Identificar emoções: um recurso indispensável às atividades da segurança

A atividade de segurança, seja pública ou privada, já não se faz com base em achismos ou de forma empírica como ocorria até pouco tempo. Os profissionais desta área devem ser capacitados a empregar técnicas e métodos modernos, priorizando-se, evidentemente, aqueles que tenham respaldo científico.

Entre as técnicas de investigação oferecidas a estes profissionais, devemos considerar a análise do comportamento não verbal, que utilizada corretamente, proporcionará uma considerável melhoria na capacidade de análise da credibilidade de depoimentos, por exemplo.

 

Nesse contexto, a identificação de emoções pelas expressões faciais é uma das técnicas mais importantes que podemos utilizar para interpretarmos o que realmente esta sendo dito por alguém, ou simplesmente para antevermos algum tipo de reação emocional que pode nos revelar inconsistências no comportamento verbal de nossos interlocutores.

 

As emoções nos homens e nos animaisEm 1872, Charles Darwin já tratava deste assunto, e o mostrou em seu livro A Expressão das Emoções nos Homens e nos Animais, onde relatou suas pesquisas e a de diversos outros cientistas que concluíram que as emoções básicas como raiva, medo e tristeza, por exemplo, podem ser compartilhadas não só pelos humanos.

É importante ressaltar que as idéias seminais de Darwin passaram por um grande aprimoramento através de mais de um século de pesquisa, mas não perdem o seu valor histórico. Além disso, a visão científica ocidental, normalmente, é bem fragmentada e parte de um ponto de vista de apenas alguns processos para explicar um fenômeno. Raramente utilizamos uma abordagem sistêmica, que possa integrar as diferentes razões pelas quais um fenômeno é observado.

Para entendermos esse assunto sob um ponto de vista sistêmico, partimos da premissa de que coexistem processos psicológicos básicos e processos superiores (Valsiner, 2007). Os básicos são mais antigos, normalmente não conscientes e são diretamente relacionados com o funcionamento do Sistema Nervoso Autônomo (SNA). Já os processos superiores nos diferenciam dos outros animais e são constituídos: (1) pela ação conscientemente controlada; (2) pela memorização ativa e (3) pelo pensamento abstrato (Vygotsky, 2007).

A maioria dos cientistas focaliza sua atenção em um ou outro conjunto de processos, devido à grande complexidade que enfrentamos ao considerarmos o psiquismo humano como um todo. Valsiner (2007) explica que a confusão tende a desaparecer quando entendemos que os processos básicos não prevalecem, necessariamente, sobre os superiores e vice-versa. Sobretudo, atuam concomitantemente, de forma isolada ou articulada e não há como generalizar qual deles prevalecerá ou funcionará como “orientador” principal de determinado comportamento.

Sob o estrito ponto de vista dos processos básicos, existem pesquisadores que sustentam que algumas reações emocionais são inatas e comuns a diversas etnias e culturas (e.g. Matsumoto e Willingham, 2009). Esta corrente de raciocínio e de pesquisa se baseia na origem biológica e evolutiva da linguagem (por exemplo, Darwin, 1872; Susskind et al, 2008). Segundo eles, por meio de uma observação apurada, podemos identificar essas emoções com uma margem de erro tanto menor, quanto mais bem treinado for o profissional. Este treinamento é possível, porque as emoções que sentimos, manifestam-se na fisionomia – e em outras reações corporais – por um processo que segundo Ekman e Friesen (2003) tem origem no sistema límbico, ativado pela amígdala, um componente de nosso cérebro responsável pelo envio imediato de mensagens a todas as partes do cérebro quando soa por exemplo, o alarme do medo.

Sistema Nervoso Autônomo - SegurançaDetalhando estas reações, Ekman e Friesen (2003, p. 47-48) argumentam que diante do perigo, o organismo prepara-se para lutar ou fugir, disparando uma grande quantidade de substâncias na corrente sanguínea, mobilizando os centros de movimento, ativando o sistema cardiovascular, os músculos e os intestinos. Simultaneamente, uma expressão de medo é estampada em nossa face como parte desse conjunto de respostas autonômicas.

Às inúmeras reações fisiológicas que se seguem ao soar do alarme, demandariam um autocontrole extremamente eficiente para conseguirmos disfarçar nossas expressões sem sermos notados. Entretanto, a grande maioria das pessoas não são detentoras deste autocontrole, e alguns que o são, não conseguem mantê-lo o tempo todo. Entra em cena então, o profissional bem treinado para identificar essas tentativas de dissimulação.

Sem dúvidas, o policial que investiga um delito, assim como o agente que faz a segurança de um dignitário, ou simplesmente a guarda de um patrimônio, estarão muito mais aptos a desenvolverem suas atividades de segurança de forma eficiente e eficaz, se conhecerem as técnicas que podem levá-los a identificar a raiva por trás de um sorriso, o pavor travestido por uma aparência de segurança, ou simplesmente identificar uma pessoa prestes a tomar uma atitude agressiva contra a pessoa a ser protegida.

 

É muito importante ressaltar que não existem fórmulas mágicas na análise do comportamento não verbal. Primeiro é preciso encontrar uma fonte digna que transmita esses conhecimentos de forma confiável, e após isto é preciso ter em mente que é indispensável considerar uma série de aspectos, como por exemplo, o contexto em que se aplica esse conhecimento.

 

As grandes organizações de segurança em diversos países já capacitam os seus profissionais para o emprego seguro e científico desse conhecimento, tendência que já pode ser observada também no Brasil.

No contexto de depoimentos e entrevistas, algumas expressões faciais servem de indicadores para os possíveis estados emocionais dos entrevistados. Apontando quais seriam as emoções mais úteis para observação, Paul Ekman (2003, p. 58) nomeia sete que considera básicas: (1) alegria, (2) tristeza, (3) raiva, (4) desprezo, (5) nojo, (6) surpresa e (7) medo. Segundo Ekman, podemos percebê-las por meio da observação de movimentos faciais involuntários, técnica que pode ser aprendida através de treino técnico, o que pode assegurar a:

  •  identificação das emoções básicas em situação de interrogatório;
  •  identificação de microexpressões na face;
  •  identificação de indicadores de desconforto e nervosismo durante os interrogatórios e entrevistas; e
  •  a melhora a capacidade de perceber as emoções pela observação do comportamento não verbal.

Todas essas observações podem ser realizadas de forma relativamente independente do comportamento verbal de nossos entrevistados. Esta é uma maneira de fazer segurança com ciência, uma tendência irreversível, e não acompanhá-la pode significar no mínimo, abrir mão de uma ferramenta valiosa e consequentemente perder em eficiência e resultados.

Um abraço

Vicente Andrade e Sergio Senna

 

REFERÊNCIAS:

Darwin, C. (1872/1994). The expression of the emotions in man and animals. London, England.

Ekman, P. (2003). Emotions Revealed: Recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. New York: Owl Books. 

Ekman, P. & Friesen, W. (2003). Unmasking the face. Cambridge: Malor Books.

Matsumoto, D., e Willingham, B. (2009). Spontaneous facial expressions ofemotion of congenitally and noncongenitally blind individuals. Journal ofPersonality and Social Psychology, 96, 1–10. doi:10.1037/a001403

Susskind, J. M., Lee, D. H., Cusi, A., Feiman, R., Grabski, W. e Anderson, A. K. (2008). Expressing fear enhances sensory acquisition. NatureNeuroscience, 11, 843– 850.

Valsiner, J. (2007). Culture in minds and societies: foundations of cultural psychology. New Delhi: Sage.

Vygotsky, L.S. (2007). A Formação Social da Mente. 7 ed. São Paulo: Martins Fontes.

 

Como citar este artigo:

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ANDRADE, Vicente; PIRES, Sergio Fernandes Senna. [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/identificar-emocoes-em-seguranca/> . Acesso em [data-php].

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Andrade, Vicente & Pires, Sergio Fernandes Senna. (2012). [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em [data-php], de https://ibralc.com.br/identificar-emocoes-em-seguranca/.

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. Identificar emoções: um recurso indispensável às atividades da segurança. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/identificar-emocoes-em-seguranca/> . Acesso em 3 Dec 2016.

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. (). Identificar emoções: um recurso indispensável às atividades da segurança. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/identificar-emocoes-em-seguranca/.

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Vicente Andrade

Possui experiência de 23 anos em segurança pública com atuação principal na área investigativa. Formado em segurança privada, desenvolveu experiência em segurança pessoal de dignatários. Realiza graduação em Filosofia (bacharelado) pela UNISUL - Universidade do Sul de Santa Catarina. É estudioso da linguagem corporal há cinco anos, mantendo o foco em sua utilização na área de segurança. Contatos pelo email: [email protected]
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3 Comments

  1. Achei extremamente importante este artigo! Estou em inicio de carreira como Psicologo, atuo na área de segurança privada a 4 anos, e apoio imensamente a ideia da análise das expressões (principalmente nos estudos de Ekman e Freitas-Magalhães) como ferramente essencial. Porém acredito que ainda necessitaremos de algum tempo e esforço para que esta importância quebre pensamentos engessados neste setor.

    Mas gostaria de tirar uma duvida se possivel: na expressão de contentamento, ela possui sinais bem particulares, mas Ekman a inclui no grupo de emoções positivas (Na obra traduzida Linguagem das emoções), não sei se concordo inteiramente com ele, visto que o contentamento nem sempre traz sensações agradáveis.

    Um abraço!!!
    David Leucas

    • Prezado David, obrigado pela sua colaboração.

      Na questão do contentamento, concordo com Ekman, mas gostaria de fazer algumas considerações para esclarecer os pontos de vista de interpretações.

      Um aspecto importante a ser considerado, é a diferença entre a emoção ser positiva para o sujeito que a experimenta e a sua causa ser positiva.

      Um exemplo disso é o contentamento que um psicopata assassino sente em oprimir e torturar as suas vítimas antes de matá-las.

      Sob o ponto de vista do psicopata, o contentamento é uma emoção positiva e que o faz sentir bem. Entretanto, a causa desse contentamento tem o custo do sofrimento e até da vida de pessoas, o que não é nada positivo.

      Em um psiquismo sadio, tal inversão não ocorreria. Até mesmo a derrota de adversário no trabalho pode nos trazer certo contentamento, mas também desperta culpa (um grande regulador do comportamento). É uma mistura de emoções que nos faz refletir se deveríamos alimentar aquele contentamento diante do fracasso alheio.

      O duping delight é outro exemplo disso….

      Então, quando separamos os níveis de análise e os pontos de vista, o tema fica mais claro.

      Um abraço
      Sergio Senna

  2. Excelente artigo!!
    A linguagem corporal é uma ferramenta que certamente seria um enorme avanço para as atividades de segurança em geral, e principalmente para a segurança pública, pois os depoimentos investigativos seriam realizados em função de uma nova vertente com a possibilidade real de êxito na interpretação de gestos e emoções.
    Esperamos que o Poder Público invista nessa área de atuação, com equipamentos adequados e treinamento dos profissionais!

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