Existem Emoções Básicas?

Existem emoções básicas?

O interesse sobre as emoções faz parte da existência humana. No entanto, falamos sobre isso e não sabemos direito o que é. Apesar de haver pouca concordância entre as diversas teorias sobre emoções, pode-se dizer que trata-se de uma experiência subjetiva, associada à ativação fisiologia é à motivação para agir. A própria palavra tem, em várias línguas, uma origem ligada à ação.

Não há dúvida que, ao experimentarmos uma emoção, ocorre uma ativação de nosso sistema nervoso que recebe significado pela nossa experiência subjetiva. Quanto a esse aspecto, discute-se o momento em que ocorrem: se antes, durante ou depois da experiência subjetiva (1).

 

Abordagens Evolucionistas e Culturalistas

Muitas abordagens que hoje conhecemos foram construídas com base na oposição conceitual umas das outras. Nesse embate de teorias, existem duas grandes perspectivas sobre a origem das emoções. A primeira, defende que as emoções são produtos da seleção natural, que evoluiu de adaptações de nossa espécie ao longo do tempo. A segunda, afirma que as emoções são socialmente construídas e variam nos limites das possibilidades culturais humanas (2).

Os estudos hoje disponíveis mostram evidências de ambas as perspectivas. As teorias evolucionistas atribuem o rótulo de “básicas” a algumas emoções, ocorrendo considerável concordância sobre a existência de uma certa quantidade de emoções nesta categoria. Os culturalistas, por sua vez, atribuem a primazia da construção cultural sobre qualquer base biológica.

Para uma abordagem mais equilibrada deve-se tomar cuidado com as paixões dos teóricos e perceber que há sentido tanto nas abordagens evolucionistas, quanto nas culturalistas. Sob esse ponto de vista, evitamos dividir o debate em dois blocos que se opõem.

Na verdade, nossas emoções tanto são fruto de evolução, quanto da construção cultural. A própria diferença entre as emoções básicas e complexas não é estrutural. Até onde se conhece, todas as emoções funcionam de forma semelhante.

 

Emoções Básicas

As emoções básicas são aquelas consideradas componentes de emoções mais complexas (3). Paul Ekman, por exemplo, defende esse modelo. Segundo esse ponto de vista, as emoções complexas são construídas a partir das emoções básicas, que teriam a marca distintiva de serem transculturais. Até o presente momento, não foi possível demonstrar que essas emoções básicas são compartilhadas e percebidas da mesma forma pelos seres humanos, mas existem motivos para crer na razoabilidade da proposta. Ekman (4) iniciou sua lista de emoções básicas, na década de 60, com seis delas (raiva, medo, alegria, surpresa, tristeza e nojo). Posteriomente, já nos anos 90, ampliou a quantidade de emoções básicas (5).

 

Uma Teoria Geral

Como se pode notar, não foi possível estabelecer, até o momento, uma teoria geral para as emoções. Não obstante a divergência teórica, alguns aspectos podem ser pontuados como comuns.

De forma geral nessas teorias, os sentimentos são considerados os resultados da emoção e fazem parte da experiência subjetiva da pessoa. Quando experimentamos um sentimento, podemos realizar alguma ação, como fugir ou lutar (comportamentos que podem estar relacionados com o medo, por exemplo).

Entretanto, não se deve confundir as emoções em si (um fenômeno complexo) com as dimensões que as compõem. Qualquer redução de nossas emoções às dimensões que as compõem diminui a beleza dessa experiência humana e dificulta a sua inteligibilidade. Observe que muitas das teorias surgem diretamente da eliminação de uma ou outra dimensão ou da predominância de uma delas.

A real dificuldade que temos é escapar da paralizante dicotomia entre evolução e cultura para abrir nossas mentes a modelos híbridos e mais complexos, onde ambas as abordagens encontrem espaço.

 

Referências e Notas

(1) Para ver maiores detalhes sobre o tema, procure conhecer o debate entre as teorias de Cannon-Bard e James-Lange.

(2) Markus, H. R. and Kitayama, S. (1991). Culture and the self: Implications for cognition, emotion, and motivation. Psychological Review, 98, pp. 224-253.

(3)(4) Ekman, P., Sorenson, E. R. & Friesen. W. V. (1969). Pan-cultural elements in facial displays of emotions. Science, 164, pp. 86-88.

(5) Ekman, P. (1999) Basic emotions. In T. Dalgleish and T. Power (Eds.) The handbook of cognition and emotion. pp. 45-60, New York: John Wiley & Sons.


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

. Existem Emoções Básicas?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/existem-emocoes-basicas/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

. (). Existem Emoções Básicas?. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/existem-emocoes-basicas/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
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34 Comments

  1. Olha,eu achei uma coisa no livro Desvendando os Segredos da Linguagem Corporal,do Alan e da Barbara Pease.Na página 202,quando se fala sobre os 12 gestos mais comuns da sedução feminina,ele diz que o ato de quebrar o pulso,vulgo “desmunhecar”,é utilizado exclusivamente por mulheres e gays.diz que é um otimo recurso para demonstrar submissão,e faz com que os homens enxerguem a possibilidade de dominar a pessoa.Fora isso,não encontrei mais nada.

  2. Justamente Dr. Sergio Senna Pires, acho que temos que nos utilizar das teorias culturais e biológicas, citei a biológica como base para iniciar, mas isto não descarta bases culturais, as mesmas se complementam. O que eu acho, voltando para a pergunta inicial, é que, procurar exclusivamente “sinais de sedução” não é 100% confiável, seja nos hetero ou homosexuais…o artigo que citei, mostra isso, apontando na idéia geral, a forte influência cultural sobre a sexualidade (inclusive fazendo ir contra os “desejos biológicos”…ou seja, o mais seguro, acredito, seria buscar sinais nos dois campos, mas em uma observação rápida, isso não é possível.

  3. Interessante que no episódio 2, da primeira temporada, Lightman aborda um soldado, tocando no braço dele e fazendo insinuações de que se sentia atraido por ele, e observou surpresa em sua face, e nenhum sinal de excitação. O que venho tentando dizer é que ao invés de “sinais típicos” de sedução, busquem sinais UM POUCO mais confiáveis, como os que exemplifiquei. Sei que o ser humano é complexo, e muitos fatores influenciam sua sexualidade, com esta minha linha de pensamento, tento ao menos achar algum parâmetro para me basear.

  4. Poucos cientistas se propõem a fazer uma abordagem que inclua aspectos biológicos e culturais ao mesmo tempo.

    Penso que isso se deva a grande dificuldade metodológica de tal empreitada. É muito difícil mesmo.

    Eu me doutorei com esse visão. Em minha formação como doutor esteve bem presente uma pessoa que admiro e que penso ser um dos psicólogos mais importantes do mundo e que desenvolve esse olhar.

    Chama-se Jaan Valsiner:

    http://www.clarku.edu/faculty/facultybio.cfm?id=316

    Vejam a página dele e a sua produção e entenderão sobre o que estou tratando.

    Aproveitem e vejam o livro:

    http://www.bertrand.pt/ficha/culture-in-minds-and-societies?id=10870086

    Esse é um excelente exemplo de um conteúdo que tenta abordar, sistemicamente, a base biologica e a cultura.

  5. Bruno Martins Não quis dizer que a homosexualidade é decorrente de alterações biológicas, mas que a mesma, muitas vezes é “mascarada” por conta de fatores culturais/sociais.

  6. Bruno Martins Diz: Eu não tenho conteúdo cientifico, mas acredito que toda emocão tem funcionamentos biológicos envolvidos. Dr. Sergio Senna Pires se possível gostaria de confirmar esse meu achismo.

  7. Bruno Martins Diz: Ainda não há pesquisas que provem (que e saiba) se a atracão homossexual é resultado de alguma alteração biológica, psicológica ou de ambas.

  8. Por esta razão, acho que devemos nos deter nos sinais mais inconscientes, como exemplifiquei, a salivação, pupila e narinas dilatadas, entre outros. Já os gestos podem ser moldados pela cultura ou podem ser meros reflexos da imitação aprendida na observação do sexo oposto, e por isso, não são tão confiáveis (basta trocar o mesmo de cultura, e todo seu “aprendizado” não indicará nada na outra cultura).

  9. “A educação sexual tem diferentes dimensões e imensa abrangência. Inclui,indiscutivelmente, o biológico, o psicológico, o social e o ético, além de ser um processo amplo e que permeia a vida de toda a sociedade, de diversas maneiras e, freqüentemente, é muito controvertido (Werebe, 1977; Vitiello, 1995; Ribeiro, 1990,
    Cavalcanti, 1993).”

  10. O Thiago Sálvio que levantou este bom questionamento Dr. Sergio Senna Pires…achei bastante interessante, pois podemos explorar o instinto mais básico, “ignorando” um pouco a camada cultural, no que se diz respeito à sexualidade.

  11. Mas daí, se for se basear por esta regra do mais “apto para procriação”, como explicar a atração homosexual (onde a procriação, biologicamente falando, não é possível)?

    • Edinaldo, acho que isso não significa que tal comportamento não possa ser visto como relaciona à seleção natural.

      As causa sde um comportamento pode ser diferenciadas em duas: próxima e última.

      As causas próximas são aquelas que dizem respeito ao que motiva o tal comportamento no momento presente: fisiologia, motivação, subjetividade, indiviualidade…todos esses fatores estão dentro.

      Agora, quando falamos em causas últimas, falamos em quais fatores propiciaram o surgimento desses mecanismos comportamentais de causas próximas.

      No caso do comportamento homossexual, acho que podemos dizer que as causas próximas são as culturais e biológicas, que se entrelaçam. Em relação às últimas, podemos fazer referência ao fato de que o sexo não está só ligado à reprodução, mas à moeda de troca social, obtenção de prazer simplesmente e alívio de tensões, além de subjulgamento do outro. E qualquer mecanismo que, por exemplo, promova boas relações sociais, boas trocas sociais, acabam sendo selecionados porque também acabam facilitando a obtenção de parceiros e a consequente reprodução.

      Além disso, dá ainda pra argumentar que o ato de copular com indivíduos do mesmo sexo existe em várias outras espécies, então, é um comportamento que tem uma ancestralidade…não sendo algo explicado somente pela cultura, excluindo-se a biologia. Como tudo o mais, a homossexualidade deve ser pensada como algo que surge da interface conjunta entre biologia e cultura, e não de uma dicotomia.

  12. Bruno Martins diz: eu discordo. Os “modelos” de “sinais” na minha opinião poderiam ser criados a partir do sexo, até porque biologicamente funcionamos de forma diferente. O que exita um homem, nos padrões “normais”, não exita uma mulher… e vice-versa.

    Não sei se estou certo na minha opinião, mas meu outro senso comum é que já ouvi dizer que, biologicamente, procuramos parceiros mais dispostas a procriar. Sendo assim o homem costuma se interessar por mulheres com corpos “bem dotados” por exemplo.

  13. Acredito que não devemos criar “modelos” de sinais de sedução, para sexo A ou B, mas sim, devemos perceber sinais de atração/excitação, e independente da opção sexual, o mesmo ocorrerá. Imagine alguém com sinais de fome, qualquer que seja o sexo, normalmente emite os mesmos sinais (salivação ou aumento das narinas para sentir melhor o aroma – lembra do lobo mal?? rsrs – por exemplo). Então, ACHO que provavelmente, independente do sexo, emitiremos sinais semelhantes.

  14. Vou aqui repetir um comentário já realizado que ajudará em nossa explicação:

    Podemos sistematizar (se isso é possível) o debate em torno das emoções e das suas expressões em dois grandes grupos:

    1. teorias, modelos ou tradições que enfatizam os aspectos biológicos;

    2. aquelas que enfatizam os aspectos culturais.

    Existem inúmeras argumentações que se construíram entre essas posições desde uma abordagem radicalmente somática até a sua contraparte radicalmente cultural.

    Provavelmente nenhuma dessas posições extremadas conseguirá prevalecer. No entremeio, diversas teorias foram propostas e o tempo se encarregará de nos mostrar aquela que for mais produtiva.

    O fato é que nossas emoções são somáticas e culturais ao mesmo tempo.

    Penso que uma boa parte das teorias falam dos mesmos aspectos que recebem nomes diferentes em cada uma delas, mas se formos analisar, são as mesmas “coisas”.

    Vamos pensando e deixem as suas opiniões.
    Saudações
    Sergio Senna

  15. Olá pessoal, gostei de ver o debate até aqui.

    Os fenômenos afetivos vêm sendo estudados pela Psicologia há algum tempo. No entanto, existem muitas teorias e abordagens, o que dificulta o entendimento para as pessoas que acabam por não atingir a profundidade necessária.

    Além disso, a própria produção científica nesse tema é confusa e, por vezes, obscura. Nomes diferentes para os mesmos elementos, entre outras coisas que citamos em outro comentário que pode ser acompanhado peoa artigo acima citado.

    As questões referentes à sexualidade, ao seu exercício e à orientação têm bases orgânicas e também culturais. Nesse ponto, é necessário entender que os nossos sentimentos não são apenas “química e eletrecidade”.

    As abordagens que “pregam” o desejo sexual como uma camada biológica Têm certa razão, mas se pararem aí, estão fazendo uma tremenda redução no potencial humano.

    Vocês já devem ter lido essa história de que escolhemos e somos escolhidos como parceiros por causa da procriação e para a perpetuação da espécie. A partir daí surge de tudo. Que escolhemos o de melhor saúde, os mais fortes, mais inteligentes etc…. E tentam descobrir quais são essas características.

    Tudo isso é verdade, mas não é só isso……

    Desenvolverei aqui algumas argumentações que poderão esclarecer um pouco desse intrincado tema.

  16. Olá Meire. Não só você, mas muita gente tem essa impressão, o que dificulta a difusão do conhecimento científico de uma forma agradável.

    Uma boa parte do tempo que utilizo na preparação de minhas aulas é destinada à sistematizar e tentar facilitar o entendimento dessas pequenas diferenças entre as produções de diferentes pessoas.

    Muita gente chega em minhas aulas pensando que existem 20 teorias e depois percebem que são dois ou três grupos.

    Assim fica bem mais fácil para entender, mas realmente é difícil achar essas diferenças, pois o pessoal que as “cria” não facilita nem uma pouco.

    E quem “cria” uma teoria quer dizer que ela é o máximo! Existem exceções, mas a regra é essa.

    Siga participando dos nossos debates
    Saudações
    Sergio Senna

  17. são construídas para dar notoriedade ao seu formulador, não importando muito se os nomes foram trocados ou foram incluídas algumas pequenas distinções diferenciativas…Na minha simplicidade já havia pensado sobre isso…nos meus devaneios rsrs

  18. Aliás, esse tipo de “pirataria” semântica é muito comum na literatura científica e afasta a pessoa da sua leitura, pois é necessário ficar muito atento para discriminar as diferenças entre conceitos que nos parecem tão semelhantes.

    Confesso que é cansativo e, muitas vezes, chato!

  19. Além da dicotomia corpo/mente, que se propaga em quase todos os assuntos sobre comportamento humano, temos a questão dos pressupostos que são adotados para sistematizar, cientificamente, determinado tema.

    Por exemplo: temos um grupo de teorias sobre emoções conhecidas como fatoriais, segundo as quais existem fatores que influenciam as nossas emoções. Um desses fatores é a percepção.

    Em outro grupo, as dimensionais, é sustentado que existem dimensões que interagem nos fenômenos afetivos. Uma dessas dimensões é a percepção!

    Basta aprofundar um pouco o estudo para ver que não há muita diferença entre “dimensão” e “fator”. A partir dessas observações percebi que algumas dessas teorias são construídas para dar notoriedade ao seu formulador, não importando muito se os nomes foram trocados ou foram incluídas algumas pequenas distinções diferenciativas.

  20. Creio que essa dicotomia das teorias somáticas/culturais é esperada uma vez que os dilemas corpo/mente são conhecidos desde a Grécia Antiga.
    Ainda nos dias atuais não foi possível superar isso.

  21. Muito interessante o texto, ainda não tinha visto.

    O mesmo serve de base para iniciarmos os estudos na área.

    Inclusive, é interessante lembrar da “regra de exibição” proposta por Ekman, onde a cultura influenciaria a exibição de nossas emoções. Por exemplo, porque o atleta perdedor não chora e o vencedor não demonstra alegria abertamente? Ou seja, Ekman creditava – bem ou mal – valor ao fator cultural, talvez este vá mais além do que ele quisesse….

    Abraço

  22. Podemos sistematizar (se isso é possível) o debate em torno das emoções e das suas expressões em dois grandes grupos:

    1. teorias, modelos ou tradições que enfatizam os aspectos biológicos;

    2. aquelas que enfatizam os aspectos culturais.

    Existem inúmeras argumentações que se construíram entre essas posições desde uma abordagem radicalmente somática até a sua contraparte radicalmente cultural.

    Provavelmente nenhuma dessas posições extremadas conseguirá prevalecer. No entremeio, diversas teorias foram propostas e o tempo se encarregará de nos mostrar aquela que for mais produtiva.

    O fato é que nossas emoções são somáticas e culturais ao mesmo tempo.

    Penso que uma boa parte das teorias falam dos mesmos aspectos que recebem nomes diferentes em cada uma delas, mas se formos analisar, são as mesmas “coisas”.

    Vamos pensando e deixem as suas opiniões.
    Saudações
    Sergio Senna

  23. Para os interessados no estudo da linguagem corporal, é interessante acompanhar os debates que são realizados pelos estudiosos da relação entre as emoções e suas manifestações fisiológicas, pois os argumentos que aí aparecem nos ajudam (ou atrapalham) a entender a complexidade do assunto.

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