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Presidente da Adepol Brasil distingue violência, pobreza e criminalidade

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O debate brasileiro sobre violência costuma começar pela resposta errada porque formula mal a pergunta. Antes de discutir mais polícia, mais pena, mais investimento social ou mais presença estatal, é preciso saber de que fenômeno estamos falando. Violência, pobreza e criminalidade se relacionam, mas não são a mesma coisa.

Essa distinção apareceu com clareza na entrevista concedida por Rodolfo Queiroz Laterza, presidente da Adepol Brasil e delegado da Polícia Civil do Espírito Santo, ao programa Opinião, da TV Cultura Litoral. A conversa foi conduzida pelo jornalista Francisco La Scala Jr., em 2 de julho de 2026, com participação do economista Alípio Labão. O vídeo completo pode ser encontrado ao final deste post.

Laterza não tratou a pobreza como detalhe irrelevante, nem reduziu segurança pública à repressão penal. O que ele fez foi mais útil: recusou a explicação única.

Ao distinguir violência, criminalidade e desigualdade, abriu espaço para um diagnóstico mais exigente, capaz de considerar cultura, confiança interpessoal, impunidade, educação, ordenamento territorial, prevenção primária e aplicação da lei.

O comentário a seguir desenvolve essa primeira parte da entrevista. Nossa leitura é que a contribuição de Laterza fortalece uma premissa central: políticas de segurança pública falham quando tratam fenômenos diferentes como se fossem variações do mesmo problema.

O gestor que confunde violência episódica, criminalidade difusa e crime organizado tende a repetir respostas conhecidas, mesmo quando o sistema já mostrou que elas produzem pouco aprendizado institucional.

Violência não nasce de uma causa só

Laterza também critica a explicação automática segundo a qual pobreza e desigualdade, isoladamente, explicariam a violência brasileira. Ele menciona países com indicadores socioeconômicos piores que os do Brasil e níveis menores de violência letal, justamente para mostrar que o diagnóstico precisa considerar mais variáveis. A pobreza deve ser enfrentada por dignidade humana, não porque sirva como resposta total para a criminalidade. Essa formulação é importante porque evita transformar uma agenda social legítima em promessa causal fraca.

No IBRALC, essa leitura conversa com uma premissa central de O Crime que Aprende: violência persistente não decorre apenas da falta de recursos, de leis mais duras ou de maior esforço estatal. Ela se mantém quando decisões humanas, redes, mercados, ambientes institucionais e territórios se acoplam de modo recorrente. O problema não está em escolher entre explicação social e resposta policial. O problema está em entender como essas dimensões interagem.

Cultura, regras e confiança entram no diagnóstico

Na entrevista, Laterza enfatiza fatores culturais, baixa confiança interpessoal, dificuldade de seguir regras, cultura da vantagem, impunidade e baixa maturação para resolução pacífica de conflitos. Aponta que essa parte do argumento exige cuidado. Não devemos trocar uma explicação simplista por outra. Falar de cultura não autoriza moralismo. O valor da análise está em outro lugar: reconhecer que normas sociais, expectativas, exemplos, recompensas e custos percebidos influenciam as decisões cotidianas.

Quando as pessoas aprendem que burlar compensa, que a regra vale seletivamente, que a punição é improvável ou que a violência resolve conflitos com menor custo imediato, o ambiente decisório muda. A conduta individual não aparece isolada. Ela se forma em interação com família, escola, vizinhança, instituições, exemplos públicos, oportunidades e medo. É por isso que Laterza associa prevenção primária, educação, controle social, lei e ordem. O argumento não é repressivo nem ingênuo. Ele é relacional.

Território também decide

Outro elemento relevante da entrevista é a menção ao desordenamento territorial e à geografia do crime. Essa observação aproxima o argumento de uma ideia que temos desenvolvido: o território não é apenas área de operação. É território vivo. Nele, moradores circulam, evitam trajetos, confiam ou desconfiam das instituições, silenciam por medo, aderem a proteções informais, toleram condutas por sobrevivência ou resistem quando encontram apoio suficiente.

Um mapa de ocorrências ajuda, mas não basta. Ele mostra eventos registrados. Não mostra sozinho a intimidação que impediu a denúncia, a coerção que sustentou o silêncio, a ausência de serviço público que abriu espaço para proteção ilícita ou a rotina que tornou previsível a presença do Estado. Nesse sentido, Laterza acerta ao inserir ambiente, ordenamento territorial e prevenção no mesmo diagnóstico. A violência não acontece no vazio. Ela se organiza em lugares concretos, com relações concretas.

Nem prevenção ingênua, nem repressão isolada

A força da entrevista está no equilíbrio. Laterza defende aplicação rigorosa da lei, responsabilização de criminosos violentos e maior efetividade institucional. Ao mesmo tempo, afirma que só “tiro, porrada e bomba” não resolve. Essa combinação é mais séria do que os slogans que costumam dominar a segurança pública. Prevenção primária sem resposta estatal vira desejo. Repressão sem prevenção, território, inteligência e continuidade vira contenção temporária.

Em nosso vocabulário, a questão é de resposta qualificada. O gestor não decide em ambiente limpo. Decide sob pressão, medo público, cobrança eleitoral, limitação orçamentária e informação incompleta. Mesmo assim, precisa perguntar: que fenômeno estou enfrentando? Violência episódica? Criminalidade difusa? Mercado ilícito? Rede adaptativa? Desordem territorial? Fragilidade institucional? Cada resposta exige combinação distinta de capacidades públicas.

A contribuição de Rodolfo Laterza, nessa primeira parte da entrevista, é recolocar o diagnóstico em nível mais exigente. Violência, pobreza e criminalidade se relacionam, mas não se confundem. Quando o debate público reduz tudo a uma única causa, ele facilita promessa eleitoral, mas empobrece a decisão. Segurança pública séria começa quando gestores, policiais, legisladores e comunidades aceitam a complexidade do problema sem transformar essa complexidade em desculpa para não agir.

Assista à entrevista completa

A entrevista completa com o presidente da Adepol Brasil, Rodolfo Queiroz Laterza, foi conduzida pelo jornalista Francisco La Scala Jr., conhecido como Chico La Scala, no programa Opinião Litoral, da TV Cultura Litoral, em 2 de julho de 2026.