Realmente contamos 3 mentiras a cada 10 minutos?

Você conta 3 mentiras a cada 10 minutos?

Você já deve ter ouvido em algum programa de televisão, entrevista com “especialistas” em detecção de mentira ou mesmo lido matérias na Internet com afirmações de que todos nós mentimos três vezes por minuto. Se você é fã do seriado Lie to Me, com certeza já ouviu isso. Veja como o seriado difunde tal mito em um vídeo promocional:

A afirmação de que, segundo pesquisas científicas, mentimos três vezes a cada 10 minutos é constantemente repetida em jornais, revistas e também pronunciada pelos “especialistas” na área da “detecção da mentira”. Evidentemente que percebe-se uma curiosidade por parte do ouvinte pela citação proferida, o que faz o especialista repetir o mantra. Muitos inclusive não sabem que pesquisa foi essa, mas quem negaria uma frase tão forte, ainda mais advinda de fontes “tão seguras”? O professor de psicologia Robert Feldman, da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, foi um dos responsáveis pela elaboração de um estudo que deu origem a mais esse mito.

Ele filmou a interação de 121 pares de pessoas que acabavam de se conhecer e constatou que elas mentiam, em média, três vezes numa conversa de dez minutos. Os resultados dessa pesquisa foram comunicados no artigo “Self-Presentation and Verbal Deception: Do Self-Presenters Lie More?“, cuja autoria pertence a Robert S. Feldman, James A. Forrest, e Benjamin R. Happ (veja o artigo completo ao lado).

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Mas afinal, essa pesquisa pode ser encarada sempre como verdade?  E ainda, podemos quantificar o número de mentiras que falamos em um dado tempo?

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A equipe de pesquisa escreveu e divulgou isso, deixando alguns alertas dissimulados sobre a sua própria incredulidade com o resultado :  

É importante ter em mente que 60% dos participantes mentiram durante a conversação de 10 minutos e o fizeram com uma média de quase três vezes. É difícil imaginar que as pessoas mentem quase três vezes em uma interação social de dez minutos. – Feldman (2002, p.170)
  Podemos perceber que geralmente os mesmos “especialistas na detecção da mentira”, logo em seguida, trazem outra informação visando atenuar a bárbarie proferida anteriormente: que nem todas estas mentiras seriam “perigosas”, por vezes são as chamadas “mentiras brancas” (white lies – uma desculpa por chegar atrasado no trabalho ou um bom dia que você não deseja do fundo do coração por exemplo), justificando assim a contabilização de mentiras por fração de tempo.  
 Chamamos a atenção para o fato potencialmente relevante que qualquer mentira, “branca” ou não, prepara seu protagonista para a próxima, oportunidade na qual poderá mentir mais e melhor.

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Falamos demais por não termos nada significativo a dizer?

A parte experimental da pesquisa foi realizada de seguinte forma:

  • Os sujeitos da pesquisa foram estudantes de graduação de uma universidade norte-americana;
  • Os participantes foram designados aleatoriamente para três grupos: os que deveriam parecer simpáticos, aqueles que deveriam parecer competentes e o último que deveriam apenas dar-se a conhecer;
  • Duplas foram formadas para as conversações de 10 minutos. 
  • Antes da conversa, os sujeitos não sabiam que estavam sendo gravados e nem que o estudo versava sobre a mentira (o consentimento informado foi realizado após a gravação).
Embora 40% das pessoas tenham dito não ter mentido em momento algum, os 60% restantes reportaram que o fizeram. Realizada a matemática nas indicações, em média, as pessoas contaram três mentiras durante os dez minutos do teste. A média, nesse caso concreto, imputa 3 mentiras a todos, inclusive àqueles 40% que afirmam ter falado a verdade. Faria isso sentido?

É interessante observarmos alguns aspectos:

1. A pesquisa foi feita com um quantitativo restrito de pessoas, apenas 121 pares; 2. Todos eram alunos da universidade em que o professor Robert Feldman lecionava, ou seja, era um grupo que tinha grandes chances de ter um perfil semelhante; 3. Os participantes possuiam algum tipo de dificuldade de interação ou de lidar com suas próprias questões de auto-estima? Devido à pequena quantidade de sujeitos, este aspecto poderia influenciar na pesquisa; 4. O senso comum se apropriou de parte dos resultados, generalizando-os apressadamente, como se todos nós contássemos 3 mentiras a cada 10 minutos, o que não é verdade.  

Para entender melhor o ponto 3, recomendamos a leitura do artigo “Mentiras sinceras nos interessam?“, de autoria do Dr. Sérgio Senna
  Veja alguns outros questionamentos a respeito desse mesmo tema e que foram feitos por Sérgio Senna durante uma entrevista na TV Século XXI (é a primeira pergunta-resposta no início do vídeo a seguir):

 

Tudo em sua devida medida.

Como muitos aspectos do comportamento humano, a mentira é um fenômeno complexo que também obedece ao princípio da equifinalidade, segundo o qual o mesmo comportamento observado pode ser causado por razões diferentes. Além disso, não parece fazer muito sentido entender um fenômeno relacionado às nossas emoções, ao processo decisório diante de nossas crenças e valores e estreitamente ligado à parte simbólica de nosso psiquismo em termos de uma mera média aritmética. A abordagem quantitativa pode ser muito rica em termos de estudo do comportamento humano. No entanto, pareceu-nos uma simplificação excessiva verificar quantas vezes uma pessoa mentiu em uma conversa de auto-apresentação.

Em nossa opinião, o mais assustador é ver como o senso comum se apropria dessas informações, descontextualizando-as e passando a utilizá-las com propósitos diferentes daqueles para as quais foram estudadas.

A informação de que 40% dos sujeitos falaram a verdade não aparece com o mesmo destaque (quando aparece). Percebemos que interpretações desses dados podem ser utilizadas para “justificar” a mentira (uma vez que “todos” mentem pelo menos 3 vezes em 10 minutos). Se formos rígidos, como certos especialistas em detecção de mentiras, a média de 3 mentiras a cada 10 minutos (afirmação já transformada pelo senso comum com apoio nesse estudo) se aplica de forma generalizada:  

Se alguém conversar 50 minutos, serão 15 mentiras, em “média”. Imagine o dia inteiro…. Seriam 432 mentiras por dia. Que mentiroso médio! Imagine o grande! Como a pessoa que mentiu mais no estudo contou 12 mentiras nos 10 minutos, seriam 1728 mentiras por dia de 24 horas (se você for um purista, desconte o tempo que ela estará dormindo e contando mentiras para si mesmo em seus sonhos).

  Ademais, a mentira é um fenômeno relacionado ao sistema normativo de cada pessoa. Esse sistema possui aspectos cognitivos (o conteúdo da mentira), aspectos emocionais (desejos, sentimentos sobre o resultado a ser alcançado com a mentira etc) e a ação do mentiroso para conseguir o seu intento. Dentro desse contexto, cada agente responsável (pessoas) estará diante de uma decisão a tomar cada vez que tiver que lidar com seus desejos e com os resultados que planejou atingir nas interações que mantém. Sob esse ponto de vista, cada mentiroso tem que decidir se vai mentir ou falar a verdade em cada momento.  

Conceber que a ação de mentir ocorra segundo esse modelo na grande maioria das vezes é muito importante, pois somente pessoas que decidem podem ser responsabilizadas por suas ações.
 

Além disso, devemos ter em mente que uma grande quantidade de mentiras ocorrem pela pura incapacidade do mentiroso de lidar com suas emoções, desejos e com os resultados que pretende atingir.O mentiroso esquece que, tão importante quanto os resultados, são os caminhos que nos levam a eles.

  

E você? O que pensa sobre isso? Deixe-nos o seu comentário! Saudações e prossiga acompanhando os nossos artigos Sergio Senna e Edinaldo Oliveira

Referências:

FELDMAN, Robert; JAMES, A. Forrest; BENJAMIN, R. Happ. Self-Presentation and Verbal Deception: Do Self-Presenters Lie More?. University of Massachusetts, Amherst. Disponível em: . Acesso em: 31 de março de 2012. PIRES, Sergio Fernandes Senna. Mentiras sinceras nos interessam?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em. Acesso em: 31 de março de 2012


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio F.S; JUNIOR, Edinaldo O. . Realmente contamos 3 mentiras a cada 10 minutos?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/realmente-contamos-3-mentiras-a-cada-10-minutos/> . Acesso em 3 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio F. S. & Junior, Edinaldo O.. (2012). Realmente contamos 3 mentiras a cada 10 minutos?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/realmente-contamos-3-mentiras-a-cada-10-minutos/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
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7 Comments

  1. Sem dúvida tais estudos, assim como outros milhares, são retirados de seus devidos contextos e se espalham no senso comum que passam a utiliza-los de forma arbitrária.

    Nao ficou muito claro se no estudo as pessoas que conversavam já se conheciam, porém tive a impressão que não, e se elas não se conheciam a probabilidade de mentir cresce, para poder impressionar o outro, ou ate mesmo porque a relação com esse outro não é significante.

    Ótimo artigo

  2. Olá tenho 25 anos e trabalho como Personal Coach, estudo PNL há alguns anos, já dei aulas de sedução e desde que conheci os trabalhos de Paul Ekman venho estudando as micro-expressões. Tenho obtido resultados espantosos quando aliados a PNL; tudo que sei é fruto de estudos e pesquisas autônomas. Sobre o tema abordado, penso que mentira é simplesmente um assunto que vende e chama atenção das pessoas, o que realmente importa para desvendar a mentira ou verdade, “ler” a pessoa, é o motivo por trás da mentira. Sinceramente, conforme fui progredindo e me desenvolvendo em leitura fria e micro-expressões, ao invés de facilitar minhas interações, na verdade dificultou, pois o fato de sabermos e interpretarmos a outra pessoa faz com que nos desliguemos da interação, nos torna manipuladores e acaba nos levando a descobrir coisas que não deveríamos ou não queríamos, tenho medo de fazer perguntas, posso não gostar da “resposta”. Finalizando meu raciocínio, fico triste em navegar na internet e apenas me deparar com “vendedores”, confesso que é raro encontrar algo novo sobre o tema, ou que aborde, não a complexidade do aprendizado mas sim a facilidade que a pratica tem por si; e a vontade de encontrar um fórum ou grupo disposto a compartilhar conhecimentos e técnicas. Sei que tudo relacionado a essas vertentes de conhecimentos psicológicos são de difícil acesso, na maioria das vezes tem um preço elevado e a única forma de conseguir conhecimentos avançados é, ou estudando ou afiliando-se a alguém com recursos. E é por isso que fico desgostoso sempre que me deparo com um site, ou blog de alguém com um conhecimento avançado que simplesmente vende, não que seja o seu caso, não o conheço e tão pouco o julgo, porém há todo tipo de caridade, mas a caridade que a humanidade realmente necessita jamais encontrei sequer um doador, aquele que doa conhecimentos sem a intenção de vender uma palestra, sua imagem ou qualquer produto. Espero que não leve para o lado pessoal este desabafo, mas sinto que nem todos são afortunados com o “dom” do aprendizado por si como eu fui. Parabéns pelo seu trabalho e pelos site.

    • Prezado Carlos, obrigado pelo seu comentário.

      Não entendi muito bem algumas de suas argumentações, mas concordo com grande parte do seu comentário.

      Esse assunto (a partir de uma abordagem científica) é muito técnico e de difícil aquisição, já a PNL é diferente…. Basta ler uns livrinhos que muitos passam a se denominarem especialistas. Além disso, desde a década de 80 a maioria esmagadora dos estudos científicos independentes vem contradizendo as bases da PNL. Sobre isso veja uma publicação de peso:

      In the mind´s eye

      Mantemos alguns cursos no IBRALC, mas oferecemos extenso conteúdo gratuito e de qualidade (é o maior portal sobre o tema em Língua Portuguesa). Mais caridade e respeito pelos nossos leitores do que isso, não sei o que seria….. Talvez algum sacerdócio franciscano no tema, não sei…..

      Lendo o seu comentário, percebi que vc trabalha como Personal Coach. Não me entenda mal, parafraseando suas palavras, mas suas aulas são sempre gratuitas?

      Aprofunde-se em nosso conteúdo e vc encontrará muitas novidades.

      Um abraço
      Sergio Senna

    • Prezado Carlos,

      Também não entendi alguns dos seus argumentos…o que mais você sugere para o portal?? Pois temos dezenas de artigos, segmentados por temas, testes, comunidade para debate, rádio, canal no youtube, até orientações acadêmicas já prestamos, tudo livre e sem custo: e acredite, isso leva bastante tempo, pois todos os artigos são formulados no que há de mais atual no meio acadêmico/científico.

      Se você achar um portal, em lingua portuguesa, com tanto conteúdo quanto o IBRALC, me apresente, pois ainda desconheço.

      Estas são minhas considerações, entretanto, somos um grupo aberto ao debate, portanto, fique à vontade e não deixe de expressar sua opinião.

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

  3. Doutor Sergio Senna, tenho uma pequena dúvida sobre o assunto abordado em sua publicação no seu portal: quais “especialistas” presentes no mercado fazem tal afirmaçāo?
    Atenciosamente, José Antônio Pereira.

    • Prezado José, saudações e obrigado pela sua participação no Portal.

      Nossa intenção com a publicação foi mostrar que existe informação sem suporte científico circulando pela Internet. No caso específico, chegamos a exibir o comercial do seriado Lie to Me que difunde ser “científico” que todos nós contamos 3 mentiras a cada 10 minutos.

      Pensamos ter mostrado que, quando se trata de contar mentiras, a média aritmética não é um bom parâmetro, pois uma pessoa contará muitas, enquanto outra não contará nenhuma. Não existe o tal do mentiroso médio.

      Não irei polemizar citando nomes de pessoas aqui no Portal e nem permitirei que sejam nominalmente citadas em qualquer publicação nossa.

      Nosso principal objetivo é prestar um serviço às pessoas, mostrando outros pontos de vista dos mesmos estudos científicos que são utilizados para difundir informação inconsistente, deturpada e travestida de autoridade científica.

      Além disso, pensamos ter refletido sobre as possibilidades e limitações dos estudos científicos e que, quando extrapolamos demasiadamente suas conclusões, o resultado no senso comum pode ser prejudicial às pessoas (o que, normalmente, não é a intenção dos pesquisadores).

      No entanto, asseguro que “especialistas” assim existem nos Estados Unidos, na Inglaterra e também aqui no Brasil.

      Além disso, fica implícito o nosso comentário (e crítica) de que se alguém quer utilizar informação científica, precisa, pelo menos, saber compreendê-la e contextualizá-la dentro de suas possibilidades e limitações. Não dá para pegar só o que interessa no curto prazo para vender séries de TV ou livros.

      Caso você esteja curioso, basta fazer uma procura no Google e facilmente as encontrará e poderá tirar suas conclusões de forma autônoma, comparando com as informações que aqui trazemos de forma crítica.

      No mais, o artigo é fruto do exercício do direito constitucional de liberdade de opinião (embasada e consciente, é lógico).

      Att.
      Sergio Senna

    • Bom, o mais importante nesse artigo, pela minha perspectiva, foi a ideia de que todas as pessoas conscientes mentem, o que está congruente com pesquisas sobre essa ideia de universalidade da mentira. Seria isso então verdade? 100% das pessoas conscientes mentem?

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