O estudo da linguagem corporal é uma ciência?

As várias dimensões da comunicação não verbal vêm sendo objeto de estudos científicos há mais de 100 anos, o que posiciona esse tema entre os objetos de interesse da ciência. O primeiro trabalho sistemático de que se tem notícia sobre a linguagem corporal foi o publicado por Darwin, em 1872, intitulado:  A Expressão das Emoções nos Homens e nos Animais.

Linguagem Corporal - DucheneEsse livro, disponível em Língua Portuguesa, serve apenas como referencial histórico para nós, uma vez que a pesquisa já avançou muito desde essa primeira publicação.

A partir daí, uma grande quantidade de trabalhos científicos foi publicada, principalmente nas décadas de 70 a 90.  Dessa forma, podemos dizer que o estudo da linguagem corporal possui uma abordagem científica, paralelamente a outras que não se propõem a comprovar o que asseveram (como a PNL, por exemplo).

Mesmo assim, como outros assuntos relacionados com o comportamento humano e que envolvem processos interpretativos, não há como garantir um rigor absoluto acerca da mesma interpretação para um mesmo movimento ou expressão facial. Isso se deve ao fato de que o mesmo movimento pode ser originado por diferentes motivos, pois o comportamento humano obedece ao princípio da equifinalidade (um mesmo comportamento observável pode ser originado por causas diferentes). Por exemplo, alguém pode coçar o nariz:

1. porque está gripado;

2. porque tem rinite alérgica;

3. porque está em um ambiente cheio de ácaros;

4. porque está nervoso e aumentou a quantidade de um tipo de gesto conhecido como manipulador ou adaptador.

Linguagem Corporal - FrioEsse último item leva às pessoas a  interpretarem que alguém pode estar mentindo, o que nem sempre será verdade. O mesmo raciocínio pode ser aplicado em relação aos braços cruzados que alguns interpretam como “postura fechada”. Se a pessoa não souber se está fazendo frio no ambiente pode tirar conclusões erradas (muita gente interpreta a linguagem corporal a partir de fotos)….

Outro “sinal” muito conhecido no senso comum e que os livros de auto-ajuda classificam como incerteza é o “levantar do ombro”. Pesquisando nos mais recentes periódicos norte-americanos (Journal of Nonverbal Behavior, por exemplo), não encontrei um único estudo que se propusesse a verificar se esse indicador era confíável indicador de incerteza.

Encontrei somente alguns poucos estudos que partiam da pressuposição que isso indica incerteza e, então, tentaram verificar se as pessoas assim o reconheciam….  Esse reconhecimento positivo por parte das pessoas pode ser explicado pela popularidade dos livros que mostram como “pegar um mentiroso” e que elencam, entre os sinais clássicos da mentira na linguagem corporal, o levantar do ombro.

Esse conhecimento gera uma interpretação social do gesto, que é transmitida de boca em boca. Afinal, “todo mundo sabe que levantar o ombro é sinal de incerteza….”

Interpretar a linguagem corporal não é assim tão fácil. Necessita-se de tempo, paciência e vontade para aprender uma metodologia segura para as suas interpretações.

 

Entretanto, a ciência já dedicou e tem dedicado tempo para o estudo desse tão intrigante campo da comunicação. Você pode ficar seguro de que existe conhecimento sólido para ser divulgado e aprendido. É o que fazemos aqui no IBRALC.

 

Um abraço e siga nos acompanhando.

Sergio Senna


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. O estudo da linguagem corporal é uma ciência?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/linguagem-corporal-e-ciencia/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2012). O estudo da linguagem corporal é uma ciência?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/linguagem-corporal-e-ciencia/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
Sergio Senna

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2 Comments

  1. Sim, a meu ver o estudo da linguagem corporal é uma ciência, justamente pelo o que o senhor ressaltou: por ter e por expor bases sólidas científicas sobre o tema.
    Com a evolução dos meios de comunicação e o surgimento da internet, ficou difícil para uma pessoa ficar segura da veracidade do que ela está aprendendo na rede, justamente pela quantidade de pessoas que passam a difundir um determinado tema. Mas isso fica mais pro artigo da exploração da linguagem corporal.
    O problema dos conteúdos propostos em livros de auto-ajuda e, sites com dicas de interpretação sobre comunicação corporal, é que eles fazem parecer simples o aprendizado nessa área, por exemplo: todos levantam o ombro, porque não tem certeza, mexeu a cabeça por que não é verdade o que ela está falando.
    Não levam em consideração as infinitas variantes possíveis geradoras do tal movimento, consideram quase como uma “ciência exata”. O que leva a um abismo de erros de interpretação.
    Onde eu gosto de treinar tudo que aprendo, aqui no IBRALC, é um ambiente em que eu conheço quase como a minha palma da mão, onde eu sei que o cruzar os braços pode ser receio do ambiente hospitalar ou, provavelmente, o ar condicionado ligado no frio de 18C°.
    É preciso, por parte dos interessados nesse tema, a compreensão de que não existe uma única resposta para um sinal corporal, pode haver x motivos pra isso, e, principalmente, que não é fácil como é difundido na rede.
    Pretendo, ao longo dos anos, me aprofundar e aprender muito mais sobre o assunto, porque agora eu sei que existe um lugar que fala de ciência e não de opiniões.
    PS: ontem mesmo, enquanto eu conversava com uma pessoa, na hora em que eu explicava o funcionamento de um programa hospitalar, eu levantei o ombro, mas porque a camisa estava enrolada e incomoda na parte de trás do braço. Rapidamente imaginei uma pessoa “mestre” em PNL me acusando de falar mentiras. rs.

    Obrigado e abraços!

    Rogério B.

    • Obrigado Rogério, por mais essa sua colaboração.

      Os nossos leitores e também os alunos de nossos cursos podem ter sempre a certeza que no IBRALC não “douramos a pílula”. Ensinamos aquilo que tem comprovação científica, explicando as possibilidades e também as limitações de todas as técnicas.

      Esse é um compromisso que temos para que as pessoas não se decepcionem e possam dar passos seguros como analistas do comportamento não verbal.

      um abraço
      Sergio Senna

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