TRON, extensões e o legado.

TRON, extensões e o legado.

Para quem não conhece, o filme TRON: Uma odisséia eletrônica, trata-se de uma ficção científica da Walt Disney Pictures. Filmado em 1982, foi escrito e dirigido por Steven Lisberger e estrelado por Jeff Bridges. O filme teve grande destaque devido à inovação gráfica na época e sua grande utilização em todo o filme.tron

Kevin Flynn é um jovem engenheiro de Softwares que trabalha para uma grande corporação chamada ENCOM. Ed Dillinger, seu inimigo, é promovido a Vice-Presidente, graças aos trabalhos desenvolvidos  por Flynn, mas que foram roubados por Dillinger.

Existem ainda outros personagens na trama, como o programa chamado CLU, o  Programa de Controle Mestre (MCP), e Tron, que foi um programa criado para monitorar o MCP.

Flynn é capturado pelo MCP, que usa um Laser para digitálizá-lo e transportá-lo para o mundo virtual, onde ele conhece outros programas, cujas aparências lembram às de seus criadores, os Usuários. A partir deste ponto começa toda a jornada de Flynn e Tron, no mundo virtual.

No segundo filme da série – TRON o legado, podemos ver as consequências das decisões tomadas no primeiro filme: CLU, que antes era um programa auxiliar de Flynn, passa a distorcer a visão de mundo -virtual- idealizada por Flynn,  e mais: passa a não aceitar a tênue linha que separa o mundo virtual do real. Mas afinal, o que o filme TRON pode nos falar sobre a formação de pensamento, concepção de mundo e nossos limites sensoriais?

 

Mundos e Extensões – quais nossos limites?

Edward T. Hall cita em seu livro “A dimensão oculta – pág. 14” que pessoas de culturas diferentes não apenas falam línguas diversas mas, o que é talvez mais importante, habitam em diferentes mundos sensoriais. Nossas produções arquitetônicas e ambientes urbanos são expressões de nossos processos de aquisição de informação sensorial, a qual passa por uma seleção baseada em critérios, que o autor sugere serem culturais, e que após tal seleção (e consequente apropriação) projetamos este conhecimento (selecionado) na forma de elementos arquitetônicos e/ou urbanos.

Portanto, podemos compreender que nossas produções arquitetônicas (em parte, graças ao fruto da relação existente entre sociedade, ciência e tecnologia) são expressões de nossos processos criativos e produto  de habilidades do funcionamento sadio de nosso psiquismo. Existe uma profunda relação entre a influência da nossa base filogenética e a cultura, pois ambas se complementam: uma traz, como parte de sua composição, o instinto/necessidade de sobrevivência, a outra nos proporciona, no tocante à ciência e tecnologia, meios para tal sobrevivência.

Através de nosso sistema sensorial, podemos obter noção do espaço disponível, das texturas e dos materiais disponíveis para a “construção da nossa sobrevivência”, isto é, tendo a noção de espaço necessário para nosso habitat, bem como, o que nele deve conter para nossa sobrevivência (habitação, armas, veículos, etc).tron-evolução

Pela habilidade humana, é possível inclusive evoluirmos a partir de elementos que foram anteriormente criados, afinal, em plena era da informação, seria uma extrema perda de tempo recriar processos já concebidos e estáveis, para a partir deste ponto tentar uma evolução, no dito popular, seria “reinventar a roda”. Como exemplo, podemos citar um novo campo na área de informática, o reuso de software, técnica criada justamente para o reaproveitamento de códigos de computador já desenvolvidos, evitando a repetição de tarefas já realizadas, liberando assim o programador para o aprimoramento do produto já existente (existe inclusive um grupo trabalhando exclusivamente com este conceito: o RISE – Reuse in Software Engineering).

Complementando a idéia de somatização da cultura – partindo do citado no parágrafo anterior – o ser humano, normalmente, tende a se mover no sentido da evolução, afinal, desde muitos anos desejavamos conquistar novos espaços, e o maior deles, na época, era a lua. Observe que a NASA – agência espacial americana – só viabilizou tal expedição além de nossas antigas fronteiras/limitações, depois que a força áerea dos E.U.A. conseguiu pela primeira vez, em 1947, quebrar a barreira do som. Desta forma, limitações são transpostas, através da impulsão da sociedade, norteada pela ciência, que possibilitou gerar a tecnologia que nos levasse mais longe.

tron-tecnologiaAssim, fica claro que o ser humano é composto da relação entre o nível orgânico (destacando pontos como o ímpeto da descoberta e o senso de sobrevivência) e o nível cultural (focando na tecnologia, arquitetura e ciência), pois não somos apenas somáticos, temos também na comunicação não verbal um nível orgânico, que se expande ao simbólico tanto quanto qualquer outra linguagem (cultura).

Então, conflitos poderiam culminar entre o seu criador (Flynn) e criatura (CLU), pois ambos viviam em mundos diferentes – e foi o que de fato aconteceu. CLU, que após romper com os conceitos do seu criador, molda o mundo virtual à sua visão, e aqui neste ponto, vale resgatar outro trecho de Hall, do mesmo livro, dizendo que “O meio ambiente arquitetônico e urbano que as pessoas criam são expressões deste processo de filtragem-peneiramento.”

Por exemplo: pessoas que mudam de região, mesmo aqui no Brasil, devido a diversidade cultural existente, irão sofrer com barreiras impostas culturalmente, até que se adaptem às mesmas ou desistam de residir no local.

Entretanto, devemos perceber que este processo de adaptação pode se tornar vantajoso, e diferentemente dos outros animais, possuimos a possibilidade de nos adaptar ao meio que nos rodeia (e rodeia os culturalmentes iguais), a história nos conta isso: desde a descoberta do fogo, até os meios de comunicações digitais utilizados atualmente. O homem está em constante evolução e adaptação.

Sugerimos a leitura do artigo “Crenças e Valores. Como isso funciona?“, de autoria do Dr. Sérgio.

Para um melhor entendimento, podemos usar o termo “extensões”, criado por Hall, que nada mais é do que a síntese de nossa evolução e a ampliação de nossos sentidos, pois os mesmos, atualmente, transpassam os limites de nosso corpo.tron-extensoes

E como isso ocorre? Através de ferramentas, como o computador, com o qual podemos estender nossos pensamentos para os mais remotos locais, o telefone/celular, que nos possibilita nos fazer escutar além dos limites de nossa voz, os meios de transportes, que nos possibilitam transcorrer distâncias cada vez maiores em um tempo menor, entre outras infinitas criações.

A capacidade de adaptação ao meio é o grande “trunfo” da espécie humana, pois superamos as adversidades ao invés de sofrermos diversas transformações orgânicas, o que ocorre em outras espécies animais.

Alguns répteis, por exemplo, buscaram o refúgio dos ares para superar as difíceis condições de competição existentes no solo. Para isso tiveram que se submeter a intensas modificações biológicas, através de numerosas gerações. Perderam escamas e ganharam penas; trocaram um par de membros por um par de asas; um sistema de sangue frio por um de sangue quente; além de outras modificações anatômicas e fisiológicas. Ganhando a locomoção aérea, afinal se transformaram em aves. O homem obteve o mesmo resultado por outro caminho. (LARAIA,2003, p.38)

Alfred Louis Kroeber, em seu artigo intitulado “O Superorgânico” (1917), discute a diferença entre o orgânico e o cultural, apresentando a cultura como algo que transcende o plano do orgânico. Assim, a cultura é o que o homem implementa à natureza, decorrente da sua própria atividade de criação, ou seja, é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores, enquanto o orgânico seria o que está aí, sem qualquer intervenção prévia do homem. No filme, isto é bem representado, através das diversas tecnologias empregadas no mundo real e virtual.

Resumidamente, Kroeber afirma que o homem, diferentemente de outros animais, rompe as adversidades ambientais e transforma o meio que o rodeia em seu hábitat, passando assim a depender mais do aprendizado do que da hereditariedade, deste modo, suas ações e atitudes não estão geneticamente determinadas. Afinal, para voar não desenvolvemos asas, mas criamos o avião. 

 

CLU e a agressão contra os programas.

Outro fator capaz de moldar o mundo em nossa volta é a agressão, por mais contraditório que pareça ser, é um ingrediente de extrema importância para a vida. Ainda segundo Hall, “a agressão conduz a um espacejamento adequado dos animais(…)quando a aglomeração se torna demasiada, depois de aumentos de população, as interações se intensificam, conduzindo a um estresse cada vez maior.”

Pequenas situações cotidianas nos mostram isso: em protestos, o espaço pessoal é invadido, devido à aglomeração de pessoas, o que desencadeia por vezes a raiva, e assim, a mesma vai tomando espaço entre os manifestantes, o que termina por culminar em conflitos mais sérios.

Já pensou porque a policia se utiliza das bombas de “efeito moral”? Para aumentar o espaço entre os manifestantes, reestabelecendo assim o espaço individual de cada um, e dissipando o sentimento de raiva presente no grupo.

O personagem CLU, através de perseguições e extermínios, conseguiu moldar o mundo virtual ao seu modo de pensar, criando um lugar favorável para si e os demais que compartilhavam de seus ideais.

Devem ter percebido que, com o passar dos anos, a moradia em centros urbanos sofreu (e sofrem) diversas alterações, pois aos poucos estamos deixando de morar em casas, para vivermos em prédios (que nada mais é do que uma extensão humana que visa suprir a crescente ausência de espaço em centros urbanos).

Interessante destacar a referência feita por Lucio Grinover em seu artigo “A hospitalidade na perspectiva do espaço urbano”, onde cita  “La cittá postmoderna: Magie e Paure della metropoli contermporanea”, Amendola (2004), “sustentando que as cidades estão se preparando para uma feroz competição oferecendo todas elas uma nova imagem de si. Intensificam-se as ações sobre a cidade para mudar sua lógica de funcionamento e forma física, e aumentar assim sua capacidade de competir em mercados nacionais e internacionais, ao mesmo tempo, satisfazem seus habitantes.

 

tron-casa

Segundo Silva, “Todas as manifestações materiais de cultura criadas pelo Homem têm uma existência física num espaço e num determinado período de tempo. Algumas destas manifestações destróiem-se e desaparecem, esgotadas na sua funcionalidade e significado. Outras sobrevivem aos seus criadores, acumulando-se a outras expressões materiais.E através da própria dinâmica da existência, estes objectos do passado alimentam, pela sua permanência no tempo, a criatividade de novas gerações de produtores de objectos, que acrescentam elementos às gerações anteriores. E assim a cultura flui.”

Portanto, porque não considerar o avanço do uso do pau e da pedra – nos primórdios da humanidade – como uma extensão corporal que facilitaria a defesa do território já conquistado? Ainda nos utilizamos de tais extensões, só que em suas versões evoluidas – cacetetes, facas, armas de fogo, etc. Esse “conceito” nos foi transmitido de forma orgânica ou cultural?

Portanto, devemos sensibilizar nossa visão acerca da situação humana, e aprendermos a interpretar o meio silencioso que nos rodeia, só assim nos adaptaremos. Nos próximos artigos iremos aprofundando o tema, continuem nos acompanhando!!

 

Referências:

Grinover, Lucio.”A HOSPITALIDADE NA PERSPECTIVA DO ESPAÇO”; Revista Hospitalidade; 2009. Disponível em: http://www.revistas.univerciencia.org/turismo/index.php/hospitalidade/article/viewFile/214/284. Acessada em: 24/02/2012

Hall, Edward. “A dimensão oculta”.2ª edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora S.A. 1981. Edição original em inglês The Hidden Dimension.. Anchor Books, 1966

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um conceito Antropológico. Rio de Janeiro: Zahar,2003.

“O Superorgânico” (in American Anthropologist, vol.XIX, n° 2, 1917

Senna, Sergio. “Como perceber o desconforto no abraço?”; IBRALC. Disponível em: http://ibralc.com.br/proxemica/desconforto-no-abraco/. Acessado em: 15/02/2012

Senna, Sergio. “Crenças e Valores. Como isso funciona?”; IBRALC. Disponível em: http://ibralc.com.br/sf/valores/crencas-e-valores-como-isso-funciona/. Acessado em: 15/02/2012

Silva, Elsa Peralta da. “Patrimônio e identidade. O desafio do turismo cultural”. 2005. Disponível em: CEAA.UFP.PT/turismo3.htm. Acessado em: 24/02/2012

 

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Edinaldo Oliveira

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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

JUNIOR, Edinaldo Oliveira. TRON, extensões e o legado.. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/tron-extensoes-e-o-legado-2/> . Acesso em 3 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Junior, Edinaldo Oliveira. (2012). TRON, extensões e o legado.. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/tron-extensoes-e-o-legado-2/.

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Edinaldo Oliveira

Graduado em ADMINISTRAÇÃO - GESTÃO DE NEGÓCIOS pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caruaru/PE (2005) e Pós-Graduado em Engenharia de Software pela mesma faculdade, em 2010, além de graduado em Gestão da Tecnologia da Informação, pela ESTÁCIO, em 2014. Diletante do campo da psicologia, com foco no estudo da comunicação não verbal, especialmente no que se refere as expressões faciais, e como esta ferramenta pode ser aplicada em diversas áreas, a saber: segurança, defesa, educação, vendas, nas organizações e na saúde. Além disto, é amante da astronomia, astrofotografia e fotografia.
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3 Comments

  1. Talvez seja uma forma de ampliar seu espaço pessoal? Isso significa que essas pessoas trendem a serem mais egocentricas do que as outras? rs

    • Felipe,

      Vou esperar mais manifestações para o debate…vamos dar mais um tempinho.

      Abraço,

      Edinaldo

  2. Pessoal,

    Aproveitando o tema, só uma curiosidade: já repararam que algumas pessoas fazem questão de utilizar veículos de maior porte? Qual seria a relação disto com o conteúdo do artigo?

    Abraço,

    Edinaldo Oliveira

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