O sobressalto pode ser controlado?

O sobressalto pode ser controlado? O auto-controle emocional extraordinário dos monges.

Ao longo dos diversos textos sobre emoção e linguagem não-verbal aqui do Ibralc, principalmente através das chamadas microexpressões faciais, podemos perceber que as reações fisiológicas e comportamentais que acompanham dada emoção são automáticas.

No caso das microexpressões faciais, por exemplo, somente uma outra expressão facial pode mascarar a primeira, de forma que, através de treinamento ou analisando frames de um vídeo, o observador possa perceber a emoção verdadeira por milésimos de segundo antes de ser encoberta pela máscara.

Em suma, o que quero dizer é que é muito difícil suprimir totalmente essas reações. E quanto mais rápida é uma emoção, mais isso beira o impossível.

A surpresa, por exemplo, é uma emoção tão veloz que do seu processamento cerebral não participa o córtex frontal, que é a área responsável pelos atos voluntários e que exerce controle sobre as demais.

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Dalai Lama e outros monges voluntários em experimento, ao lado de cientista

 

No entanto, surpreendentemente, existem casos em que respostas como essa podem ser suprimidas. É o caso dos monges budistas tibetanos. Há décadas, o Dalai Lama promove um frutífero intercâmbio de idéias entre monges e cientistas no que concerne ao estudo mente (cérebro) [Veja aqui outro interessante estudo científico em cima das hablidades singulares cultivadas pelos monges]

O Budismo é uma religião que enfatiza o domínio da mente, e para isso promove uma série de técnicas milenares, como a meditação, que é dividida em diversas modalidades.

Em um recente estudo publicado por Levenson e Ekman, o monge Matthieu Ricard (ex-bioquímico francês que largou sua vida acadêmica pela vida monástica no Nepal há 40 anos) foi submetido a uma série de condições cujo objetivo foi analisar sua fisiologia e movimentos dos músculos faciais frente a um estímulo que, normalmente, despertaria uma resposta de sobressalto. Um estímulo auditivo foi escolhido para tal tarefa.

A resposta de sobressalto nada mais é do que o famoso susto. Estamos distraídos ou compenetrados em determinada tarefa e somos interrompidos por um estímulo inesperado: um carro de som alto na rua ou alguém nos chamando. Essa reação ocorre por meio de expressões faciais e atividades fisiológicas específicas, que podem ser medidas.

E foi o que os cientistas fizeram. Ricard foi submetido a um experimento de 4 etapas. Na primeira, ele praticaria a meditação da presença aberta, caracterizada pelo não-foco em nenhum pensamento nem estímulo ambiental específico.

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Matthieu Ricard e Richard Davidson

A segunda condição era a meditação de atenção plena, onde existe a focalização de um pensamento ou estímulo específico.

Num terceiro momento, a condição exibida era a distração, em que o monge focava-se em alguma lembrança.

E, a quarta condição era o sobressalto não-antecipado, em que Ricard não recebia nenhuma instrução sobre como se portar. Estava normal.

Um grupo controle de meditadores com menos anos de experiência foi escolhido para comparar com os resultados do monge budista.

Os resultados mostraram que no modo sobressalto não-antecipado, todas as medições permaneceram normais se comparadas com as do grupo controle.

As expressões faciais demonstradas também foram as esperadas, segundo o que a literatura desse tipo de experimento mostra. Porém, Matthieu Ricard mostrou níveis baixíssimos de contração muscular na face (AU 1, 2, 20, 43, 53) [Ekman catalogou os movimentos possíveis dos músculos da face em Unidade de Ação, os AUs].

Os pesquisadores não conseguiram explicar o motivo dessa diferença. Talvez ele já demonstrasse-a antes de ser um praticante de meditação ou o treinamento meditativo tenha produzido tal diferença; de qualquer forma, essa foi uma questão deixada para futuros estudos.

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Matthieu Ricard

Nas outras condições, comparando meditação e distração, foi verificado que o estilo presença aberta foi o que mais gerou inatividade do organismo frente aos estímulos sonoros. E esses resultados são bem compatíveis com a explicação dada pelo monge francês: é realmente como se ele estivesse tão presente no momento que qualquer estímulo fosse só mais um dos componentes desse momento, como se tudo fosse já esperado…sem surpresas.

Existem diversos outros estudos mostrando a eficácia da meditação em outros setores do comportamento humano, como o aumento do auto-controle necessário para se cumprir uma dieta, e outros mostrando sua eficiência na redução de sintomas de transtornos mentais como o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).

Esses resultados abrem questões interessantes para discutirmos a linguagem não-verbal relacionada à emoção. Será que um treinamento eficiente em meditação pode promover um auto-controle tão intenso a ponto de inibir a expressão de sinais autonômicos das emoções?

Em que medida isso dificultaria a análise da veracidade da fala desse indivíduo?

De qualquer forma, isso mostra que devemos sempre estar atentos para uma multiplicidade de sinais ao classificar a fala de um indivíduo como mentirosa ou para julgarmos que ele fala a verdade. Se uma resposta tão visceral e automática como a resposta do sobressalto pode ser suprimida pelo treinamento intenso, imagine o que um treino de poucos anos pode fazer com relação a reações emocionais cujo controle voluntário é potencialmente maior.

Olhando por um ângulo mais otimista, também é possível concluir que a meditação é uma excelente ferrramenta para que aprendamos a controlar nossas emoções, principalmente a raiva, tornando possível o aumento de nossa qualidade de vida e relacionamentos. Mesmo que ninguém chegue ao nível do monge Matthieu Ricard, a capacidade de modular nossas emoções é primordial para a promoção de relações saudáveis com o próximo.

Se você gostou desse texto, então indico esse interessantíssimo trecho de um documentário do National Geographic Channel: A meditação dos monges budistas tibetanos

(Esse post é uma versão modificada de Uma longa experiência em meditação pode mudar suas respostas emocionais.)

Referência:

Levenson, R. W., Ekman, P., & Ricard, M. (2012, April 16). Meditation and the Startle
Response: A Case Study. Emotion. Advance online publication. doi: 10.1037/a0027472

 


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

NOVAES, Felipe. O sobressalto pode ser controlado?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/o-sobressalto-pode-ser-controlado-o-auto-controle-emocional-extraordinario-dos-monges/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Novaes, Felipe. (2012). O sobressalto pode ser controlado?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/o-sobressalto-pode-ser-controlado-o-auto-controle-emocional-extraordinario-dos-monges/.

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Estudante de psicologia, com interesse em psicologia cognitiva, psicologia evolucionista, neuropsicologia e neurociência. Atualmente estudo as expressões faciais das emoções básicas sob a perspectiva evolucionista e neurocientífica. Editor do blog de variedades www.nerdworkingbr.blogspot.com
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2 Comments

  1. Prezado Felipe, parabéns por mais esse conciso, porém excelente artigo.

    Desejo que nossos leitores possam encontrar em sua publicação material para reflexões profundas acerca da complexidade do comportamento humano.

    Venho sendo procurado por muitas pessoas que estão em busca de “receitas” para observar e interpretar o comportamento humano.

    Invariavelmente, alerto essas pessoas que tais receitas ou mágicas somente existem em publicações de pessoas inescrupulosas que ao final trarão decepção e frustração aos seus incautos leitores.

    Sua produção me ajuda a sustentar essa minha cruzada de esclarecimento dos interessados na interpretação do comportamento não verbal e das emoções quando mostra que até mesmo elementos considerados inatos e involuntários podem sofrer certas modificações e certo grau de controle voluntário.

    Para mim, esse é um indicador claro que devemos aprender a interpretar o comportamento verbal e não verbal dentro das suas possibilidades e limitações. Não há uma caminho “mais fácil”, uma lista para ser aplicada de forma irrefletida.

    Diante da capacidade desses monges, um analista descuidado seria levado a conclusões totalmente equivocadas…..

    Nada disso é mágica e sim ciência aplicada diante das ainda pouco conhecidas capacidades do sistema nervoso humano.

    Felicitações pela sua produção intelectual que abrilhanta o acervo do IBRALC.

    Um abraço
    Sergio Senna

    • Obrigado, Sergio! Pode ter certeza que é um imenso prazer para mim contribuir para esse portal que tanto nos instrui sobre a linguagem não-verbal, e tudo isso prezando pelo rigor científico!

      É verdade, as habilidades singulares dos monges nos levam a refletir quase inevitavelmente sobre o conceito do inatismo no ser humano. Como as modernas abordagens atestam – como a psicologia evolucionista – o ser humano pode nascer com certas potencialidades, mas, como o nome mesmo diz, são características não-fixas. Está mais que evidente que o treinamento pode modular essas características de forma bem ampla.

      Para todo aquele que lida de alguma forma com a linguagem não-verbal essa deve ser uma lição sempre presente em suas análises e conclusões.

      Grande Abraço!

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