As raízes evolutivas do constrangimento

A maior parte do embasamento da leitura de expressões faciais – e da linguagem não-verbal como um todo – vem das listas de emoções básicas. A maioria dos pesquisadores aceita as 6 descritas por Paul Ekman: alegria, tristeza, medo, raiva, surpresa e aversão.

O que as distingue como básicas, segundo pesquisadores como Ekman e Izard, é o fato de possuírem expressões faciais e reações fisiológicas próprias, ter sua origem remontada aos nossos ancestrais, poder ser encontrada – pelo menos em seus rudimentos – em outros animais e, claro, serem os blocos formadores de emoções mais complexas.

Analisando o constrangimento, uma emoção aparentemente não-básica, vemos que talvez existam motivos para repensarmos tal lista.

Definindo o constrangimento

Segundo o psicólogo Rowland S. Miller, sua raiz está na antecipação do juízo negativo do outro, isto é, sempre que achamos que seremos julgados de forma negativa por algum ato. Porém, essa definição não explica o constrangimento que surge de uma festa surpresa de aniversário, de uma premiação ou de elogios explícitos.

 A hipótese da interação difícil (awkward-interaction), criada pelo psicólogo John Sabini, parece complementar essas falhas. Segundo ela, essa emoção surge do que é popularmente chamado de “ficar sem jeito”, isto é, não saber como reagir em determinada situação. O que fazer quando entramos na casa da nossa namorada e tem uma festa surpresa nos esperando? O que responder ao receber um elogio inesperado?

A raiz evolutiva

O homo sapiens é uma espécie social, logo, diversos mecanismos foram selecionados ao longo da evolução, para propiciar a comunicação.

 As expressões faciais são um desses mecanismos. Elas permitem que uma gama ampla de informações básicas, importantes no ambiente de adaptação evolutiva (AAE), sejam passadas e compreendidas entre os que compõem o grupo e até entre inimigos.

 Imaginemos que um indivíduo enxerga uma serpente próxima. Uma das reações características do medo, é a paralização, assim, mesmo sem agir, outro integrante do grupo pode observar a expressão facial de medo – e a própria paralização – e mobilizar outros para dar conta da ameaça.

 O constrangimento também pode ser entendido originalmente sob essa lógica. Seria uma estratégia da evolução em resposta a situações de violação da norma social, de forma que a exibição das características associadas à essa emoção deixariam claro que a violação foi involuntária, evitando retaliações.

 Em adição, a sensação desagradável dessa experiência ainda faria o indivíduo tentar não repetir tal ato. Funcionaria de forma análoga ao sistema da dor física: tendemos a não querer repetir o ato que a originou para não termos de sentí-la novamente.

 Há constrangimento em animais não-humanos?

grooming – típico gesto de reconciliação primata

Muitos animais possuem repertórios comportamentais que refletem a lógica anterior, da evitação da retaliação. É comum o gesto de apaziguamento entre os primatas não-humanos, em que catam  piolhos uns nos outros como forma de “se desculparem” por algum ato impróprio.

 Atitudes mais próximas às humanas também são tomadas, como desviar o olhar, reclinar a cabeça sobre o peito, encolher-se – parecendo fisicamente menor. Todos são gestos que parecem mostrar submissão ou uma forma de desculpas, que surgem também em situações em que são observados, o que pode provocar desconforto até em seres humanos.

 Alguns primatas, curiosamente, chegam até a ficar com a pele da face avermelhada e exibir uma careta que muito se assemelha ao nosso sorriso, segundo o cientista cognitivo Mark A. Changizi.

 Expressão e fisiologia peculiares

Nesse contexto, falamos de alguém que expressa os sinais e alguém que os recebe e interpreta, o que ocorre na expressão de qualquer emoção. O que há de mais básico nesses sinais, para que possam ser interpretados como constrangimento? Sinais comuns são o enrubescimento do rosto e o olhar vontando-se para baixo. Além disso, a mão pode servir de auxiliar para tapar a face ao menos parcialmente.

 Um típico sorriso também parece servir de indicador nesse casoapresentando características bem distintas do de alegria. Esse último ocorre através da contração do músculo zigomático maior e do orbicular ocular, que promove ruguinhas ao redor dos olhos, enquanto que no constrangimento, somente há ação do zigmático maior, o que se soma ao desvio “do olhar por aproximadamente um segundo e meio antes de parar de sorrir, enquanto no sorriso ‘de bom humor’ isso ocorre cerca de meio segundo depois”, diz Christine R. Harris, psicóloga da Universidade da Califórnia, em artigo para a Revista Mente & Cérebro.

 Do rubor facial, inclusive, podemos tirar interessantes análises. Em seu laboratório, Harris reuniu um grupo de voluntários que foram colocados para assistir um vídeo, perto de um observador, em que um grupo de pessoas cantava o hino nacional. No primeiro minuto, houve aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial comparáveis ao aumento observado em atletas em meio à atividade física. A partir do segundo minuto, todavia, os batimentos voltavam aos níveis iniciais, enquanto que a pressão continuou a subir.

expressão de constrangimento

Esses resultados intrigaram a pesquisadora porque o que é observado em emoções como medo, raiva e alegria, é que tanto a frequência cardíaca quanto a pressão arterial tendem a subir ou descer juntas. Essa interação atípica dos dois marcadores parece ser uma característica fisiológica própria do constrangimento. Estaria essa característica fisiológica ligada ao direcionamento do fluxo de sangue para o rosto?

Na maior parte das listas de emoções básicas – ou na de Paul Ekman, a mais famosa – o contrangimento não está presente. No entanto, ele parece ter a maior parte das características dinstintivas dessas emoções: possui uma expressão facial própria, pode ser remontada ao ambiente ancestral, são encontrados vestígios seus em outros animais e, ao que algumas pesquisas indicam, possui seu próprio conjunto de reações fisiológicas. Seria uma questão de tempo até o constrangimento aparecer em cursos sobre linguagem não-verbal? Sua classificação como básica aumentaria o nosso poder de análise das expressões faciais?

Referências:

Harris, C. R. (2012). Pequenas Vergonhas, Revista Mente & Cérebro, nº 231


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

. As raízes evolutivas do constrangimento. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/as-raizes-evolutivas-do-constrangimento/> . Acesso em 3 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

. (). As raízes evolutivas do constrangimento. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/as-raizes-evolutivas-do-constrangimento/.

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Estudante de psicologia, com interesse em psicologia cognitiva, psicologia evolucionista, neuropsicologia e neurociência. Atualmente estudo as expressões faciais das emoções básicas sob a perspectiva evolucionista e neurocientífica. Editor do blog de variedades www.nerdworkingbr.blogspot.com
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8 Comments

  1. Felipe!

    Excelente artigo, concordo com a tua posição. Porem acredito apenas que o constrangimento, diferentemente das outras emoções básicas descritas por Ekman, não gera uma grande quantidade de outras emoções mais complexas ou sofisticadas. Nossa capacidade de julgamento constante gera inumeros destes fenômenos, e o constragimento realmente é um dos mais explicitos. Achei muito interessante a questão desta atividades em animais.
    Parabens!

    • Olá, David!

      Obrigado pelos elogios!

      Então, a posição proposta no texto, de que talvez o constrangimento seja uma emoção básica, não é defendida pela maioria dos autores. Então, ainda existem muitas controvérsias teóricas a serem resolvidas.

      Sim, nossa capacidade de julgamento gera inúmeros destes fenômenos emocionais, mas vc acha que o julgamento é NECESSÁRIO? Pergunto isso pois isso é sempre objeto de minhas reflexões, afinal, animais não-humanos não possuem o mesmo poder de julgamento que nós mas parecem apresentar emoções básicas parecidas tambem. O que vc acha?

      Eu diria que o julgamento é sim um suscitador de emoções, mas esse julgamento pode ocorrer em níveis implícitos e explícitos…isso acrescenta muito às nossas reflexões sobre o tema. Implica até em dilemas filosóficos. rs

      Abração!

    • Verdade, darai pra se chegar a inumeros debates filósoficos a respeito. Não sei te dizer ao certo se acho necessario o julgamento, do ponto de vista dele estar associado a uma concepção de razão cartesiana, como uma função superior e desligada do instinto, na verdade sempre entendi a razão apenas como um produto evolutivo do instinto, ou seja, seguindo os mesmo mecanismos só que com um elevado grau de sofisticação (não sei se algum autor já abrodou essa problemática, se vc conhecer algum, ficaria feliz se me indicasse). Processos como os de discriminação e generalização são, como vc falou, parte da base do julgamento de animais não humanos tambem, mas a emoção, entendida como um fenômeno passivo de apenas re-ação, teria de estar intrinsecamente ligada ao julgamento… não sei se concorda comigo, mas este julgamento, no caso do constrangimento, deveria estar ligado a normas sociais…diferente do medo de um predador ancestral (que pode estar mais ligado ao instindo de sobrevivencia).

      Abraçusss

    • Acho que categoricamente, ninguém ainda hoje pode dizer se a razão está totalmente dissociada ou não do “instinto”. O fato é que algumas vezes parece sim, que nossa razão tem um poder autônomo, mas outras vezes, ela explicitamente funciona graças a outros processos implícitos que em si mesmos nada tem a ver com a razão. Sucintamente, a verdade é que não somos tão racionais quanto gostamos de pensar que somos. Por exemplo, vc já ouviu falar em linhas de pesquisa em comportamento e pensamento irracionais? A psicologia e economia estudam muito isso. Se quiser saber mais, leia Daniel Kanehman e Dan Ariely (inclusive, estou fazendo um curso com esse professor…é excelente!). Eles mostram que várias vezes agimos supostamente sob o julgo da razão, mas na verdade, estamos sendo bem irracionais.

      Por exemplo, há um tempo uma pesquisa mostrou que alguns países da Europa tinham muito mais doadores de órgãos do que outros, mas a diferença entre eles era absurda (enquanto uns doavam quase 100%, outros não chegavam aos 30%). Daí, depois de muitas pesquisas sobre os motivos, mostraram que os países que quase não doavam, apresentavam a opção para ser ou não doador num questionário apresentado pelas auto-escolas. Aí, se vc quisesse ser doador, era só marcar um “x” num dos quadrinhos. Nos países com doadores em massa, o mesmo era feito, mas a pergunta era apresentada de modo ligeiramente diferente: para ser doador, era só não marcar o quadrinho. Ou seja, o que mostrou-se decisivo aí não foi o pensamento racional sobre os prejuízos e benefícios de ser doador, mas uma simples questão burocrática de marcar ou não com um “x” para ser doador. Isso não tem nada de racional, pelo contrário, são processos que ocorrem muito abaixo do nível consciente e racional em nosso cérebro. E o mais importante: os países com poucos doadores elevou seu número depois de adotar o sistema de deixar o quadrinho em branco para ser doador 🙂

      “mas a emoção, entendida como um fenômeno passivo de apenas re-ação, teria de estar intrinsecamente ligada ao julgamento… não sei se concorda comigo, mas este julgamento, no caso do constrangimento, deveria estar ligado a normas sociais…”

      Bom, não li tão profundamente sobre o constrangimento pra te responder direitinho, mas de acordo com outras coisas que já li, posso te dizer minha opinião: acho que o julgamento nesse caso não trata-se somente de um julgamento consciente, em questão de pesar prós e contras. É uma questão de julgamento inconsciente também. isso de fato existe, então acho possível que o constrangimento exista de alguma forma, podendo estar desvinculado de normas sociais e etc.

      Grande abraço!

    • boa tarde, Felipe!

      Te agradeço a atenção e disposição que dedica as respostas!

      Não conhecia estes autores, começarei a ler a respeito.
      Fiquei surpreso com essa pesquisa, isso é realmente uma amostra de como a boa manutenção dos processos de julgamento implícito pode ter consequências macrocósmicas!

      Quanto ao instinto, foi exatamente isso que eu quis dizer, esses processos de decisão que aparentemente estão num nível de consciência elevado, na verdade seguem a padrões automáticos de respostas, ou seja, quando os formulários eram apresentados com as opções de “doador” e “não doador” requeriam um julgamento em num nível de consciência mais elevado que no caso de disponibilizar apenas a opção “doador”, e caso negativo, deixar em branco.
      Acredito que estas funções elevadas sejam, um resultado da evolução indissociável dos processos inferiores, até em seus mais sofisticados níveis de filosofia hegeliana.

      Abraçoooos!!!

    • É exatamente isso que eu penso, David!
      Isso fica bem claro até no livro do Antonio Damásio, onde ele disserta longamente sobre toda uma série de lesões cerebrais em áreas límbicas que causam problemas nos processos racionais e lesões em áreas ligadas ao pensamento racional e tomada de decisões (pré-frontal, principalmente) em que as emoções ficam prejudicadas. Ou seja, é como se a evolução não agisse criando partes e habilidades novas do nada. Não, é como se fosse uma colcha de retalhos em que as peças mais novas ficam costuradas às mais antigas. Uma depende da outra para existir de forma funcional. O caso do Phineas Gage é um caso excelente disso. O cara sofreu uma lesão frontal mas as mudanças foram devastadoras para a personalidade dele, no sentido moral, emocional…tudo!

      Que nada, cara! Qualquer dúvida, sugestão ou opinião, estamos aí!
      Abraço!

  2. Olá Felipe,

    Gostei bastante deste artigo, aborda uma emoção bem curiosa.

    Interessante que já percebi essa reação, em uma festa, quando começaram a falar bem de uma pessoa, a mesma sorriu, e ainda sorrindo, inclinou a cabeça na diagonal inferior, mas foi muito rápido, coisa de menos de meio de segundo…essas reações as vezes são bem rápidas.

    Abraço,

    Edinaldo

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