Para fóbicos sociais, expressões faciais neutras não são realmente neutras

O Homo sapiens é uma espécie intimamente envolvida nos processos de socialização. Desde a mais tenra infância, estímulos de natureza social são fundamentais para o nosso desenvolvimento orgânico e psicológico. Sem feedback social, nosso desenvolvimento segue um traçado próprio, como é o famoso caso de Kaspar Hauser, um indivíduo que foi criado por anos sem ver um único ser humano, sem andar, somente recebendo comida através de uma pequena janela no local onde vivia, uma espécie de sala em miniatura. Como o mostra o filme O Enigma de Kaspar Hauser, seu desenvolvimento foi totalmente prejudicado, tendo carregado para sempre dificuldades para andar, falar e mesmo outras coisas que consideramos mais triviais, que costumamos naturalizar.

Assim, é fácil imaginar as dificuldades encontradas na vida de um indivíduo que sofre de dificuldades com relação aos processos de socialização. Claro, a minoria dos casos chega ao extremo da história de Hauser, mas sujeitos afetados pelo chamado Transtorno de Ansiedade Social (SAD, na sigla em inglês), ainda assim pode ter suas vidas bastante prejudicadas. Esse é um transtorno caracterizado pela fobia relacionada a situações sociais, como festas, interação direta com grupos de pessoas e, um caso relatado com frequência, ligado ao medo de falar em público. Pela própria natureza do transtorno, poucos indivíduos procuram tratamento, o que provavelmente esconde o número real de casos existentes.

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Muitas vezes o Transtorno de Ansiedade Social não vem sozinho, mas como consequência de algum outro transtorno, como anorexia, autismo e outros.

Alguns pesquisadores acreditam que, uma de suas principais características é a interpretação negativa de pistas sociais de natureza neutra. Isso significa dizer que, por exemplo, numa apresentação pública, um indivíduo com SAD entenderá as faces neutras da platéia como indício de avaliações negativas sobre sua performance. Adicionalmente, estudos mostram que também há atenção especial a pistas negativas, em detrimento das positivas. Em outras palavras, parece haver tanto o privilégio de pistas sociais de cunho negativo, desconsideração das positivas, e interpretação distorcida de eventos neutros.

Tendo essas conclusões em vista, Cooney e sua equipe resolveram testar esse último aspecto. Para isso, utilizaram uma ferramenta (a Network Face Stimuli Set) que possui faces com expressões de medo, alegria, tristeza, raiva e neutralidade, além de algumas fotos de figuras ovais, que não carregam uma expressão facial propriamente dita. Assim, a ideia era, através da ressonância magnética funcional, verificar como os dois grupos de sujeitos (os que sofrem de SAD e os saudáveis) reagiriam às imagens. A hipótese era que, no grupo afetado, haveria, principalmente, maior ativação da amígdala diante de faces neutras, em relação ao grupo controle (indivíduos saudáveis). Porém, não deveria haver a mesma ativação em relação às figuras ovais, que não representam pistas sociais.

A new approach to measuring individual differences in sensitivitEsse foi o primeiro estudo realizado, sobre a ativação cerebral perante faces neutras em indivíduos com SAD. A análise dos dados mostrou que o grupo controle teve maior atividade da porção esquerda da amígdala, enquanto o grupo de estudo teve maior ativação da porção direita, na condição faces neutras x figuras ovais.

Esse é um interessante resultado, pois sugere que os estímulos neutros são, acima de tudo, ambíguos, já que tanto indivíduos saudáveis quanto os que possuem o transtorno tem a amígdala ativada – embora de um modo diferente. A região da amígdala é uma área do sistema límbico do cérebro comumente relacionada ao processamento de estímulos interpretados como negativos.

Com esse estudo, obtem-se a primeira forte evidência de que é provável que haja essa deturpação na interpretação de estímulos sociais, em indivíduos com SAD, evidência esta verificada em nível neural.


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Como citar este artigo:

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PIRES, Sergio Fernandes Senna. Para fóbicos sociais, expressões faciais neutras não são realmente neutras. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/para-fobicos-sociais-expressoes-faciais-neutras-nao-sao-realmente-neutras/> . Acesso em 3 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2014). Para fóbicos sociais, expressões faciais neutras não são realmente neutras. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/para-fobicos-sociais-expressoes-faciais-neutras-nao-sao-realmente-neutras/.

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Estudante de psicologia, com interesse em psicologia cognitiva, psicologia evolucionista, neuropsicologia e neurociência. Atualmente estudo as expressões faciais das emoções básicas sob a perspectiva evolucionista e neurocientífica. Editor do blog de variedades www.nerdworkingbr.blogspot.com
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