Na entrevista ou interrogatório, a linguagem não verbal pode mudar o rumo da investigação

A aplicação de conhecimentos sobre linguagem não verbal no dia a dia da atividade policial é indiscutivelmente de enorme valia.

Como já foi fartamente comentado em diversos artigos neste site, não vou me ater à necessidade de tomarmos diversos cuidados na aplicação da leitura da linguagem não verbal, principalmente nas entrevistas e interrogatórios policiais, pelas conseqüências lógicas que a aplicação desta técnica pode ter no resultado final de uma investigação.

Não conheço ninguém que possa definir o que é verdade ou mentira apenas utilizando algum sinal corporal que possa remeter a essa conclusão. O risco de cometermos um erro é muito grande, e neste caso o erro pode representar parte do processo que levará ao cerceamento da liberdade de uma pessoa inocente ou a liberação de um culpado.

Entretanto, em algumas situações, como a que citei aqui, no artigo UMA EXPERIÊNCIA COM A LINGUAGEM CORPORAL NA ELUCIDAÇÃO DE UM CRIME, um sinal pode sim te indicar um caminho a seguir; não uma conclusão, apenas um caminho, o que já é de enorme ajuda quando iniciamos uma investigação sem alguma pista consistente. No decorrer do trabalho, outros sinais podem reforçar essa opção, ou desestimulá-la.

Há aproximadamente um mês, tive uma experiência que comprova isto. Um detido estava na sala do delegado acompanhado de mais três policiais. Ele estava sendo preso por um motivo, mas já estavam todos prontos para “debitar em sua conta” outro delito de furto, que a princípio poderia ser dele.

Um criminoso havia deixado no local do crime um moletom, que a vítima afirmara anteriormente, pertencer a este detido. Em meio às perguntas que lhe eram dirigidas a cerca do furto, repentinamente apresentei a ele o seu moletom. Sua expressão de surpresa (lembram-se das seis emoções básicas?) foi tão natural e intensa, que me levou a procurar maiores esclarecimentos sobre aquele crime tão enfaticamente negado pelo suposto autor.

Se ele tivesse ligado o moletom ao furto, sua reação com certeza seria outra. Mais uma vez a linguagem corporal apontou o caminho. Duas linhas poderiam ser consideradas: ou ele estava drogado no dia do furto e não se lembrava de haver deixado lá o moletom, o que poderia ter causado a expressão de espanto de forma natural, ou ele realmente não fez ligação da roupa com o assunto que tratávamos no momento por ser inocente da acusação. Soubemos mais tarde que o referido moletom pertencia mesmo ao detido, mas havia sido deixado no local do crime por outra pessoa, o verdadeiro autor do furto que havia se apoderado da peça em questão sem o conhecimento do dono.

O interrogatório policial deve ser revestido de uma série de cuidados pelo profissional que o executa. Entre tantos outros cuidados, é necessário ausência de pré-julgamento e de preconceitos, é preciso muito critério ao realizar as perguntas, inclusive para não implantarmos uma falsa memória (veja artigo do Dr Sérgio Senna neste site), fato que poderá desviar a investigação para um rumo completamente equivocado. O cansaço físico intenso e a pressão psicológica exagerada podem também provocar uma falsa confissão.

Posso asseverar com a experiência adquirida na prática, que uma leitura da linguagem não verbal efetuada com critério, vai ajudar muito ao profissional no momento de uma entrevista ou interrogatório. Tudo reside na forma como a técnica foi aprendida, e isto não se consegue com a leitura de um ou dois livros. Procure uma orientação confiável, dedique-se, pratique e bom proveito.


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Como citar este artigo:

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ANDRADE, Vicente. Na entrevista ou interrogatório, a linguagem não verbal pode mudar o rumo da investigação. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/na-entrevista-ou-interrogatorio-a-linguagem-nao-verbal-pode-mudar-o-rumo-da-investigacao/> . Acesso em 29 Jul 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Andrade, Vicente. (). Na entrevista ou interrogatório, a linguagem não verbal pode mudar o rumo da investigação. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 29 Jul 2016, de https://ibralc.com.br/na-entrevista-ou-interrogatorio-a-linguagem-nao-verbal-pode-mudar-o-rumo-da-investigacao/.

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Vicente Andrade

Possui experiência de 23 anos em segurança pública com atuação principal na área investigativa. Formado em segurança privada, desenvolveu experiência em segurança pessoal de dignatários. Realiza graduação em Filosofia (bacharelado) pela UNISUL - Universidade do Sul de Santa Catarina. É estudioso da linguagem corporal há cinco anos, mantendo o foco em sua utilização na área de segurança. Contatos pelo email: [email protected]
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