Drogas e o teatro da mentira.

Drogas e o teatro da mentira.

Estamos no ano de 2054, foi criada uma divisão” pré-crime”, a qual conseguiu acabar com os assassinatos, nesse setor da polícia o futuro não é um mistério, pois é visualizado antecipadamente por paranormais, os intitulados “precogs”, e o culpado é punido antes que o crime seja cometido Três precogs trabalham juntos e flutuam conectados em um tanque de fluido nutriente.mr

Quando eles têm uma visão, o nome da vítima aparece escrito em uma pequena esfera e em outra esfera está o nome do culpado. Também surgem imagens do crime e a hora exata em que acontecerá. Estas informações são fornecidas para uma elite de policiais, que tentam descobrir onde será o assassinato, ou seja, temos um sistema perfeito e sem falhas, assim é a proposta do filme Minority Report.

Mas, além do dilema de efetuar a prisão de alguém antes da ocorrência do crime, temos outra falha grave: A confiança cega em um sistema que possui “100% de eficácia” em suas acusações, até o momento que John Anderton (Tom Cruise) percebe que o sistema não é tão confiável como aparenta. Conforme divulgado em diversos outros artigos aqui do portal, nenhum sistema é 100% eficaz (nem o tão falado polígrafo).

 

Indo além da obviedade.

Em alguns episódios da série Lie to Me, quando Locker deseja mentir e não quer demonstrar tensão muscular, então ele toma, deliberadamente, um relaxante muscular. Nesse contexto, é possível que um observador de indicadores não verbais não perceba tensão muscular (dependendo da medicação tomada).

O segundo episódio, ainda da primeira temporada – Renúncia Moral (Moral Waiver) – foca justamente o embate contínuo entre a verdade/mentira e a eficiência do polígrafo em detectá-la, e em uma destas análises durante a trama, uma das personagens se utiliza de uma substância para diminuir a ansiedade – que nas palavras de Lightman “suaviza a pessoa” – o que faz com que a mesma minta, mas o polígrafo não detecte tal mentira (no episódio foi citado o Valium, cujo princípio ativo é o diazepam, um tranquilizante do grupo dos benzodiazepínicos, que dá um estado de relaxamento geral no paciente).Drogas e Linguagem Corporal

Existe, ainda, a possibilidade (não tão rara) de uma pessoa utilizar substância psicotrópica ilegal, o que também pode dilatar pupilas, dependendo da droga, da sua composição, das misturas que foram feitas etc. Ou ainda, substâncias mais simples que utilizamos algumas vezes, como a dimeticona – que é utilizada como antiespasmódico, para aliviar cólicas intestinais (Luftal, Flatex, etc) – possui como um dos efeitos adversos a dilatação da pupila (vide Manifestações neurológicas na intoxicação de lactentes pela associação dimeticona e homatropina.)

Interessante notar a relação entre a substância Beladona, o olhar e a atração. Linnaeus, em 1700, denominou esta planta de Atropa belladonna, pois sabia que as mulheres utilizavam extractos de Atropa nos olhos para dilatar as pupilas de modo a ficarem mais belas, denominou-a então de belladonna (mulher bela). Mesmo de forma empírica, as mulheres utilizavam-se desta substância com a finalidade de se tornarem mais atraentes. (vide Alucinógenos naturais: um voo da Europa Medieval ao Brasil

Por isso é tão importante saber o que observar, como observar e o que esperar dessas observações na situação específica onde tudo ocorreu.

Imagine agora, uma situação em que alguém esteja fazendo um tratamento de longo prazo com algum tipo de medicação, e que a mesma dilatasse a pupila, o que pensaríamos se fosse analisar sua postura verbal versus não verbal apenas pela dilatação da pupila? Não nos arriscaríamos demais em incorrer em falhas nas nossas conclusões?

Ponderando as variáveis

Não é tão simples “pegar” um mentiroso, ainda mais por um indicador tão controverso, que é a pupila. Afirmar que alguém mente, balizando-se em análises que observam que o interlocutor coçou o nariz, coçou o olho, entre outros, é o caminho mais rápido para incorrer no erro: imagine o estrago que análises precipitadas podem causar!

Assim, antes de iniciar qualquer tipo de análise informal (uma conversa no trabalho, por exemplo) ou formal (como um interrogatório na polícia), seria interessante observar se existe uso visível de medicação por parte do interlocutor, caso não seja possível, devemos levar em conta esta possibilidade, afim de evitar erros na análise (achar que o interlocutor não diz a verdade pelo simples fato de observar sua pupila dilatada).

Segue uma lista de artigos relacionados ao assunto, que vão complementar a leitura do presente artigo:

Cartilhas prontas não são uma boa opção, use de bom senso em suas análises, utilize o máximo de indicadores possíveis, e o mais importante: busque analisar paralelamente o que é dito na linguagem não verbal com o que é afirmado no discurso verbal, assim você terá mais chances de sucesso, pois por sermos seres complexos, nossas atitudes não caberíam em uma simples “lista da verdade e mentira”, pense nisso!

 

O que pensa sobre isso? Deixe-nos o seu comentário!

Saudações e prossiga acompanhando os nossos artigos.

Edinaldo Oliveira


Artigo Original: 23 de maio de 2012

Atualização: 1 de julho de 2016


Referências:

A.J. Jacobs. “I Think You’re Fat”; Esquire. Disponível em: http://www.esquire.com/features/honesty0707. Acessado em 12/02/2012.

CARVALHO, Silvana. “Atratividade facial e expressões emocionais: existe relação com o diâmetro da pupila?”. Disponível em: http://bdtd.biblioteca.ufpb.br/tde_arquivos/19/TDE-2010-09-28T162940Z-667/Publico/arquivototal.pdf. Acessado em: 14/02/2012

Darwin, Charles, A expressão das emoções no homem e nos animais, São Paulo:Companhia das Letras: 2009.

Editorial CPVI – Centro de Pesquisa da Visão Integrativa. “Sinais da pupila”. Disponível em: http://www.cpvi.com.br/materias/Sinais_das_Pupilas. Acessado em: 12/02/2012.

Freitas, Magalhães. (2011). O Código de Ekman: o cérebro, a face e a emoção. Portugal/Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa.

Levine, Timothy R. , Serota, Kim B. e Shulman, Hillary C. “The Impact of Lie to Me on Viewers’ Actual Ability to Detect Deception”. Disponível em: http://crx.sagepub.com/content/37/6/847.full.pdf. Acessado em 05/03/2012

Senna, Sérgio. “Não existe um único e definitivo sinal da mentira.”; ibralc.com – IBRALC. Disponível em: http://ibralc.com.br/a-mentira/nao-existe-um-unico-definitivo-sinal-da-mentira/. Acessado em 14/02/2012.

Silva, Maria Júlia Paes. “O papel da comunicação na humanização da atenção à saúde.”; Revista Bioética. Disponível em: http://seer.cfm.org.br/index.php/revista_bioetica/article/view/215/216. Acessada em: 06/03/2012

Paulo Schor, Ricardo uras e Silvia Veitzman. “Óptica, refração e Visão Subnormal” – Série Oftalmologia Brasileira;Rio de Janeiro, Ed Cultura Médica, e Guanabara Koogan, 2008


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

JUNIOR, Edinaldo Oliveira. Drogas e o teatro da mentira.. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/drogas-e-o-teatro-da-mentira/> . Acesso em 29 Aug 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Junior, Edinaldo Oliveira. (2016). Drogas e o teatro da mentira.. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 29 Aug 2016, de https://ibralc.com.br/drogas-e-o-teatro-da-mentira/.

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Edinaldo Oliveira

Graduado em ADMINISTRAÇÃO - GESTÃO DE NEGÓCIOS pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caruaru/PE (2005) e Pós-Graduado em Engenharia de Software pela mesma faculdade, em 2010, além de graduado em Gestão da Tecnologia da Informação, pela ESTÁCIO, em 2014. Diletante do campo da psicologia, com foco no estudo da comunicação não verbal, especialmente no que se refere as expressões faciais, e como esta ferramenta pode ser aplicada em diversas áreas, a saber: segurança, defesa, educação, vendas, nas organizações e na saúde. Além disto, é amante da astronomia, astrofotografia e fotografia.
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20 Comments

  1. Olá Verônica, não falou besteira não rsrsrs você frisou pontos importantes:

    – A frustração (anterior, quando ele largou o doutorado me parece);
    – A mudança de aparência (provavelmente para se parecer com o personagem coringa, dentro de sua fantasia isto devia ter algum significado);
    – O alerta do psiquiatra que não foi levado à sério.

    Muito provavelmente o estresse da faculdade o levou à piora.

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  2. Olá Marcos Roberto…você foi em cima..o medo e a tristeza eram constantes na face dele, interessante isto. Pois mesmo lutando para ficar atento, fora o que levou ele a fazer o que fez, o mesmo parecia estar entendendo a gravidade da situação.

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  3. Analise da foto :

    Parte superior, au1 – frontal parte interna (levanta a parte interna das sobrancelhas e produz rugas horizontais no centro da testa) , au2 – frontal parte externa (levanta a parte externa das sobrancelhas e pode produzir rugas horizontais na testa), au5- levantador da pálpebra superior (abre a pálpebra superior, dando a impressão de atenção, prontidão), au7 – orbicular do olho parte palpebral + retratores da pálpebra inferior (levanta a pálpebra inferior, tensionando essa região). Já na parte inferior, temos indicadores au16- depressor do lábio inferior (repuxa o lábio inferior diretamente para baixo e para frente. Sua contração produz rugas no queixo e a projeção do lábio inferior para frente), au17 mento (eleva e projeta para fora o lábio superior e enruga a pele do queixo), au20 – risório (estira as comissuras labiais no plano horizontal), au23 – orbicular da boca (leve pressão nos lábios).
    Indicadores de medo / tristeza !

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  4. Analise do vídeo do atirador do cine do colorado.
    Bom dia a todos! Mais uma vez quero agradecer ao ibralc e, ao edinaldo, ter postado um vídeo tão rico em informações . concordo com edinaldo, quando ao comentário que o “atirador’ está sob efeitos de medicamentos, pois não consegue ficar realmente atento.
    Temos grandes indicadores em sua face, reparem em sua “sobrancelhas” altas e alinhadas (indicador de medo), o modo que ele faz pressão nos “lábios”, seus “ombros” curvados para frente. Veremos o medo presente aparentando o encolhimento do corpo! Seu olhar baixo, (mas não podemos esquecer do uso de medicamentos), sua cabeça baixa, que tem grande indicador de culpa.
    “não esqueçam o corpo não mente”! abraços à todos e sucesso !

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  5. No julgamento estava sedado ou o mantiveram acordado por muito tempo. Entre a saída da faculdade e o crime, ele mudou radicalmente sua aparência, parece bizarra, para como ele era. Expressão facial de inocência, o que leva a pensar em transtorno de personalidade paranoide, esquizofrenia paranoide, ou como no caso do filme “um dia de Fúria”, reação a uma frustração não suportada , em alguém que de fato já era doente, se não, por que ele tinha um psiquiatra? Com esse cabelo, ele parece um dos personagens que sempre quiseram matar Batman e muitos outros…

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  6. Parece haver uma luta do réu para ficar atento (tentativas de levantar a cabeça). Talvez seu estado se deva ao uso de medicamentos (parece-me que ele estava agressivo na cela).

    Interessante que mesmo assim, percebemos o predomínio de duas expressões faciais. Quais?? O que conseguem perceber no vídeo? (recomendo assistir o anterior para perceber o comportamento do réu sem o uso de qualquer substância).

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  7. Observem esta primeira reportagem, onde ele aparece apresentando um trabalho na faculdade, aos 18 anos…

    httpv://www.youtube.com/watch?v=RKB0Oene5Ys

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  8. Eu penso que a mentira sempre deixa vestígios, mesmo que sejam ínfimos. Mas tb depende. de quem faz a leitura da postura do outro. Algimas pessoas não conseguem pereber nem as mentiras mais escancaradas.

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    • Maris,

      Justamente, sempre deixa vestígios, mas cabe a nós termos uma boa percepção da comunicação não verbal, pois como você disse: o interlocutor pode mentir descaradamente, mas para alguns, com a percepção menos aguçada, não irá perceber a mentira.

      Siga nos acompanhando.

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

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  9. Acho que sim, um medicamento pode interferir na análise do comportamento, pois existem muitos remédios, alguns fortes outros nem tanto, que causam um efeito de relaxamento muscular geral no corpo da pessoa.
    E assim como acho possível ficar difícil a análise comportamental, creio que fica difícil também para a pessoa que está sendo analisada mentir, porque além desse relaxamento, o efeito de sedação é tão grande que em muitos medicamentos é aconselhado a pessoa não dirigir ou lidar com ferramentas, após a ingestão.
    Se para aquela pessoa mentir não faz parte do seu comportamento “normal”, acho que fica ainda mais difícil para ela conseguir o fazer depois de tomar uma medicação desse tipo.
    O remédio trás um atraso grande nas respostas do cérebro, como: você pensar na pergunta feita pela pessoa, inventar um acontecimento, distorcer ou omitir e depois conseguir verbalizá-la de uma forma convincente.
    Por exemplo, Tylex é um remédio para dores leves, a composição dele é paracetamol e codeína que é um derivado da morfina. A predominância do medicamento é periférica, mas também age no SNC, então temos aí duas partes principais para a análise comportamental de certa forma “prejudicadas”, o SNP e SNC. Dificultando para a pessoa que verbaliza e também para quem o analisa.
    Tudo bem que o Tylex é um remédio controlado, e é proibido o uso prolongado. Mas existem outros que são vendidos, que causam quase o mesmo efeito colateral, sem a necessidade de receita na hora da compra. Por exemplo o Actifedrin que é um remédio para renite alérgica, possui também um efeito de sedação e relaxamento muito fortes.

    Mais um excelente artigo, Edinaldo Oliveira! Parabéns!
    Vou continuar um frequentador assíduo do site.

    Att.

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    • Rogério,

      Excelentes comentários!

      Temos apenas que ficar atento nas situações que não são extremistas: entre os que não ficam com sono, nem os que ficam “espertos”, mas sim, naqueles que conseguem apenas um pequeno relaxamento muscular, a ponto de diminuir drasticamente alguns movimento involuntários mais evidentes, principalmente os “tiques nervosos”.

      Um indicador que cai por terra é o da pupila, como citado no artigo…portanto, todo cuidado é pouco.

      Assim, a medicação pode auxiliar o mentiroso, mas se prestarmos atenção em outros indicadores, e se pudermos ter uma linha de base do interlocutor, poderemos manter “a vantagem” da análise não verbal.

      Abraço,

      Edinaldo Oliveira

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    • Com toda certeza. Falando nisso, os usuários da toxina botulínica ou popularmente conhecido pela marca botóx, não tem as expressões faciais “mascaradas” também?
      Já que a toxina botulínica impede a liberação de acetilcolina paralisando alguns músculos faciais.

      Att.

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