Que perspectiva de ser humano embasa nossos artigos?

A perspectiva sociocultural construtivista.Quando redijo os artigos no portal, o faço a partir de um ponto de vista científico e filosófico. Este artigo explicita os referenciais que utilizo em tudo que escrevo.

Até onde pude estudar, essas são as idéias mais avançadas que conheço sobre o desenvolvimento psicológico do ser humano. Muito do potencial dessas idéias ainda está por ser utilizado. Espero que essas concepções possam causar em você, impacto semelhante que causaram em mim quando delas tomei conhecimento.

A abordagem teórica sociocultural construtivista, ou co-construtivista, está baseada nas idéias de Mead, Baldwin, Vigotski e Piaget. Suas principais características são:

(1) adoção de uma visão sistêmica;

(2) contextualização do desenvolvimento na sociocultura;

(3) ênfase no estudo dos processos de co-construção de significados; e

(4) concepção do desenvolvimento humano que considere a atuação conjunta da canalização cultural e a intencionalidade do sujeito (e.g., Cole, 1992; Ford & Lerner, 1992; Rogoff, 1993; Valsiner, 1987, 1989, 1994; Vigotski, 1934/2001; Werstch, 1991, 1998).

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Lev Vigotski – Um dos fundadores da perspectiva sociocultural

À dimensão cultural é dispensado um especial destaque, pois se considera que a produção simbólica fundamenta e constitui o pensamento (Valsiner, 2007; Vigotski, 1934/2001), caracterizando as ações humanas. As relações sociais se dão em diferentes contextos semióticos (simbólico-culturais), que são partilhados entre os integrantes de determinado grupo. Esses ambientes e condições culturais singulares participam da constituição das subjetividades em um processo que se estende ao longo de todo ciclo de vida (Valsiner, 1989, 1994, 2007).

É importante salientar que, ao enfatizar a dimensão coletiva da constituição da subjetividade em contextos semióticos, a perspectiva sociocultural construtivista não diminui o papel do indivíduo como agente ativo na construção, tanto da sua própria subjetividade, quanto do ambiente cultural coletivamente estabelecido (Branco, 2006; Valsiner, 1994).

Ainda que a cultura atue como organizadora dos espaços de construção de significados ao longo do tempo, cada pessoa possui possibilidades e certa flexibilidade para conduzir e constituir, de forma intencional e não – intencional, os seus processos de internalização e externalização e de ação no mundo.

A abordagem sociocultural construtivista também se interessa pela microgênese dos processos psicológicos e nos processos que estão implicados na ontogênese da motivação, dos sistemas pessoais de valores, das orientações para crenças e objetivos. Além disso, é de suma importância compreender como atuam os processos desenvolvimentais em contextos culturais estruturados específicos e como se constituem sujeito e subjetividade em relação aos contextos culturais.

Segundo essa perspectiva, o ser humano se constitui como sujeito de forma interativa e dinâmica, assumindo um papel ativo e participativo nessa construção. Nessas condições, os sujeitos conduzem suas negociações semióticas nas interações com outras pessoas, em variados contextos.

Mesmo em cenários extremos, bastante autoritários e desfavoráveis à plena negociação de significados, como os descritos nas Teorias de Reprodução Cultural e Violência Simbólica (e.g., Althusser, 1985/2007; Bourdieu, 1989, 1967/1998; Bourdieu & Passeron, 1970/1975), a possibilidade de ação ativa dos sujeitos não é anulada. A noção de reprodução como uma cópia em verdadeira grandeza, entendida como a imagem refletida em um espelho plano, não encontra sustentação teórica sob o ponto de vista sociocultural construtivista no que se refere à construção de significados e à internalização e externalização de crenças e valores.

Os processos de comunicação e metacomunicação ganham particular destaque no contexto das interações sociais. Desempenham um papel central na ontogênese dos valores, os quais são negociados em meio às práticas culturais e ao longo da dinâmica das internalizações e externalizações que promovem a mútua constituição sujeito-sociedade (Elias, 1987/1994).

Aos padrões de interação ocorridos face a face ainda podem ser acrescidos todos os que, utilizando-se dos meios de comunicação tecnologicamente disponíveis, estabeleçam momentos específicos de contato entre seres humanos e/ou sua produção simbólica.

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Jaan Valsiner – Um dos nomes mais destacados no estudo científico da sociocultura

A metacomunicação, compreendida como um modulador da comunicação, assume um papel preponderante na constituição da dimensão motivacional. Refere-se às mensagens inseridas sobre o próprio processo de comunicação, presentes nas interações e que permeiam as relações humanas (e.g., Branco & Valsiner, 2004; Watzlawick, Beavin & Jackson, 1967). Assume um papel essencial na medida em que contextualiza e direciona a interpretação dos significados co-construídos nos processos de comunicação que se dão nas interações sociais, colaborando, assim, de forma fundamental, para o desenvolvimento do self e da qualidade das interações e relações humanas.

Por meio do estudo das interações sociais e processos comunicativos, é possível, portanto, entender que nível de liberdade e responsabilidade cada sujeito pode alcançar em determinados contextos culturalmente estruturados.

No caso da promoção da autonomia e da participação humana, esse aspecto é fundamental para que se analise a regulação das práticas sociais por valores que promovam a competição e o individualismo frente à possibilidade de ações protagônicas na direção contrária a esses valores. Esse protagonismo exige uma disposição cooperativa e de colaboração entre todos os envolvidos, tendo em vista a transformação ou mudança criativa de aspectos da sociocultura que se deseja superar.

Referências:

Althusser, L. (2007). Aparelhos ideológicos de estado: Nota sobre os aparelhos ideológicos de estado. (W. J. Evangelista & M.L.V de Castro, Trad.) Rio de Janeiro: Graal. (Obra original publicada em 1985).

Bourdieu, P. (1989). O poder simbólico. (F. Tomaz, Trad.) Lisboa: Difel. (Obra original publicada em 1989).

Bourdieu, P. (1998). Economia das trocas simbólicas. (S. Miceli, Trad.) São Paulo: Perspectiva. (Obra original publicada em 1967).

Bourdieu, P. & Passeron, J. C. (1975). A reprodução. (R. Bairão, Trad.) Rio de Janeiro: Francisco Alves. (Obra original publicada em 1970).

Branco, A. U. (2006). Crenças e práticas culturais: co-construção e ontogênese de valores sociais. Revista Pro-Posicoes, 17, 139-155.

Branco, A. U. & Valsiner, J. (2004). Communication and metacommunication in human development. Greenwich: Information Age Publishing.

Elias, N. (1994). A sociedade dos indivíduos. (V. Ribeiro, Trad.) Rio de Janeiro: Zahar. (Obra original publicada em 1987).

Ford, D. H. & Lerner, R. M. (1992). Developmental systems theory. Newbury Park, CA: Sage.

Rogoff, B. (1993). The cultural nature of human development. New York: Oxford University Press.

Valsiner, J. (1987). Culture and the development of children´s actions. New York: Wiley.

Valsiner, J. (1989). Human development and culture: The social nature of personality and its study. Lexington, MA: Lexington Books.

Valsiner, J. (1994). Bidirecional cultural transmission and constructive sociogenesis. Em W. de Graaf & R. Maier (Orgs.), Sociogenesis reexamined (pp.47-70). New York: Springer.

Valsiner, J. (1998). The guided mind. Cambridge: Harvard University Press.

Valsiner, J. (2000). Culture and human development: An introduction. London: Sage.

Valsiner J. (2007). Culture in minds and societies: Foundations of cultural psychology. New Delhi: Sage.

Vigotski, L. S. (2001). A construção do pensamento e da linguagem. (P. Bezerra, Trad.) São Paulo: Martins Fontes. (Obra original publicada em 1934).

Watzlawick P., Beavin, J. H. & Jackson, D. D. (1967). Pragmatics of human communication. New York: Norton.

Wertsch, J. V. (1991). Voices of mind. Cambridge: Harvard University Press.

Wertsch, J. V. (1998). Mind as action. New York: Oxfrd


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Que perspectiva de ser humano embasa nossos artigos?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/que-perspectiva-de-ser-humano-embasa-nossos-artigos/> . Acesso em 3 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2011). Que perspectiva de ser humano embasa nossos artigos?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/que-perspectiva-de-ser-humano-embasa-nossos-artigos/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
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8 Comments

  1. Seu principal formulador foi Hubert Hermans. Mas hoje conta com diversos pesquisadores que adotam seus conceitos.

    É uma teoria muito produtiva e praticamente desconhecida no Brasil, se a pessoa tomar tempo para estudá-la.

    http://huberthermans.com/

  2. Além disso, para os bem estudiosos, vale tomar conhecimento da Teoria do Self (uma alternativa teórica ao que nos acostumamos chamar de “personalidade”) Dialógico.

    Conceitos muito interessantes. Pecam no abandono da integração somática e cultural e são radicalmente culturalistas.

    Mas é um grande avanço em relação às teorias de personalidade formuladas na primeira metade do Sec. XX.

    http://en.wikipedia.org/wiki/Dialogical_self

  3. Para quem está interessado no estudo das emoções e especialmente para o Felipe, eu recomendo a leitura das revisões de Klaus Scherer.

    Scherer, K.R. (2000). Psychological models of emotion. In Joan C. Borod (Ed.), The Neuropsychology of Emotion (pp. 137–162). New York: Oxford University Press.

    Esqueça literatura em Língua Portuguesa. Por exemplo: o artigo indicado pelo Edinaldo é válido como leitura. O esforço da revisão da literatura científica ficou mais naqueles teóricos que estudam e defendem a abordagem somática das emoções. Alguns são conhecidos como cognitivistas.

    Não há nenhum culturalista, o que enfraquece a revisão. Sem culpar os autores, pois as abordagens culturalistas são mais escassas e precisam de mais tempo de estudo para serem entendidas. Imaginem algo sistêmico e integrativo….

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