Estudo relaciona a mentira com movimento facial

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Estudo relaciona a mentira com movimento facial.

Um recente estudo publicado na revista Evolution and Human Behavior (ten Brinke, Porter & Baker, no prelo) sustenta que os músculos da face superior poderão revelar quando estamos diante de um mentiroso. Os pesquisadores confirmaram pistas encontradas em estudos anteriores sobre a movimentação de quatro diferentes músculos faciais que um observador bem treinado pode usar para distinguir expressões faciais genuínas das enganosas.

Sobre o estudo, a Dra. Leane Brinke afirma que expressões faciais são importantes aspectos para serem levados em consideração, apesar de não raras vezes serem desconsiderados, em casos nos quais as emoções estejam em questão.

O estudo argumenta que a mentira é um aspecto fundamental da comunicação humana. Diversas vezes pode ser acompanhada pela simulação de emoções que o mentiroso não experimenta ou pela ocultação de emoções genuínas que poderiam revelar a verdade.

Os pesquisadores investigaram mentiras relacionadas a um alto risco de consequências para o mentiroso. Nesse contexto, eles decidiram observar a contração de certos músculos indicados por Darwin (1872/2000).

Se referem à obra “A expressão das emoções no homem e animais“, que pode ser encontrada, em Língua Inglesa, no Portal do Domínio Público.

Para chegar às suas conclusões, analisaram filmagens de 52 indivíduos que apareciam ao público (em redes de televisão etc) pedindo o retorno de algum ente querido que havia desaparecido. É importante ressaltar que metade desses sujeitos foram condenados pelos assassinatos de quem tanto “queriam o retorno”.

Os pesquisadores partiram da hipótese de que a musculatura que está sujeita a um menor controle consciente podem revelar um mentiroso. Até esse ponto em nada diferem do proposto por Paul Ekman, por exemplo em Telling Lies (2001) e em dezenas de outros estudos sobre esse assunto.

O raciocínio geral nesse tipo de achado é relacionado à suposta ligação direta da contração de determinados músculos e o funcionamento de nosso Sistema Nervoso Autônomo. O fato da suposta existência dessa relação emprestaria a esses músculos um papel de indicador mais confiável, pois esses movimentos seriam involuntários.

 

Musculatura pesquisada

Partindo dessas premissas, a equipe de pesquisa focou a sua análise nos seguintes músculos:

 

  • Corrugador do Supercílio;

  • Depressor do Ângulo da Boca;

  • Zigomático Maior; e

  • Frontal (partes interna e externa). 

Ao lado, observamos uma representação da contração forte do músculo depressor do Ângulo da Boca, com o seu formato característico de “bigode chinês”. A boca toma um formato de “U” invertido, o que é característico da tristeza. Além disso, nessa face se vê a contração do Depressor do Lábio Inferior, do Mento e as pálpebras aparecem caídas pelo relaxamento do Levantador da Pálpebra Superior.

 

 

 

 

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Esse é outro display que foi estudado nessa pesquisa. Aqui, Mel Gibson contrai o músculo Frontal e vemos a sua testa franzida. Os pesquisadores argumentam que ao tentar “fraudar” o pesar (que ocorre pela contração do corrugador do Supercílio, causando rugas verticais entre as sombrancelhas) o inapto mentiroso contrai o Frontal parte externa e interna, o que nos causa a impressão de surpresa.

 

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Nos casos estudados, encontrou-se uma quantidade maior de expressões com a contração do corrugador do supercílio e do depressor do ângulo da boca nas pessoas que falaram a verdade. Na face dos mentirosos, encontraram contração total do músculo Frontal, o que interpretaram como tentativas mal sucedidas de parecerem tristes e contração do Zigomático Maior em seus sorrisos. 

 

O estudo é bem interessante e recomendo a sua leitura integral. Entretanto não encontrei novidade entre os achados em relação ao que já vem sendo registrado em estudos desde a década de 70.

 

 

Limitações das hipóteses de trabalho

É importante indicar que as hipóteses com as quais trabalham esses pesquisadores possuem algumas limitações para a sua aplicação na prática, pois se apoiam na pressuposição de que:

 

  • determinados músculos sempre estarão diretamente e unicamente relacionados ao funcionamento do SNA (o que é verdadeiro, mas nem sempre e nem para todos os sujeitos);

  • a aprendizagem não é suficiente para “treinar” indivíduos para mentir com eficiência;

  • baseando-se em poucos indicadores musculares é possível apontar um mentiroso.

 

Sem dúvida alguma o funcionamento da musculatura facial está relacionada ao SNA e às emoções subjacentes a comportamentos dos quais nem mesmo o próprio sujeito tem plena consciência. Entretanto, a dificuldade ocorrerá quando for tentada uma generalização dessa regra. 

 

Premissa básica do estudo

Todos os estudos desse tipo estão alicerçados na pressuposição de que existem comportamentos inatos e relacionados às nossas emoções que permanecem involuntários durante toda a vida.

Com toda certeza possuímos comportamentos involuntários e inatos. A grande pergunta é: será que isso se mantém da mesma forma durante todo o curso de vida?

Não seria o condicionamento operante uma variável que poderia interferir na acuracidade desses comportamentos?

Mais uma vez afirmo, como já venho manifestando a minha opinião em diversas postagens, que em dúvida alguma o comportamento não verbal pode estar associado aos sinais da mentira.

 

No entanto, essa relação é INDIRETA, o que consiste na grande limitação de todos os métodos de detecção da mentira. Por si só, nenhum sinal é definitivo para revelar a mentira.

 

Os principais métodos de detecção da mentira avaliam as alterações de parâmetros do Sistema Nervoso Autônomo, que podem ocorrer por outros motivos que não a mentira.

mentira-equifinalidadeÉ  aplicação do princípio da Equifinalidade, segundo o qual você pode observar o mesmo resultado que foi causado por razões diferentes. Normalmente, os sinais interpretados como mentira são manifestações de nervosismo e desconforto (que podem ocorrer por outros motivos).

Uma pessoa pode ficar nervosa quando fala do desaparecimento de um parente, simplesmente pelo fato de estar diante das câmeras. Além disso, é necessário considerar o contexto em que as expressões faciais ocorrem e, principalmente, o tempo decorrido do evento ao que o sujeito se refere.

Já entrevistei muitas pessoas que, logo após uma perda, mal conseguiam expressar suas emoções, o que acabava ocorrendo dias depois. Tudo isso deve ser considerado.

Em minha experiência profissional, a contração do Depressor do Ângulo da Boca é um bom indicador de tristeza. É um músculo sobre o qual poucas pessoas têm controle sem que outros músculos sejam contraúdos, como o Mento, por exemplo. Quando uma pessoa se diz triste e não se vê a contração desse músculo é necessário pensar em outras hipóteses como a inconsistência não verbal ou o caso que acabei de relatar de alguém que sofre, mas está em um estado letárgico. Ainda não acordou para o que ocorreu.

 

Dessa forma, aconselho a considerarem o recente estudo com cautela, pois uma vez mais conclusões que são válidas em um determinado contexto e no escopo de um estudo científico são divulgadas na imprensa como se valessem para todos nós.

Não pense que todo mundo que levanta a sobrancelha é um mentiroso.

 

Para concluir, uma vez mais quero expressar a minha opinião de que as técnicas de detecção de mentiras baseadas na observação do comportamento não verbal são válidas e confiáveis desde que:

 

1. Não se considerem indicadores isolados e descontextualizados;

2. Sirvam como método auxiliar no contexto da observação do comportamento verbal e de outros indicadores temporais (quando ocorreu) e espaciais (onde ocorreu) diante da evocação da memória sobre os eventos que narra ;

3. Sejam contextualizadas em relação ao ambiente em que o comportamento foi observado (por exemplo, encolher-se por causa do frio, não por causa do nervosismo);

4. Que se tomem os devidos cuidados éticos e legais antes de acusar alguém de estar mentindo.

 

Gostaríamos que deixasse seus comentários sobre esse controverso assunto. 

 

Referências:

ten Brinke, L., Porter, S. & Baker, A. (no prelo). Darwin the Detective: Observable Facial Muscle Contractions Reveal Emotional High-Stakes Lies. Evolution and Human Behavior 

Darwin, C. (1872/2000). A expressão das emoções nos homens e animais. São Paulo: Companhia das Letras.

Pires, Sérgio Fernandes Senna. (2011). Não existe um único e definitivo sinal da mentira. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em Disponível em: http://ibralc.com.br/a-mentira/nao-existe-um-unico-definitivo-sinal-da-mentira/. Acessado em 14 de abril de 2012. 

  

E você? O que pensa sobre isso? Deixe-nos o seu comentário!

 

Como citar este artigo:

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PIRES, Sergio Fernandes Senna. [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/mentira-movimento-facial/> . Acesso em [data-php].

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Pires, Sergio Fernandes Senna. (2012). [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em [data-php], de https://ibralc.com.br/mentira-movimento-facial/.

 

Um abraço e prossiga acompanhando as nossas matérias

Sergio Senna


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PIRES, Sergio Fernandes Senna. Estudo relaciona a mentira com movimento facial. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/mentira-movimento-facial/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2012). Estudo relaciona a mentira com movimento facial. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/mentira-movimento-facial/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
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10 Comments

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    11:30 SP – Capital – Curso Sinais da Mentira – Presencial

  2. Acompanho todos os estudos sobre expressão facial e vi um erro na citação desse estudo que falam. O artigo aind não foi publicado, devia estar in press, depois a citação do primeiro autor é ten Brinke, L. e não conforme vocês citaram. Podem ver isso nas referências do artigo sobre o qual escreveram. Continuem!!!!

    • Prezada Simone, obrigado pela colaboração com seu comentário e a indicação do equívoco nas referências.

      Na verdade há esse erro e outro na sua indicação da correção.

      Colocamos a expressão (no prelo) no final. Ela deve vir no local do (2012).

      Como a referência está em Língua Portuguesa se utiliza (no prelo) e não (in press).

      Agradecemos a sua participação e concordamos que todas as referências devem estar exatas, apesar de não ser a nossa maior prioridade.

      Esperamos que você também colabore com comentários sobre o conteúdo de nossas publicações.

      Att.
      Sergio Senna

    • Simone,

      Valeu a dica, embora como Dr. Sérgio tenha falado, não é o foco. Acredito que o conteúdo do texto seja mais relevante do que estes detalhes (não estamos em um ambiente acadêmico), ainda mais nesta situação, que o artigo original está a disposição, bastando clicar no pdf do mesmo.

      Abraço,

      Edinaldo

    • Prezado Edinaldo, muito obrigado.

      Creio que o IBRALC vem colaborando para ampliar a divulgação desses estudos dentro de suas possibilidades e limitações, o que espero ser proveitoso para os nossos leitores.

      Um abraço
      Sergio Senna

  3. Nada disto é novidade. Já dr. Ekman o dizia e o dr. Freitas-Magalhães fez muitos estudos científicos sobre isso e que estão publicados na Encyclopedia of Human Behavior, editada pela Elsevier, e também o confirmou.

    • Prezado Paulo,

      Não entendi bem exatamente o que não é novidade: a conclusão do estudo ou o artigo de Dr. Sérgio?

      Pois a conclusão do estudo não me parece completa, ou seja, não podemos afirmar que movimentos faciais específicos impliquem em mentira por parte do interlocutor.

      Lendo a reportagem “Expressão facial do Papa é consistente e verdadeira, diz estudo” :: http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=276288 por exemplo, quais critérios foram usados? Como afirmar que alguém está falando 100% de verdade em dados momentos?

      Por mais que tenhamos uma linha de base do interlocutor, é difícil (diria impossível) afirmar com segurança se estamos diante de um discurso verdadeiro ou falso, afinal, a verdade pode ser ocultada, logo, a princípio, o interlocutos não estaria “mentindo”. Outro exemplo seria uma decisão rápida, de última hora, de determinado discurso (por qualquer motivo que se ache necessário) diante do público, pode ocasionar nervosismo, o que a princípio, “lançaria” sinais de incongruências verbal e não-verbal, mas que necessariamente, não implica em mentira.

      É isto.

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

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