{"id":69,"date":"2026-01-25T16:52:41","date_gmt":"2025-06-24T16:26:35","guid":{"rendered":"https:\/\/sergiosenna.com.br\/?p=69"},"modified":"2026-02-13T03:50:11","modified_gmt":"2026-02-13T06:50:11","slug":"crime-organizado-no-mexico-e-brasil-licoes-para-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ibralc.com.br\/slab\/crime-organizado-no-mexico-e-brasil-licoes-para-o-brasil\/","title":{"rendered":"Crime Organizado no M\u00e9xico e Brasil: Li\u00e7\u00f5es para o Pa\u00eds"},"content":{"rendered":"\n
O avan\u00e7o do crime organizado no M\u00e9xico e Brasil tem gerado respostas estatais marcadas, em grande medida, por improviso, sobreposi\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias e uma \u00eanfase quase exclusiva na repress\u00e3o penal. No caso brasileiro, essa din\u00e2mica reproduz trajet\u00f3rias j\u00e1 percorridas pelo M\u00e9xico ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas \u2014 e negligenciar essas converg\u00eancias representa um risco estrat\u00e9gico consider\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n
A trajet\u00f3ria mexicana no combate ao crime organizado apresenta li\u00e7\u00f5es cruciais. Trata-se de um laborat\u00f3rio, ao ar livre, cujos acertos e equ\u00edvocos oferecem ao Brasil um espelho antecipado. A seguir, apresentamos quatro motivos estruturais que justificam a necessidade de analisar com aten\u00e7\u00e3o a experi\u00eancia mexicana, com vistas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias mais eficazes e sustent\u00e1veis no contexto brasileiro.<\/p>\n\n\n\n
A atua\u00e7\u00e3o de cart\u00e9is no M\u00e9xico e de fac\u00e7\u00f5es no Brasil revela padr\u00f5es equivalentes de expans\u00e3o, diversifica\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o diante de press\u00f5es externas. Ambos os pa\u00edses lidam com redes il\u00edcitas que articulam mercados variados \u2014 como drogas, armas, minera\u00e7\u00e3o ilegal, extors\u00e3o e lavagem de capitais \u2014 e que operam de forma descentralizada, resiliente e conectada a fluxos transnacionais.<\/p>\n\n\n\n
No M\u00e9xico, grupos como o Cartel de Sinaloa desempenham papel log\u00edstico central entre a produ\u00e7\u00e3o sul-americana e o mercado consumidor dos Estados Unidos. No Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) estabeleceu canais comerciais com a Europa e a \u00c1frica, consolidando-se como elo regional em esquemas de exporta\u00e7\u00e3o de entorpecentes e capitais il\u00edcitos.<\/p>\n\n\n\n
Para interpretar essa complexidade, propomos o modelo do Tetraedro das Organiza\u00e7\u00f5es Criminosas<\/strong> (Pires, 2025)<\/a>, que identifica quatro dom\u00ednios interdependentes: motiva\u00e7\u00f5es humanas, mercados il\u00edcitos, ambientes sociais facilitadores e redes adaptativas. Essa abordagem permite captar as retroalimenta\u00e7\u00f5es que mant\u00eam a vitalidade dos ecossistemas criminosos mesmo ap\u00f3s a\u00e7\u00f5es repressivas intensas.<\/p>\n\n\n\n A li\u00e7\u00e3o para o Brasil \u00e9 clara: enfrentar o crime organizado no M\u00e9xico e Brasil evidencia que a resposta n\u00e3o pode se limitar \u00e0s for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablica. \u00c9 indispens\u00e1vel uma atua\u00e7\u00e3o interinstitucional e coordenada, que envolva justi\u00e7a, intelig\u00eancia, pol\u00edticas sociais, educa\u00e7\u00e3o, infraestrutura e regula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. O combate eficaz exige abordagem integral, sist\u00eamica e sustentada.<\/p>\n\n\n\n Esses grupos n\u00e3o apenas imp\u00f5em regras e controlam territ\u00f3rios por meio da for\u00e7a, mas tamb\u00e9m oferecem servi\u00e7os, intermedeiam conflitos e distribuem benef\u00edcios materiais e simb\u00f3licos. Em contextos marcados por vulnerabilidade social e aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas sustent\u00e1veis, a autoridade criminal adquire legitimidade pr\u00e1tica, mesmo quando baseada na coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n A din\u00e2mica do crime organizado no M\u00e9xico e Brasil revela que essa forma de governan\u00e7a paralela emerge justamente onde o Estado falha em garantir direitos e presen\u00e7a institucional efetiva. A substitui\u00e7\u00e3o funcional do poder p\u00fablico por organiza\u00e7\u00f5es criminosas<\/a> n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno isolado, mas parte de um padr\u00e3o estrutural que se reproduz em distintas regi\u00f5es de ambos os pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n A principal advert\u00eancia, portanto, \u00e9 que a simples ocupa\u00e7\u00e3o armada n\u00e3o \u00e9 suficiente para restaurar a autoridade leg\u00edtima. A reconfigura\u00e7\u00e3o duradoura desses territ\u00f3rios requer um projeto estruturado de reconstru\u00e7\u00e3o institucional, apoiado em pol\u00edticas p\u00fablicas integradas que assegurem direitos, promovam inclus\u00e3o e reconstruam a confian\u00e7a nas vias legais de prote\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n A experi\u00eancia mexicana evidencia os limites do encarceramento massivo como solu\u00e7\u00e3o para o crime organizado. Ao criminalizar operadores de baixa hierarquia, sem distinguir suas fun\u00e7\u00f5es no interior das redes, o sistema penal alimenta a rotatividade e a recomposi\u00e7\u00e3o constante das organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n No Brasil, esse fen\u00f4meno \u00e9 igualmente preocupante. A aplica\u00e7\u00e3o da Lei de Drogas de 2006 resultou em um crescimento expressivo da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, sobretudo entre jovens negros e pobres. Em paralelo, as lideran\u00e7as do crime reorganizaram suas estruturas a partir dos pres\u00eddios, transformando-os em centros de comando.<\/p>\n\n\n\n Al\u00e9m disso, o Brasil enfrenta um obst\u00e1culo adicional: a defasagem normativa de sua legisla\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia.<\/strong> A Lei n\u00ba 9.883\/1999, concebida como transi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-autoritarismo, n\u00e3o oferece base jur\u00eddica adequada para opera\u00e7\u00f5es complexas, integradas e modernas no combate \u00e0s ORCRIMs.<\/p>\n\n\n\n Nesse sentido, o Projeto de Lei 4120\/2024<\/a><\/strong> representa um avan\u00e7o relevante. Ao propor novos instrumentos para a atua\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia de Estado no enfrentamento \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es criminosas transnacionais, o projeto busca conferir seguran\u00e7a jur\u00eddica<\/a>, racionalidade operacional e articula\u00e7\u00e3o interinstitucional \u00e0s a\u00e7\u00f5es do poder p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n A li\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 dupla: a repress\u00e3o sem intelig\u00eancia fortalece o sistema criminoso, e a intelig\u00eancia sem respaldo legal compromete sua efic\u00e1cia. A experi\u00eancia acumulada no enfrentamento ao crime organizado no M\u00e9xico e Brasil demonstra que solu\u00e7\u00f5es fragmentadas e mal alinhadas produzem efeitos limitados ou contraproducentes. Superar esse impasse requer atualiza\u00e7\u00e3o legislativa, qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica cont\u00ednua e planejamento estrat\u00e9gico orientado por uma compreens\u00e3o sist\u00eamica e de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n Desde 2006, com a intensifica\u00e7\u00e3o da guerra contra os cart\u00e9is, o M\u00e9xico recorre sistematicamente \u00e0s For\u00e7as Armadas como ator central das pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica. Os resultados foram amb\u00edguos: apesar de algumas vit\u00f3rias t\u00e1ticas, houve aumento da letalidade, fragmenta\u00e7\u00e3o de grupos e multiplica\u00e7\u00e3o de den\u00fancias por viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos.<\/p>\n\n\n\n No Brasil, a l\u00f3gica de militariza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se tornou recorrente, especialmente por meio das opera\u00e7\u00f5es de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Contudo, sua efic\u00e1cia estrutural permanece limitada, e as fac\u00e7\u00f5es continuam a expandir sua atua\u00e7\u00e3o e sua capacidade de articula\u00e7\u00e3o, inclusive a partir do sistema prisional.<\/p>\n\n\n\n A experi\u00eancia mexicana demonstra que o emprego prolongado das For\u00e7as Armadas no policiamento interno tende a minar as institui\u00e7\u00f5es civis e a gerar distor\u00e7\u00f5es graves. A militariza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica deve ser exce\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pol\u00edtica de Estado. O caminho passa por fortalecer as pol\u00edcias civis e militares, qualificar a intelig\u00eancia, ampliar a transpar\u00eancia e consolidar mecanismos de controle externo e social.<\/p>\n\n\n\n A experi\u00eancia do M\u00e9xico com o enfrentamento ao crime organizado \u00e9 repleta de li\u00e7\u00f5es \u2014 e advert\u00eancias. A ado\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias fragmentadas, centradas na repress\u00e3o penal e no uso intensivo da for\u00e7a, demonstrou capacidade limitada para desarticular as bases estruturais do poder criminal.<\/p>\n\n\n\n O Brasil compartilha in\u00fameros elementos hist\u00f3ricos, institucionais e territoriais com o M\u00e9xico. Essa semelhan\u00e7a torna ainda mais urgente a an\u00e1lise sistem\u00e1tica da experi\u00eancia mexicana. N\u00e3o se trata de copiar solu\u00e7\u00f5es, mas de evitar repetir erros e de antecipar os efeitos colaterais de decis\u00f5es mal calibradas.<\/p>\n\n\n\n \u00c9 fundamental que o governo brasileiro promova estudos aprofundados, de natureza comparada, sobre o caso mexicano. Essa tarefa deve envolver institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, centros acad\u00eamicos, ag\u00eancias de intelig\u00eancia e organismos internacionais. Somente com base em conhecimento qualificado e interdisciplinar ser\u00e1 poss\u00edvel construir pol\u00edticas p\u00fablicas compat\u00edveis com a complexidade do fen\u00f4meno que enfrentamos.<\/p>\n\n\n\n O crime organizado \u00e9 um sistema \u2014 e exige, como resposta, intelig\u00eancia sist\u00eamica, coragem institucional e coordena\u00e7\u00e3o de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n O que voc\u00ea pensa sobre isso? Deixe seu coment\u00e1rio e vamos aprofundar o debate.<\/p>\n\n\n\n Sergio Senna<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" Crime organizado no M\u00e9xico e Brasil exp\u00f5e os limites da repress\u00e3o penal e os riscos de repetir trajet\u00f3rias j\u00e1 fracassadas na pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":75,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"neve_meta_sidebar":"","neve_meta_container":"","neve_meta_enable_content_width":"","neve_meta_content_width":0,"neve_meta_title_alignment":"","neve_meta_author_avatar":"","neve_post_elements_order":"","neve_meta_disable_header":"","neve_meta_disable_footer":"","neve_meta_disable_title":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[864,5],"tags":[424,931,80,862,933,440,662,835,929,932,779,828,657,930],"series":[],"class_list":["post-69","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arquitetura-decisoria-governanca","category-crime-organizado","tag-crime-organizado","tag-crime-transnacional","tag-decisao","tag-estado","tag-forcas-armadas","tag-governanca-criminal","tag-governanca-estatal","tag-inteligencia","tag-mexico-brasil","tag-militarizacao","tag-organizacoes-criminosas","tag-politica-publica","tag-seguranca-publica","tag-sistema-prisional"],"yoast_head":"\n
<\/a><\/figure>\n\n\n\n2. A governan\u00e7a criminal se consolida onde o Estado falha<\/h2>\n\n\n\n
3. Intelig\u00eancia sem respaldo legal: um entrave no combate ao crime organizado no M\u00e9xico e Brasil<\/h2>\n\n\n\n
4. A militariza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica produz efeitos colaterais<\/h2>\n\n\n\n
Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h2>\n\n\n\n