Falsas memórias são mentiras? Lie to Me – Décimo episódio

Better half (A melhor metade) Memória Falsa

Neste episódio, a trama principal trata da memória e ocorre com o aparecimento de uma nova personagem: a Zoe, ex-esposa de Cal Lightman. Ela quer a ajuda do grupo Lightman em um caso sobre um incêndio na casa de uma família, onde o dono da casa quer incriminar um repórter, pois uma testemunha teria visto este repórter nas proximidades da casa na hora do incêndio: uma criança de quatro anos de idade (filho do casal que teve a casa incendiada). Assim, até que ponto tal testemunha é confiável? É isso que Lightman quer descobrir. lietome10

Em uma primeira conversa, sob análise, a criança conta sua versão da história, que aparentemente, mesmo com uma pressão do Cal (aproximando-se dele, contando a história da criança que sempre mentia, e que no dia que falou a verdade ninguém acreditou – da forma agressiva que lhe é bem peculiar), falava a verdade: Viu o repórter próximo a sua casa e em seguida viu o mesmo iniciar o incêndio. Entretanto, esta informação não “batia” com a do repórter, pois o mesmo também afirmou que não foi o responsável pelo incêndio e, aparentemente, não mostrava indicadores de que estaria mentindo. Entretanto, diante de duas versões que envolvem fatos concretos que não sejam alusões filosóficas, podem não existir duas ou três verdades.

Sobre esse assunto, é muito comum quem comente aqui pelo Portal que cada um tem uma verdade e que todas elas são válidas…  A nossa equipe técnica procura não polemizar esses comentários pois gostamos de valorizar as participações de nossos leitores.

Muito embora essa afirmação seja politicamente correta e até mesmo verdade em diversos casos, existem situações em que não há espaço para cada um ter a sua “verdade”.

Por exemplo: um cadáver é encontrado na Rua A da cidade Y.

Fatos:

– há um cadáver (não adianta achar que essa pessoa está viva em nosso mundo)

– foi encontrado na Rua A (e não na rua B), da cidade Y e não da cidade Z.

Concluímos, então, que existem fatos que não admitem “a verdade de cada um” (por mais bacana e politicamente correta que essa afirmação possa parecer)…..

 

A memória pode nos trair?

Primeiramente, o que é memória? Segundo Myers (1999, p. 210), a memória humana é uma incessante tentativa de reconstrução e reprodução de fatos já vivenciados. Ela envolve, portanto, um complexo mecanismo de arquivo e recuperação de informações. O termo memória tem sua origem etimológica no latim e significa a faculdade de reter e/ou adquirir ideias, imagens, expressões e conhecimentos, reportando-se às lembranças. A princípio, pode parecer fixa e inamovível, mas é maleável podendo ser criada, modificada e até mesmo perdida ao longo da vida.

Memorização dos meses do ano que contém 31 dias pelos punhos. Uma mnemônica é um auxiliar de memória. São, tipicamente, verbais, e utilizados para memorizar listas ou fórmulas, e baseiam-se em formas simples de memorizar maiores construções, baseados no princípio de que a mente humana tem mais facilidade de memorizar dados quando estes são associados a informação pessoal, espacial ou de carácter relativamente importante, do que dados organizados de forma não sugestiva (para o indivíduo) ou sem significado aparente. Porém, estas sequências têm que fazer algum sentido, ou serão igualmente difíceis de memorizar.

Memorização dos meses do ano que contém 31 dias pelos punhos. Uma mnemônica é um auxiliar de memória. São, tipicamente, verbais, e utilizados para memorizar listas ou fórmulas, e baseiam-se em formas simples de memorizar maiores construções, baseados no princípio de que a mente humana tem mais facilidade de memorizar dados quando estes são associados a informação pessoal, espacial ou de carácter relativamente importante, do que dados organizados de forma não sugestiva (para o indivíduo) ou sem significado aparente. Porém, estas sequências têm que fazer algum sentido, ou serão igualmente difíceis de memorizar.

Continuando, Wilbert e Menezes, em seu artigo “Falsas memórias: o pecado da atribuição errada”, argumentam que “apesar de armazenadas, nem todas as recordações de uma experiência são lembradas com a mesma facilidade, isso ocorre em decorrência da forte vinculação entre a memória e outros fatores, como o nível de excitação emocional. Esses fatores influenciam o processo de recuperação da memória, não raras vezes, originando falsas memórias.”

O processo de falsificação da memória ocorre justamente no momento de falha dos mecanismos de armazenamento ou recuperação dos fatos, levando as pessoas ao erro, seja por indução de terceiros, seja por recriação fantasiosa da própria pessoa.

Algumas falsas memórias são geradas espontaneamente, como resultado do processo normal de compreensão, ou seja, fruto de processos de distorções mnemônicas endógenas (de forma extremamente simplista, seriam os artifícios utilizados pela memória, afim de reter as informações) . Estas são as chamadas falsas memórias espontâneas ou autosugeridas (Brainerd & Reyna, 1995).

 

Um exemplo bastante comum de falsa memória espontânea seria quando presenciamos um evento e temos que retratá-lo posteriormente, como testemunha de um assalto por exemplo, ao relatarmos as características do assaltante, quantos eram, arma utilizada, etc. tendemos a passar alguma informação errada, que não condiz com os fatos. Por esta razão, quanto antes tomarmos os relatos, mais fieis aos fatos serão nossas lembranças.

Caso deseje entender um pouco mais sobre este problema, recomendo a leitura do artigo em destacado abaixo:

Você precisa saber o que são Falsas Memórias

Recomendo ainda que assista o vídeo abaixo, como material complementar:

Outro tipo de falsa memória pode resultar de sugestão externa, acidental ou deliberada, de uma informação falsa (Reyna, 1995), a qual não fez parte da experiência vivida pela pessoa, mas que de alguma forma é compatível com a mesma como no procedimento de sugestão de falsa informação.

Falsas memórias geradas por sugestão externa, acidental ou deliberada pode ser exemplificada da seguinte forma: tome um fato que ocorreu, como por exemplo, ver algo ao passarmos em determinada rua, como alguém passando na frente de uma loja de nome “y”. Posteriormente ao evento, sugerimos que na verdade, a pessoa viu alguém passando na frente da loja “x”, e será bem possível que ela assimile nossa “alteração”, passando a acreditar na segunda versão da história.

Não podemos esquecer também da reorganização de nossas memórias fruto de uma adaptação de nosso psiquismo em função do sofrimento. Diversas teorias psicológicas tratam disso, como por exemplo a psicanálise com certos mecanismos de defesa do ego que suprimem ou alteram nossas lembranças.

 

Qual a relação da falsa memória com a análise facial?

Então, se o sujeito que observamos faz uma afirmação com base em uma falsa memória, seria possível perceber sinais indicativos da mentira? Muito provavelmente não! Uma vez que os fatos narrados são, para o psiquismo do sujeito, a mais translúcida verdade.

Devemos lembrar que os três elementos teóricos para caracterizarmos uma mentira são:

  • o mentiroso sabe a verdade;
  • o mentiroso introduz alterações deliberadas na versão com a finalidade de criar uma falsa mensagem;
  • o mentiroso aufere ganho de sua mentira.

No caso em questão, nenhum desses elementos está presente. Pois diante de uma falsa memória não há que falar em manipulação ou alteração consciente da informação e nem que isso tenha ocorrido para que alguém auferisse ganho.

O que observamos é a tranquilidade da versão verdadeira, já que as informações estão “plantadas” na memória (espontaneamente ou por sugestão), não existindo motivo para que o sujeito fique nervoso, afinal, ele está descrevendo algo “verdadeiro”.

Para entender melhor como a mentira produz “sinais” em nosso sistema nervoso, recomendamos a leitura do artigo “Não existe um único e definitivo sinal da mentira“, de autoria do Dr. Sérgio Senna.

Muitas vezes, assim como nesse episódio do seriado (no caso específico, foram aplicados testes psicológicos e análises dos desenhos da criança), precisaremos de ajuda especializada para podermos ter uma compreensão maior do que está ocorrendo, dada a complexidade da psiquê humana.  Recorrer à uma análise de um psicologo seria uma alternativa mais correta.

Portanto, diante de tal contexto, temos que compreender os limites da detecção da mentira através da comunicação não verbal.

Até a próxima,

Edinaldo Oliveira e Sergio Senna

 

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Artigo originalmente publicado em 19 de setembro de 2012.

Atualizado em 20 de julho de 2016

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Referências:

MYERS, David. Introdução à Psicologia Geral. Tradução A. B. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

BRAINERD, C. J., REYNA, V. F. (1995). Autosuggestibility in memory development. Cognitive Psychology, 28, 65-101.

REYNA, V. F. (1995). Interference effects in memory and reasoning: A fuzzy-trace theory analysis. Em F. N. Dempster & C. J. Brainerd (Orgs.), New perspectives on interference and inhibition in cognition (pp. 29-61). New York: Academic Press.

WILBERT, Juciméri Silvia Machado, MENEZES, Scheila Beatriz Sehnem. Falsas memórias: o pecado da atribuição errada. Unoesc & Ciência – ACSA. Disponível em: <http://editora.unoesc.edu.br/index.php/acsa/article/view/567/pdf_155>. Acesso em: 03 de setembro de 2012.

STEIN, Lilian Milnitsky, PERGHER, Giovanni Kuckartz. Criando Falsas Memórias em Adultos por meio de Palavras Associadas. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/%0D/prc/v14n2/7861.pdf>. Acesso em  03 de setembro de 2012

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Não existe um único e definitivo sinal da mentira. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < http://ibralc.com.br/a-mentira/nao-existe-um-unico-definitivo-sinal-da-mentira/> . Acesso em  03 de setembro de 2012.


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

JUNIOR, Edinaldo Oliveira; PIRES, Sergio Fernandes Senna. Falsas memórias são mentiras? Lie to Me - Décimo episódio. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/memoria-falsa/> . Acesso em 3 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Junior, Edinaldo Oliveira & Pires, Sergio Fernandes Senna. (2016). Falsas memórias são mentiras? Lie to Me - Décimo episódio. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/memoria-falsa/.

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Edinaldo Oliveira

Graduado em ADMINISTRAÇÃO - GESTÃO DE NEGÓCIOS pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caruaru/PE (2005) e Pós-Graduado em Engenharia de Software pela mesma faculdade, em 2010, além de graduado em Gestão da Tecnologia da Informação, pela ESTÁCIO, em 2014. Diletante do campo da psicologia, com foco no estudo da comunicação não verbal, especialmente no que se refere as expressões faciais, e como esta ferramenta pode ser aplicada em diversas áreas, a saber: segurança, defesa, educação, vendas, nas organizações e na saúde. Além disto, é amante da astronomia, astrofotografia e fotografia.
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7 Comments

  1. Olá

    Estava lendo um artigo a pouco tempo que discutia a questão das memórias reprimidas, o artigo combatia esse tipo de memória e dizia que na maioria das vezes o que chamamos de memória reprimida é na verdade uma memória implantada, não que a memória reprimida não existe, mas que a maioria dessas memórias reprimidas seriam falsas memórias, que muitas vezes pode ser implantada pelo próprio psicologo, ou mais especificamente pelo psicanalista que está mais redirecionado na área da repressão.

    Por outro lado, um outro autor faz o seguinte contra argumento: Ele diz que é fácil implantar uma falsa memória sobre algo do cotidiano, como por exemplo, dizer para alguém que ela viu tal pessoa em tal loja, mas que seria muiti improvavel implantar uma falsa memória de abuso sexual na infância.

    Gostaria de perguntar se existe mesmo essa dificuldade de implantar uma falsa memória mais significativa em um sujeito, e se o Dr. Sérgio Senna e o Edinal Oliveira já testemunharam algum caso de falsa memória mais significativa como o exemplo do abuso sexual na infância, que na verdade não era abuso, e sim uma falsa memória.

    Obrigado pela atenção

    • Olá Sylvio,

      Interessante seus questionamentos… Vamos lá! No artigo falamos sobre os seguintes tipos de falhas:

      (1) Memória por vinculação de algo extremamente emocional;
      (2) Falsas memórias espontâneas, criadas por falhas mnemônicas;
      (3) Sugestão externa.

      No primeiro ponto, podemos vincular a memória com algo que nos tomou de forte emoção, e aqui posso citar dois exemplos:
      (a) O falecimento de um ente querido, que por exemplo, teve uma morte súbita em algum lugar público, provavelmente lembraremos bem do ocorrido e alguns detalhes do local.
      (b) O mesmo falecimento do ente querido, só que em um acidente de carro, onde tudo ocorre muito rápido.

      Provavelmente você lembrará mais detalhes do primeiro evento do que do segundo, que foi algo que ocorreu muito rapidamente, será que você seria capaz de lembrar da maioria dos eventos do acidente? Se existirem lacunas, como nossa memória as preencherão? De forma verdadeira, ou com alguma memória que minimize nosso sofrimento?

      Já a segunda falha, é bem mais corriqueira. Devido ao estresse que passamos hoje, quem nunca no trabalho “esqueceu” de fazer alguma coisa ou misturou fatos? Muitos fatores, inclusive fisiológicos, podem gerar falhas em nosso processo de armazenamento e resgate da memória.

      E a última opção, a memória por sugestão, depende muito da situação, por exemplo: é muito mais fácil “implantar” uma memória falsa em alguém inseguro do que naquela pessoa segura de si, ou novamente, se estivermos sob estresse, isso pode afetar nossa condição de avaliação (quem nunca ao deixar o carro na rua, quando nos dizem que não fechamos o carro, se não estivermos seguros que fechamos, ficamos com aquela “pulga atrás da orelha” e só relaxamos quando vamos lá e conferimos.)

      Quanto as memórias reprimidas, com certeza existem…principalmente a psicanálise esta aí para trabalhar o resgate destas emoções “escondidas” por alguma razão. Já que você citou o exemplo do abuso sexual infantil, pode ocorrer sim processos de memórias falhas, pois já pensou se a criança (mesmo já adulta) não quer aceitar que um parente querido e de confiança fez tal ato? Provavelmente a memória dela “achará” outra lembrança para justificar os traumas do evento (poderia fantasiar que foi um estranho que a fez isto, e ter toda uma história justificando como tudo ocorreu, por exemplo).

      Lembro-me que no filme “Freud além da alma”, existe uma paciente de Freud que ocorre justamente um caso semelhante com o pai dela: ela achava que o falecimento do pai tinha ocorrido em um local, quando na verdade, após o resgate de suas memórias através da até então “embrionária” psicanálise, foram resgatadas as memórias verdadeiras sobre as condições de falecimento do pai dela, e claro, com algumas nuances diferentes, que atenuavam o sofrimento da filha…recomendo assistir este filme, bem interessante.

      Não sou psicólogo, e com certeza o assunto é bem complexo, tentei apenas dá uma resumida para te ajudar a esclarecer estas dúvidas.

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

    • Esse assunto é ainda bem polêmico ainda no meio científico. Alguns pesquisadores dizem que o efeito de uma memória traumática – como abuso sexual na infância – é justamente o contrário de reprimir. Aquilo ali fica aparecendo na forma de memórias intrusivas durante a vida toda, talvez.

      Sobre as evidências dos casos psicanalíticos…bom, vou falar algo polêmico agora, mas o próprio caso inaugurau da psicanálise, o de Ana O, é controverso, já que a paciente não foi curada pela “palavra”, como dizia Freud. Logo depois de “terminar” a terapia, ela foi internada num hospital psiquiátrico com os mesmos sintomas, e permaneceu assim por anos.

      Sobre os abusos sexuais, também é controverso. Nenhum paciente nunca disse para o Freud que foi abusado sexulmente, ele é concluía isso baseado em certas coisas que os pacientes falavam. Não estou querendo criticar a psicanálise, duvidar de sua abordagem nem nada, mas é que seus pressupostos são polêmicos demais, eu acho, para serem usados para apoiar alguma outra idéia como a do texto. É um indicativo sim, mas não é uma evidência.

      Bom texto, Edinaldo! E parab´ns também aí ao pessoal pelos excelentes comentários!

      Abraços!

  2. Oi, Edinaldo:
    Andava sem tempo de vir aqui.
    Muito bom e esclarecedor o texto.
    Quando clinicava passei muito trabalho com as falsas ou verdadeiras memórias dos pacientes. Quando era falsa ou não?
    Os mecanismos de defesa do ego fazem a maior bagunça com isso e leva tempo para o terapeuta resolver o imbroglio.
    Abraços e apareça no Expansão

    • Olá Atena,

      Obrigado pela visita!

      Sempre passo no seu blog para ver se tem postagem nova, entretanto, lembra que uma vez comentei que não conseguia postar nos comentários? Pois então, o acesso lá pela empresa é bem restrito e terminaram, não sei por qual razão, bloqueando justamente a página de comentários.

      Daí, como sempre acesso de lá, termina que não consigo comentar nada… 🙁 Espero que voltem a liberar..

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

    • Olá Silvio,

      Obrigado pelos gentis comentários…se gostou da série, siga nos acompanhando, em breve teremos mais artigos.

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

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