temperamental, supostamente pela “perda dos dados”. Surpreendentemente, um quarto dos participantes aceitaram assinar uma confissão por algo que não cometeram, pois a gravação do acionamento das teclas mostrou que apenas um dos sujeitos havia pressionado a tecla ALT.

 

Falsa Confissão

A pesquisa mostra que, quando são introduzidas provas falsas com o objetivo de fazer a pessoa confessar, como uma pessoa que afirma ter visto o pressionamento da tecla ALT, a taxa de falsas confissões sobe para cerca de 80%.

Em outro experimento, os sujeitos foram colocados em uma sala para realizar um teste. Minutos depois o pesquisador entra e diz saber que o grupo estava colando, pressionando-os a confessar com o argumento de que tudo estava gravado em vídeo, o que seria revisado depois.

Acredito que tais experimentos servem para nos trazer a constatação de que pessoas confessam sem terem culpa. O ambiente policial e os casos que chegam às nossas delegacias de polícia são bem mais graves e existem diversas variáveis ambientais e emocionais que diferem qualitativamente das pesquisas realizadas em laboratório e com estudantes universitários.
Apesar de saberem que o suposto vídeo os exoneraria da culpa, metade dos sujeitos confessou.

 

Aos nossos policiais deve ficar a mensagem acerca da real possibilidade de que pessoas inocentes confessem crimes que nunca cometeram, motivo pelo qual sempre é bom não descuidar de uma investigação bem realizada que colhe todos os tipos de provas que sejam admissíveis.

 

Abraço

Sergio Senna


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Falsa Confissão. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/falsa-confissao/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2013). Falsa Confissão. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/falsa-confissao/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
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