As expressões faciais de um psicopata

Há expressões faciais de psicopatia?

A psicopatia é um transtorno de personalidade com abrangência de sintomas bem amplas. Também é especialmente interessante de se analisar sob o ponto de vista da linguagem corporal e processamento de emoções. Esses dois elementos estão conectados, de forma que quando um demonstra déficits, certamente o outro também demonstrará.

Numerosos estudos vem observando curiosos problemas em pessoas com traços de personalidade antissocial (psicopata), relacionados à interpretação e expressão da linguagem não-verbal, em especial, expressões faciais.

Um dos principais pesquisadores dessa condição, Robert Hare, observou nos anos 90 que psicopatas processam emoções de forma diferente da de pessoas sem o transtorno (Hare, 1993 e 1998). Outros estudos mostram, ainda, que até mesmo em termos de processamento de linguagem relacionada a temas emocionais, há uma diferença nesses sujeitos (Gillstrom & Hare, 1988).

Esses elementos deficitários podem ser observados também através da análise da fisiologia, que mostra um significativo entorpecimento emocional frente a estímulos que despertariam respostas empáticas e emotivas, em qualquer um (Hare, 1978).

As expressões faciais e os traços de personalidade antissocial

Em relação às expressões faciais, recentemente muitos estudiosos vem se debruçando sobre o tópico. Em 2001, Stevens e seus colegas examinaram como crianças com traços indicativos de transtorno de conduta respondiam à expressões faciais e tons vocais emotivos. Eles concluíram que elas, como previsto, apresentavam problemas na atribuição correta das expressões e tons às emoções corretas. Porém, isso só acontecia com expressões de medo e tristeza.

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Robert Hare

Esses resultados se reproduzem em muitos experimentos, e teoriza-se que o prejuízo em relação a essas duas emoções em particular esteja relacionado ao comportamento característico de passar por cima do sofrimento alheio, causando maiores dores ainda. É como se o cérebro de um psicopata não fosse capaz de processar corretamente as pistas que as outras pessoas dão, de que estão com medo ou tristes; em outras palavras: sofrendo.

Alguns outros estudos obtém como resultado que a aversão é a emoção cuja expressão facial é menos reconhecida (Koosson et al, 2002), outros apontam que é somente o medo (Blair et al, 2001). Enfim, apesar de os estudos discordarem um pouco sobre qual emoção é a mais negligenciada, eles concordam no sentido de mostrarem que sempre uma ou mais emoções negativas estão envolvidas.

Os tipos de psicopata

Todavia, podemos usar esses achados para refletir igualmente sobre outros aspectos do transtorno, como a obtenção de prazer ao infligir sofrimento à vítima. Como essa suposta neutralidade em relação à emoção está relacionada com essa outra conduta um tanto paradoxal?

Uma resposta para isso, talvez, possa ser obtida da análise dos vários tipos de psicopata. Karpman (1941), para se ter algum exemplo desses tipos,  argumenta que existem dois tipos básicos de psicopatia: primária e secundária. Os primeiros seriam caracterizados pelo anestesiamento emocional delineado ao longo deste artigo; o segundo, seria formado por indivíduos altamente instáveis emocionalmente, caracterizados por altos níveis de ansiedade.

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Patrick Bateman

Para exemplificar e deixar a exposição mais clara, podemos dizer que o personagem Hannibal Lecter, da trilogia cujo primeiro filme é O Silêncio dos Inocentes, se enquadraria na psicopatia primária. Sua frieza e racionalidade inabaláveis são uma constante óbvia. Já Patrick Bateman, em Psicopata Americano, faria mais o tipo secundário, mostrando sua ansiedade e labilidade emocional que é até um tanto incomum para um psicopata, segundo o tipo mais apregoado pela mídia. E, também, a impulsividade é uma característica comum tanto na primária quanto na secundária.

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Dr. Hannibal Lecter

Mas uma conclusão parece manter-se: apesar de variar de certa maneira, todos os psicopatas são capazes dos mesmos atos, só o que muda são os motivos e os meios.

Afinal, existem emoções específicas relacionadas com o déficit psicopático?

Um estudo recente e um tanto inovador sobre essas polêmicas foi feito por Hastings e sua equipe (2008). Um de seus pontos positivos em relação aos demais é o fato de ter contado com uma amostra bem grande de participantes analisados: 145. É um número considerável, já que estudos nessa área geralmente utilizam amostras de no máximo 50 pessoas.

Outra vantagem – e uma originalidade também – foi a análise de todas as expressões faciais de emoções básicas catalogadas por Ekman, e a expressão de constrangimento, cuja qual não há consenso sobre se seria ou não básica. Juntamente com a culpa, o constrangimento é considerado uma “emoção moral”. Todavia, Hastings (2008) não utilizou a culpa devido a ausência de uma expressão facial única que identifique-a. Essa classificação moral torna pertinente a análise do constrangimento na psicopatia.

Os experimentos mostram, no final, que os psicopatas analisados possuíam uma dificuldade particular em identificar expressões de felicidade e tristeza. Mas também foi identificada uma tendência de erro para as expressões de emoções em geral, principalmente quando eram sutis.

Hastings e sua equipe esperavam que seus resultados se encaixassem em duas teorias sobre a psicopatia. A low-fear theory entende que esses sujeitos são menos sensíveis a pistas de ameaça e punição sinalizadas pelas outras pessoas, consequentemente, possuíndo um especial déficit na identificação de emoções como raiva e medo.

A outra teoria, a Violence Inhibition Mechanism (VIM), sugere que esses indivíduos respondem menos – comparando com sujeitos sem traços de personalidade antissocial – a indícios de submissão, sendo menos propensos à correta identificação de medo, tristeza e constrangimento. Essa é a base para  a introdução da análise dessa última emoção, no estudo.

Contudo, os resultados não pareceram corroborar nem uma nem outra. Esses achados aparentam ir na direção de Blair e seus colegas (2001; 2004), cujos resultados sugeriram que a psicopatia não é caracterizada necessariamente pelo déficit específico na identificação de determinada emoção, mas pela particular dificuldade em identificar pistas sutis de qualquer emoção.

Uma das limitações desse estudo – apontada até mesmo pelos autores do artigo – é que durante as tarefas de identificação das expressões faciais, grande parte dos participantes ficou confusa na hora de classificar o medo e a surpresa. Isso é interessante pois em seus primeiros estudos, Paul Ekman relatou que essa era uma dificuldade recorrente, de fato. Essa tendência foi observada também nos nativos de Papua-Nova Guiné.

Considerações finais

A psicopatia é um transtorno interessantíssimo e complexo – apesar de ser devastador para quem está próximo a essas pessoas. Uma estratégia rápida e eficiente para diagnosticar esses indivíduos seria muito bem-vinda. Nesse sentido, os trabalhos que vêm mostrando as peculiaridades nas dificuldades em identificação de expressões faciais, são muito importantes.

Imagine, ao invés de utilizar longos questionários de perguntas e respostas para avaliar um psicopata, utilizarmos folhas com fotos de expressões faciais para identificação. Seria algo realmente promissor. Mas, até chegarmos nesse estágio em relação à psicopatia e outros transtornos, temos uma longa estrada para percorrer.

Por enquanto, essas pesquisas servem para revelar – assim como já mostrei em outros textos – que a identificação de expressões faciais e a própria manifestação delas é algo mais complexo do que costumamos pensar.

Referências

  • Blair RJR, Colledge E, Murray LK, Mitchell DGV. A selective impairment in the processing of sad and fearful expressions in children with psychopathic tendencies. Journal of Abnormal Child Psychology. 2001; 29(6):491–498. [PubMed: 11761283]
  • Blair RJR, Mitchell DGV, Peschardt KS, Colledge E, Leonard RA, Shine JH, Murray LK, Perrett DI. Reduced sensitivity to others’ fearful expressions in psychopathic individuals. Personality and Individual Differences. 2004; 37:1111–1122.
  • Gillstrom BJ, Hare RD. Language-related hand gestures in psychopaths. Journal of Personality Disorders. 1988; 2(1):21–27.
  • Hare, RD. Electrodermal and cardiovascular correlates of psychopathy. In: Hare, RD.; Schalling, D., editors. Psychopathic behavior: Approaches to research. Chichester, England: Wiley; 1978. p. 107-144.
  • Hare, RD. Psychopaths and their nature: Implications for the mental health and criminal justice systems. In: Millon, T.; Simonsen, E.; Birket-Smith, M.; Davis, R., editors. Psychopathy: antisocial, criminal, and violent behavior. New York: Guilford Press; 1998. p. 188-212.
  • Hare, RD. Without conscience: The disturbing world of the psychopaths among us. New York: Pocket Books; 1993.
  • Hastings, M., Tangley, J. & Stuewig, J. (2008). Psychopathy and Identification of Facial Expressions of Emotion, Pers Individ Dif. 2008 May ; 44(7): 1474–1483. doi:10.1016/j.paid.2008.01.004
  • Karpman, B. (1941) On the need for separating psychopathy in to two distinct clinical subtypes: symptomatic and idiopathic. J. Criminol. Psychopathol. 3, 112–137
  • Kosson D, Suchy Y, Mayer A, Libby J. Facial affect recognition in criminal psychopaths. Emotion. 2002; 2:398–411. [PubMed: 12899372]
  • Stevens D, Charman T, Blair RJR. Recognition of emotion in facial expressions and vocal tones in children with psychopathic tendencies. Journal of Genetic Psychology. 2001; 162(2):201–211. [PubMed: 11432605]

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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

NOVAES, Felipe. As expressões faciais de um psicopata. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/as-expressoes-faciais-de-um-psicopata/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Novaes, Felipe. (2012). As expressões faciais de um psicopata. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/as-expressoes-faciais-de-um-psicopata/.

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Estudante de psicologia, com interesse em psicologia cognitiva, psicologia evolucionista, neuropsicologia e neurociência. Atualmente estudo as expressões faciais das emoções básicas sob a perspectiva evolucionista e neurocientífica. Editor do blog de variedades www.nerdworkingbr.blogspot.com
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7 Comments

  1. Belo artigo, um dos mais completos que achei sobre este assunto, estou começando psicologia agora e pretendo me voltar a esta area, e este artigo acrescentou conhecimentos, parabéns.

    • Que bom que gostou, Matheus!
      Em caso de dúvidas e informações adicionais é só falar.

      Abraço!

  2. Prezado Felipe, parabéns por mais esse curioso e informativo trabalho.

    Existe um interesse geral das pessoas por informações sobre a psicopatia, pois a suposta indetectável presença de psicopatas entre nós é sempre um incômodo que nos ronda.

    Lendo seu artigo, lembrei de trabalhos de Robert Hare onde ele descreve os “psicopatas funcionais” (termo cunhado por mim, a partir da descrição de Hare) e que conseguem manipular as pessoas para conseguirem perceber as emoções das quais se “alimentam”.

    É bem possível que os psicopatas tenham alterações generalizadas em todo o sistema límbico, por esse motivo não conseguem perceber determinadas emoções ou ainda, precisam que as pessoas experimentem extremos para que possam percebê-las.

    Se considerarmos casos mais extremos, como o de Dennis Rader ou de Ted Bundy, um estado de excitação do sistema límbico somente era experimentado diante do terror de suas vítimas. Ted Band chegou a depositar uma quantidade de cadáveres para revisitá-los, trocando suas roupas e passando maquiagem para melhorar a sua aparência.

    Dennis Rader guardava souvenirs de suas vítimas, com os quais “revivia” as emoções experimentadas, o que lhe proporcionava oportunidade de fazer longos intervalos entre os crimes (que ele chamava de projects – projetos).

    Creio que a chave para entendermos esses comportamentos e também identificarmos esses predadores (principalmente os “funcionais”, pois não saem por aí matando pessoas, mas infernizam a nossa vida de outras formas), é prestarmos atenção à forma como nos manipulam para conseguirem um nível emocional de elevada ativação a partir do qual podem experimentar sua própria ativação.

    Quem sabe você possa tratar desse tema no futuro?

    Um abraço
    Sergio Senna

    • Obrigado, Dr. Sergio!

      É verdade, e esses problemas generalizados implicariam em graus de psicopatia, provavelmente. Eu lembro que li um estudo uma vez – posso até depois tentar achá-lo novamente – dizendo que os psicopatas, ou ao menos alguns deles, na verdade não é nem que tivessem problemas em detectar emoções corretamente ou sentir empatia, mas sim que seriam capazes de modular a empatia sentida.

      Um indivíduo normal é empático automaticamente numa série de situações, nós não temos muito controle sobre com relação a quem empatizaremos ou não – exceto, claro, em situações de conflito e raiva, a empatia de fato é um tanto suprimida. ENtão, de acordo com o que compreendi de tal estudo, os psicopatas de alguma forma teriam um poder de modulação sobre esses sistemas de empatia que sujeitos normais não possuem.

      Citei somente à título de curiosidade, para complementar seu comentário, mostrando a variabilidade de explicações que se dão para o comportamento desses indivíduos com o transtorno.

      E sim, analisar os indícios que mostram a manipulação de um psicopata seria um conhecimento preciosíssimo de se obter. Além de curioso, é funcional porque prevenirá muitas ações desses predadores.

      Grande abraço!

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