O Sistema Límbico e as emoções

O sistema límbico e nossas emoções

Prosseguindo em nosso propósito de trazer informação básica e proveitosa ao estudo da comunicação não verbal, trataremos do Sistema Límbico, que é a principal parte responsável pelas nossas emoções.

 

O nosso propósito aqui é apenas incentivá-lo a conhecer mais sobre esse tema e mostrar a relação de nossa fisiologia com o comportamento não verbal.

 

A pesquisa tem nos dado algumas idéias de como funciona este sistema. Na história das neurociências estão registradas as experiência de José Manuel Rodriguez Delgado, um neurofisiologista que implantou eletrodos num local especifico do sistema límbico de um touro de corrida.

Veja o vídeo abaixo:

 

http://www.youtube.com/watch?v=8yu9TPRDXMw

 

Os eletrodos implantados estavam equipados com um receptor de radio e, quando recebiam um sinal do emissor uma corrente elétrica viaja de um eletrodo a outro e estimulava as respectivas células. Assim que a ferida da operação sarou, o touro foi levado para uma arena, e da forma tradicional, provocado furiosamente pelos toureiros. Delgado entrou na arena e provocou o touro que avançou para ele de cabeça baixa para atingí-lo com os seus chifres.

Quando o touro estava apenas a poucos metros de si, Delgado premiu um botão do emissor, que transportava, gerando um estimulo no cérebro do touro, que acalmou-se imediatamente. Os esforços dos toureiros para enraivecer o touro não tiveram qualquer sucesso enquanto o cérebro do touro continuasse a ser estimulado por Delgado.

Apenas com o estímulo de outra parte do sistema límbico, comandada por outro botão, o touro foi trazido de novo a um estado de raiva sem qualquer intervenção dos toureiros. Ficou evidente que as células nas quais foram implantados os eletrodos regulam a raiva e a tranqüilidade.

As células afetadas estavam localizadas na amígdala, um componente do sistema límbico. De uma forma semelhante a esta, ratos e outros animais podem, pela estimulação seletiva de outras partes do sistema límbico, ser motivados para comer, recusar comida ou serem estimulados sexualmente. Em resumo, o sistema límbico regula algumas das mais vitais emoções.

Estes efeitos também podem ser evocados nos humanos. A primeira vez na qual se demonstrou que os sistemas no cérebro límbico, geram e inibem comportamentos de ataque foi com um paciente, Thomas R. Thomas, cujo principal problema era a sua fúria violenta.

Foram implantados eletrodos na sua amígdala e a estimulação diária de uma parte especifica manteve-o livre de ataques de raiva durante dois meses. Como não é possível continuar este regime ao longo da vida do paciente, já que as partes da sua amígdala quando estimuladas foram eletricamente destruídas. Subseqüentemente, os seus ataques de raiva acabaram.

Doenças nestes mecanismos reguladores conduzem a desordens comportamentais caracterizadas por variações fortes nos desejos: bulimia, anorexia nervosa, psicopatia, etc. Existem diversos estudos que relacionam uma boa parte do efeito viciante de algumas drogas à sua influência nos receptores localizados no sistema límbico. Cria-se assim, uma “mémória” da droga.

Além do já referido, o sistema límbico influencia também o sistema hormonal por intermédio da hipófise, uma pequena glândula unida à base do cérebro. Assim, nossas emoções acabam influenciando todo o nosso sistema hormonal, e todas as consequências que disso advém.

E por último, o sistema límbico, em especial a zona relacionada com o hipocampo, tem um papel importante na memória.

O sistema límbico está presente nos peixes, mas alcança o seu desenvolvimento total nos répteis. A figura abaixo, ilustra a complexidade do processo decisório e a participação do Sistema Límbico (a parte biológica), sem falar no conteúdo, na parte simbólica, nossas crenças e valores que também participam nesse processo. 

Fonte: INEC USP

 

 

Qual a relação desse conhecimento com a linguagem corporal e as emoções?

 A importância de conhecermos o Sistema Límbico reside no fato de que a linguagem corporal é, por excelência, a linguagem que revela as emoções básicas. É fundamental que compreendamos que o funcionamento de nosso sistema nervoso não abandona as estruturas mais antigas quando novas áreas e funções são acrescentadas.

Nossa experiência humana é um complexo que engloba a cultura, mas que tem muito mais relação com o orgânico do que imaginamos. Para uma boa análise do comportamento não verbal é necessário entender que os processos emocionais básicos também regulam nosso comportamento, assim como uma grande parte de nossas crenças e valores conscientes que, por vezes, nos permitem superar os primeiros “arrobos” emocionais.

 

Esse é outro aspecto importante para a análise do comportamento: reconhecer uma emoção básica é apenas uma parte do trabalho. A segunda coisa mais importante é imaginar se o sujeito dessa emoção se deixará orientar por ela, ou utilizará de outras estratégia e processos para apresentar um comportamento diferente do esperado.

 

É por causa dessa “concorrência” de reguladores do comportamento que você, muitas vezes, não se “deixa levar” pela primeira emoção ou “impulso”, mas age com “a cabeça”.

“Dar a outra face” quando é ofendido é um exemplo disso, uma vez que a vingança ou uma reação de raiva pode ser esperada e até compreensível e socialmente aceitável.  

Dessa maneira, entender o funcionamento do Sistema Límbico é entender um dos limitadores da cultura e de sua influência nas decisões humanas.  Esse funcionamento “básico” ainda é muito poderoso.

Veja mais sobre esse assunto na Wikipedia:

 

[wikibox]limbic system[/wikibox]

 

Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/sistema-limbico/> . Acesso em [data-php].

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2012). [post-name]. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em [data-php], de https://ibralc.com.br/sistema-limbico/.

 

Ficamos por aqui.

Saudações

Sergio Senna

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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

. O Sistema Límbico e as emoções. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/sistema-limbico/> . Acesso em 4 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

. (). O Sistema Límbico e as emoções. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 4 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/sistema-limbico/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
Sergio Senna

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8 Comments

  1. Perfeitamente, Dr Sergio! É essa relação entre cultura e biologia que a maior parte do pessoal que estuda humanas não tem!

    Lembro que teve uma ocasião em que uma professora minha disse que até mesmo a necessidade de beber água era cultural. Olha que absurdo! Mas acho que essa geração agora de novos estudiosos, como o senhor, estão tomando o caminho certo para deixar clara a interligação dos dois contextos.

    Ah, e sobre o monge, posso escrever depois uns textos para cá sobre isso! Eles entram bem no contexto aqui do nosso trabalho porque com esses casos, posso trabalhar o tema do controle emocional, afinal, as expressões faciais muitas vezes são mascaradas por outras e isso é um tipo de controle; apesar do mais eficiente ser aquele que nem mesmo é preciso mascarar, como vemos nos monges.

  2. Muito bom o texto!

    Outra orma ainda mais interessante de estudar o sistema é a sua relação com o córtex pré-frontal. O tamanho avantajado do nosso córtex, principalmente o frontal, faz com que tenhamos um controle sem igual das nossas emoções, relacionadas com o funcionamento dessas partes mais primitivas, o sistema límbico. Com frequência, através do uso da razão, por exemplo, podemos ativar ou desativar, ou ainda, modular, as emoções. A própria terapia é uma amostra dessa atividade.

    Se um paciente que tem alguma compulsão, por exemplo, faz terapia e começa a melhorar, é sinal de que o número de conexões do seu córtex frontal com as regiões relacionados ao sistema de recompensa – como nucleo accumbens – aumentaram, promovendo uma maior possibilidade de controle voluntário desses impulsos.

    De acordo com as evidências, a meditação também é uma importante ferramenta atuente nesse sentido. Os monges tibetanos, que geralmente possuem quase meio século de experiência em meditação, possuem um controle sobre as emoções que antes era considerado impossível pelos cientistas.

    Por exemplo, a surpresa é uma emoção muito rápida. Ela ocorre sem a participação da consciência, isto é, é impossível de controlar. Mas parece que os monges conseguem controlar até mesmo essa emoção, bem como as respostas de sobressalto que temos normalmente às vezes mais de uma vez durante o dia.

    Inclusive, acabei de escrever um artigo sobre um estudo de caso feito com um monge, pelo Paul Ekman e Levenson, analisando a resposta de sobressalto. O monge é o ex bioquímico francês Matthieu Ricard, que possui 40 anos de experiência em meditação.

    • Obrigado Felipe,

      Minha intenção é disponibilizar esse conhecimento para as pessoas.

      Sei, que num primeiro momento, pode parecer técnico demais e fora do contexto do Portal.
      Entretanto, eu gostaria que nossos leitores entendessem que não é possível compreender o comportamento humano apenas sob o ponto de vista cultural. Igualmente, não é possível compreender o que ocorre conosco apenas sob o ponto de vista biológico.

      Se eu tivesse que escolher apenas um desses campos para estudar, ficaria com o biológico. Por estar relacionada com processos mais básicos, essa dimensão sempre estará presente influenciando todas as assim chamadas “funções superiores”.

      Afinal, basta ter um problema em nível biológico que a “cultura” não se mostra tão efetiva e é alterada com uma velocidade impressionante. É o caso do Alzheimer, por exemplo. Já tratei disso em vários congressos e gostaria muito que os culturalistas tomassem isso em consideração, pois tem gente que acha que cultura é tudo!

      Nesse contexto, o grande desafio (como você já muito bem pontuou em seus comentários e postagens) é trabalhar e estudar de uma forma articulada as dimensões biológica e cultural, como as funções e estruturas biológicas proporcionam e regulam o comportamento simultaneamente aos processos superiores que nos caracterizam como humanos e nos diferenciam dos grandes primatas.

      Aguardo saber mais sobre esse estudo com o monge.

      Um abraço
      Sergio Senna

  3. Dr. Sérgio,

    Excelente artigo, o pessoal que estuda psicopatia vai gostar bastante…

    Gostaria de trazer um caso bem clássico de uma “alteração” sofrida no córtex cerebral:

    “O homem que mudou”

    “Se uma pessoa sofre lesões em algumas dessas regiões do cérebro, provavelmente não responderá da mesma maneiras aos estímulos do ambiente. Um dos estudos mais famosos sobre a influência desse mecanismo nas emoções ocorreu em 1848, na construção de uma estrada de ferro em Vermont, nos Estados Unidos, e tornou-se um estudo clássico em neurologia. O supervisor da obra, um jovem de 25 anos chamado Phineas Gage, preparava uma carga de pólvora para explodir uma pedra, quando atingiu uma barra de ferro que havia dentro do buraco, causando uma explosão. O bastão de seis quilos atravessou sua cabeça. Gage não morreu, mas teve uma região do córtex cerebral seriamente danificada. Segundo relatos de seus colegas de trabalho, antes do acidente, o operário era equilibrado emocionalmente, gentil, além de inteligente e obstinado. Após o ocorrido, tornou-se anti-social, praguejador, mentiroso, passou a ter péssimas maneiras e já não conseguia manter-se em um trabalho por muito tempo ou planejar o futuro. O caso de Gage tornou-se exemplar, e a parte do cérebro que ele perdeu, os lobos frontais, passou a ser associada à expressão das emoções.”

    FONTE: http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT490728-1719,00.html

    Abraço,

    Edinaldo Oliveira

    • Esse caso do Phineas Gage é um clássico, Edinaldo! Muito legal vc ter citado. Inclusive, nesse caso vemos as consequências de uma lesão pré-frontal. O cara perdeu totalmente a capacidade de auto-controle, o que foi a causa do surgimento da maioria dos sintomas estranhos após o acidente.

    • Obrigado Edinaldo!

      Muitas pessoas me procuram com dúvidas sobre a mentira. Entretanto, ao longo do tempo, fui percebendo que uma quantidade razoável de dúvidas das pessoas estavam relacionadas não com a mentira em si, mas com o sofrimento que isso trazia para elas.

      Passei, então, a prestar mais atenção aos transtornos de personalidade que têm a mentira como uma de suas estratégias. O Transtorno de Personalidade Dissocial é um desses transtornos.

      Tendo essa necessidade de conhecimento das pessoas em vista, vou produzir mais artigos sobre “os psicopatas nossos de cada dia” e sobre formas de lidar com eles. Até por que eu sou escolado nisso, pois ao longo dos meus mais de 30 anos de serviço, fui vítima de vários….

      Um abraço
      Sergio Senna

    • Dr. Sérgio,

      A política inclusive “favorece” muito aos psicopatas, que se investem de poder (de forma “legal”) para uso próprio.

      Se vasculharmos bem o meio político e as altas direções de grandes empresas, com certeza acharemos alguns destes indivíduos.

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

    • Perfeito Edinaldo!

      Ao longo do tempo, vamos observando que o ser humano busca contextos para satisfazer as suas necessidades. Essa é uma estratégia básica e conhecida.

      Um pedófilo, por exemplo, se for daqueles que precisam mesmo da presença física da criança, tentará “justificar socialmente” o acesso ao corpo da criança. Isso se dá, com mais facilidade, exercendo profissões que lidem com a criança.

      Igualmente, os assim chamados psicopatas nossos de cada dia (não são os assassinos em série) vão acedendo a postos em que possam fazer as pessoas sofrerem.

      É o caso de Dennis Rader. Um serial killer que conseguiu manter-se incógnito por mais de 30 anos. Ele conseguia ficar anos sem matar. Teve uma fase em que foi contratado por uma agência de controle de animais. Desempenhando esse cargo, ele podia “infernizar a vida das pessoas”, o que parecia ser suficiente para saciar a sua monstruosidade. Veja um vídeo sobre o famoso BTK:

      httpv://www.youtube.com/watch?v=Ew6AraBPP0E

      Ele trabalhou, inclusive, numa empresa de INSTALAÇÃO DE ALARMES RESIDENCIAIS, através da qual ele tinha acesso ao interior das residências e aos códigos dos alarmes.

      Escreverei um artigo sobre esse caso, analisando as estratégias que o Bind, Torture and Kill (subjulgar, torturar e matar), assim conhecido Dennis Rader, empregava.

      Semelhantemente a esses casos extremos, temos alguns psicopatas que se ajustam bem aos objetivos das empresas (são como “feitores”) e fazem todo mundo “produzir”. Você pensa em melhor contexto do que esse para justificar abusos? Só um estado totalitário…..

      Abraço
      Sergio Senna

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