Lie to Me – Sétimo Episódio

A melhor política  (The Best Policy)

A respeito desse episódio, gostaria de destacar dois aspectos entre os muitos apresentados pelo elenco da série.

O primeiro se refere a questão da privacidade das pessoas e o segundo, à vaidade como uma alavanca que pode ser explorada na leitura da linguagem corporal e nas negociações que sejam conduzidas a partir daí.

Veja a minha explicação sobre esse tema:

A importância da privacidade

Muitas pessoas pensam que interpretar a linguagem corporal é uma habilidade especial e também uma bênção. Em certa medida, essas pessoas têm razão mas é necessário expressar que muitos cuidados precisam ser tomados por aqueles que pretendem fazer juízos a partir dos indicadores não verbais.

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Na foto ao lado, por exemplo, a jovem demonstra total descontentamento com a conversa. Em alguns casos, a conversa pode ser realizada mesmo assim. No entanto, esse tipo de abordagem deve ser evitado. Quando uma conversa fere a privacidade das pessoas, é possível ver uma expressão de desconforto como a mostrada pela jovem, na foto.

Sobre isso já temos discorrido em quase todos os nossos artigos. Se você é um leitor assíduo de nossas matérias, já deve ter se deparado com esses alertas.

Respeitar a privacidade das pessoas é fundamental. Quando você passa a ter uma leitura mais precisa das pessoas, pode ocorrer que fique curioso com determinado sentimento e passe a fazer perguntas sobre isso.

Vemos essa prática nos episódios de Lie to Me, principalmente na personagem Ria Torres, que a todo momento “lê as emoções” dos outros (e como novata) é repreendida pelos seus colegas de trabalho.

Não sei se você tem a mesma percepção que eu, mas acho o ambiente de trabalho deles muito hostil. Uns cortam os outros muitas vezes e é comum ver o uso de expressões como “isso não é da sua conta”.

Vou explicar por que acho esse comportamento estranho para quem aprende a identificar emoções. Estudar emoções não pára apenas no seu reconhecimento, você precisa saber como elas são construídas, o seu potencial realizador e também os danos que determinadas emoções podem causar. Diante disso, é impossível trabalhar com esse tema e não se tornar mais sensível a esses estados emocionais. Além disso, a pessoa passa a ficar mais atenta às suas próprias emoções….

Profissionalmente, desenvolvemos uma série de estratégias para lidar com isso, o que não quer dizer que não sejamos igualmente afetados por aquilo que observamos.

lie-to-me-privacidadeÉ nesse ponto que o respeito à privacidade passa a ser tão importante. Sou procurado por muitas pessoas que desejam tornarem-se investigadores. Desejam investigar seus filhos, seus cônjuges, seus amigos e as pessoas com quem interagem.

A essas pessoas, indistintamente, aconselho que, ao perceberem que uma pessoa não deseja falar sobre algo que  lhe tenha causado determinada emoção, deixem um espaço para que a pessoa possa expressar seus sentimentos com liberdade, o que inclui não falar sobre eles naquele momento.

Ensino a interpretação da linguagem corporal, mas não acredito que seja adequado utilizar esse conhecimento para fazer “investigações” sobre seus amigos e familiares. Usar esse conhecimento com sabedoria é fundamental para uma vida bem sucedida.

Lembre-se que as técnicas nos dão uma idéia de como a pessoa está se sentindo, mas só ela mesma pode avaliar a profundidade, os motivos e disposição para agir a partir do que sente. Diante disso, não pense que você sabe mais sobre os sentimentos de alguém do que a própria pessoa.

A maior parte dos episódios da série tratam de investigação no modelo policial. Por essa razão, vemos as personagens pressionando seus interlocutores. Na vida real, a maioria de nós não pertence a órgãos policiais e utiliza essas técnicas no seu contexto mais aproximado. Perceba esse dilema como fundo no sétimo episódio dessa série. Observe, ainda, a dificuldade que temos para fazer juízos isentos quando pessoas próximas estão envolvidas.

A linguagem corporal e a vaidade

lie-to-me-pavaoA vaidade é uma das características de uma pessoa que a pode deixar mais vulnerável. Nesse episódio, a vaidade no mundo diplomático é exibida de forma a evidenciá-la como uma fraqueza que pode ser explorada.

O vaidoso é como um cego temporário que, diante de certas adulações, pode não enxergar as verdadeiras intenções das pessoas.

Na linguagem corporal, a vaidade fica evidente na forma como a pessoa tenta aumentar o volume do seu corpo, nas posições que assume na tentativa de se mostrar ou na ansiedade aparente para que isso ocorra. Além disso, expressões de desprezo também podem demonstrar a vaidade de alguém.

Uma vez que se identifique um vaidoso, diversas manobras podem ser aplicadas com o objetivo de explorar essa fraqueza.

No episódio, oferecem honrarias a um diplomata em troca da liberação de um prisioneiro (depois de que a negociação tradicional havia sido encerrada). Essa oferta foi originada da observação sobre a vaidade de um vice-embaixador, que se tornou o alvo da estratégia persuasiva.

Como sempre, a estratégia se mostrou efetiva.

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Cuidado! A figura ao lado pode representar uma pessoa subserviente que está sendo oprimida por alguém, mas serve, igualmente, para mostrar a estratégia de quem se aproveita da vaidade de outrem para atingir os seus objetivos.

Em minha experiência profissional, vi esse tipo de manobra ser bem sucedida muitas vezes e é uma das poucas estratégias mostradas na série que ocorre na vida real exatamente como foi retratada no episódio.

Portanto, fique atento às suas próprias emoções, verifique se você não apresenta sinais de vaidade excessiva e siga em frente aprendendo mais sobre a linguagem corporal.

Um abraço

Sergio Senna


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Lie to Me - Sétimo Episódio. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/lie-to-me-setimo-episodio/> . Acesso em 3 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2011). Lie to Me - Sétimo Episódio. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/lie-to-me-setimo-episodio/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
Sergio Senna

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8 Comments

  1. Dr. Sergio, eu tambem nao concordo com varias abordagens do Lightman no seriado, porém nao pode ajudar muito colocar a pessoa sob pressão e fazer as ”perguntas certas” e analisar suas expressoes? Apesar de poder criar alguns inimigos assim hehe

  2. As vezes fico tentando observar na série esses sinais, procuro os mesmos sinais em outras séries, e cheguei a conclusão que as vezes a linguagem corporal que pegamos, não tem haver com o personagem, mais sim dos próprios atores, acredito que deve ser por não entender seu personagem o por aquele momento se desconcentrou ou algo do tipo. O que quero dizer é que, como vamos saber que estamos fazendo a leitura correta, mesmo analisando o contexto ?
    Alguns sinais apenas não se encaixam.
    Vi uma entrevista da Marisa Orth falando sobre expressões, onde disse, que não colocaria botox pq mataria as expressões, e então como sobreviveria em seu trabalho, que justamente tem que estar trabalhando com emoções e expressões.

  3. Para mim este foi o episódio mais difícil até agora pois envolveu emoções, valores, isso mostra o quanto é difícil “ler” uma pessoa quando estamos envolvidos emocionalmente na situação, acrescente a isso o fato de termos que lidar com tudo em tempo real, ou seja, além de observar seu interlocutor você tem que lidar com suas próprias emoções enquanto ouve e observa, não temos câmeras para posteriores observações (como na série), por isso a leitura corporal é tão dificil e complexa quando é projetada nas nossas vidas cotidianas, não impossível, mas complexa.

    • Concordo com você Viviane. Quando iniciei meus estudos imaginei que fosse mais fácil. É um estudo interessante, porém exige muita disciplina, persistência, tato e sensibilidade.

  4. Só complementando…
    “Muitas pessoas pensam que interpretar a linguagem corporal é uma habilidade especial e também uma bênção. Em certa medida, essas pessoas têm razão mas é necessário expressar que muitos cuidados precisam ser tomados por aqueles que pretendem fazer juízos a partir dos indicadores não verbais.” Realmente, dá um pouco de “poder”…

    • Prezado Edinaldo, obrigado pelo seu comentário.

      Concordo com você. É assim que venho ensinando a linguagem corporal em meus cursos. Faço diversos alertas e ensino não só a interpretação, mas também os cuidados que as pessoas devem tomar quando interpretam a linguagem corporal.

      Além disso, é preciso lembrar que, como qualquer outro processo interpretativo, há uma margem para erro. O trabalho que fazemos é aumentar a quantidade de indicadores que a pessoa usa para interpretar, bem como melhorar a qualidade deles.

      Outro esforço é ensinar o intérprete a diferenciar as várias origens dos indicadores. Na literatura de auto-ajuda (que á mais utilizada pelos brasileiros) existe uma mistura geral: programação neuro-línguística (PNL), mitos supostamente científicos e algumas verdades em tudo isso.

      O grande problema é que a pessoa não sabe a origem do que lhe estão ensinando e, ao misturar tudo isso, fica insegura sobre as conclusões a que pode chegar. Dou um exemplo: piscadas de olhos.

      Esse é um dos piores indicadores sobre a mentira. Diversos estudos científicos chegam até mesmo a dizer que não existe qualquer relação. Prefiro interpretar esse indicador como mais um sinal de ansiedade ligado à ativação do sistema nervoso autônomo, mas, de forma nenhuma, é um sinal definitivo de que alguém está mentindo. Até por que tal sinal definitivo não existe.

      No entanto, livros sobre esse tema e, principalmente, certos autores de PNL ensinam esse tipo de indicador como sinal da mentira. Os incautos embarcam nessa e devem estar causando muito prejuízo às pessoas que com eles interagem.

      Concluindo: interpretar a linguagem corporal não é brincadeira. Não basta ler um livro qualquer e sair por aí interpretando a gestualidade dos outros.

      Prezado Edinaldo, valeu a sua contribuição, continue acompanhando os nossos artigos e publicando os seus valiosos comentários.

      Saudações
      Sergio Senna

  5. Olá,

    Excelente artigo! Principalmente quando estamos aprendendo e já possuimos um certo domínio da lingaguem corporal, sempre ficamos instigados a saber a verdade, as vezes de uma forma até um pouco inquisitiva…estou percebendo que não deve-se fazer isso, pois criamos transtornos…

    Abraços,

    Edinaldo

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