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O cérebro é a mais complexa “máquina” existente no universo, pelo que conhecemos atualmente a respeito do cosmos. Provavelmente, por esse motivo é que a época de ouro no seu entendimento deu-se há algumas décadas atrás somente. Hoje não podemos mais ignorar seu papel vital em nossas capacidades, das mais complexas às mais simples, desde a atividade interna (emoção e cognição)* até a externa (comportamento).

A resolução desse enigma, no entanto, depende fundamentalmente desses casos de desvio da normalidade produzidos por lesões ou por má formações. Veja agora como se desenrolam as pesquisas na neurociência e como esses casos bizarros representam uma fonte de conhecimento sobre o cérebro.

 

Cisões Cerebrais e Processamento Emocional

Qual o melhor modo que temos para entender o funcionamento de determinado mecanismo? Pensemos em uma lâmpada. Se quiséssemos compreender o caminho da corrente elétrica, como e quais circuitos e estruturas são ativados para produzir o produto final, a luz, todos os métodos disponíveis para se obter esse conhecimento se resumiriam a desmontar tudo e ir fazendo testes.

Esses testes incluiriam várias tentativas e erros, em que todo o sistema seria posto para funcionar sem determinadas peças, pulando determinadas etapas e por aí vai, até que a participação de cada estrutura fosse decifrada. Resumidamente, uma das maneiras de se entender determinada coisa é vendo o aparelho funcionar na ausência dessa coisa.

Esse tipo de raciocínio permeia toda a história da investigação científica sobre o corpo humano. Um dos expoentes mundiais na pesquisa sobre a neurociência da emoção – Joseph LeDoux – parece ter seguido esses passos. Seu orientador no doutorado foi Mike Gazzaniga (que, por sua vez, foi auxiliado pelo Dr. Roger Sperry), um famoso neurocientista que estuda, dentre outros temas, a relação entre a consciência e hemisférios cerebrais.

Robert SperryMichael GazzanigaJoseph LeDoux

 

A pesquisa dos dois, na época do doutorado de LeDoux, consistia em examinar as habilidades de pacientes cuja conexão entre os dois hemisférios tinha sido interrompida devido a uma cirurgia para controlar os graves sintomas da epilepsia. Feita a cirurgia, os dois lados do cérebro não mais podem se comunicar, e como existem funções que são especialidade de um ou outro hemisfério, as consequências disso para o desempenho normal desses pacientes em diversas tarefas eram curiosas.

 

Efeitos Intrigantes

Tome como exemplo a linguagem. A maioria das áreas relacionadas encontram-se no hemisfério esquerdo. Dessa forma, quando um estímulo era apresentado ao hemisfério direito do paciente, ele não conseguia nomear o estímulo, pois a informação não passava para o esquerdo para ser processada verbalmente. Contudo, o hemisfério direito era capaz de responder normalmente caso fosse mostrada uma foto de um objeto ao paciente e fosse pedido para que procurasse o objeto da foto numa cesta. Mas, curiosamente, não conseguia dizer seu nome.

O que fez LeDoux (1996) se interessar pelas emoções foi uma segunda fase de experimentos. O pesquisador apresentava um estímulo e o paciente tinha que dizer qual era o estímulo e se a emoção relacionada a ele era negativa ou positiva. Por exemplo, se o estímulo mãe fosse apresentado, a emoção relacionada provavelmente seria positiva. Com esse paciente, quando o estímulo era mostrado para o hemisfério esquerdo, ele podia nomeá-lo e falar da emoção normalmente. Todavia, se apresentasse ao direito, era capaz de falar da emoção somente. Isto é, curiosamente, a pessoa era capaz de sentir uma emoção mas não era capaz de formular verbalmente o que tinha despertado a emoção, o hemisfério esquerdo não tinha a menor idéia do estímulo em jogo.

Tome como exemplo também uma síndrome muito rara, porém, intrigante: o savantismo. O termo vem do francês savant (sábio) e às vezes vem acompanhado da palavra idiot (idiota). Os “idiot savants” possuem QI altíssimo, capazes de fazer cálculos complicadíssimos de cabeça e dotados de uma prodigiosa memória, podendo decorar livros inteiros e ainda citar qualquer página palavra por palavra. Paradoxalmente, esses indivíduos muitas vezes possuem a forma mais debilitante do autismo, o que os torna, em muitos casos, incapazes de falar e de desempenhar simples tarefas como escovar os dentes e amarrar os sapatos. Um caso mundialmente conhecido é o de Kim Peek. Já um homem de cinquenta e poucos anos, era uma enciclopédia ambulante mas tinha dificuldades básicas em atividades cotidianas como as citadas. Seu caso inspirou o filme ganhador do Oscar Rain Man, estrelado por Tom Cruise e Dustin Hoffman. O savantismo é caracterizado também por uma peculiaridade no corpo caloso (pelo menos no caso de Peek), que inexiste no cérebro dos savants. Os cientistas supõem que a ausência do corpo caloso fez os dois hemisférios cerebrais se conectarem de maneira mais eficiente, originando as super habilidades. Já as deficiências concomitantes provavelmente são o resultado de outros danos ainda não identificados com precisão (Treffert & Christensen, 2009). Veja abaixo o video com algumas cenas do filme e outro de um documentário sobre Kim Peek.

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=RN0DczbPznY[/youtube]

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=k2T45r5G3kA[/youtube]

Esses casos bizarros nos levam à conclusão de que quanto mais complexidade, mais chances existem de algo dar errado. Qualquer tipo de lesão ou má formação cerebral (por motivos genéticos), por menor que seja, é capaz de produzir os resultados mais aberrantes. No entanto, apesar de esses quadros constituirem enorme sofrimento para o indivíduo e familiares, a análise científica desses casos oferece oportunidade sem igual de observar a influência dessas diferenças no comportamento, cognição e emoção, e perscrutar as funções de cada região cerebral. E isso, por sua vez, beneficia os pacientes na criação de tratamentos eficazes.

* Nem todo pesquisador está de acordo com a separação entre emoção e cognição. Parte deles os vê como como partes diferentes de uma mesma moeda, não como moedas diferentes.

Video sobre a síndrome da mão alheia, outra condição causada pela interrupção da comunicação entre os hemisférios:

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=p9Glq9SVSxQ[/youtube]

Referências

LeDoux, J. (1996). O que o amor tem a ver com isso?, O Cérebro Emocional, Editora Objetiva.

Treffert, D. & Christensen, D. D. (2009). O homem que não esquece, Mentes em Desordem, Edição Especial Mente & Cérebro, Duetto.

 

 

Ficamos por aqui.

Saudações

Felipe Novaes

 

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