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Presidente da Adepol Brasil questiona rótulos fáceis sobre crime organizado

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Em entrevista ao programa Opinião, da TV Cultura Litoral, o presidente da Adepol Brasil e delegado da Polícia Civil do Espírito Santo, Rodolfo Queiroz Laterza, tratou dos rótulos sobre crime organizado brasileiro com uma qualidade rara no debate público: recusou atalhos. Em vez de reduzir o problema a facções armadas, modelos estrangeiros ou rótulos de impacto, Laterza organizou uma leitura mais ampla, envolvendo mercados ilícitos, captura institucional, milícias, estruturas empresariais, prisões, território, cultura criminal e geopolítica.

Esse cuidado merece atenção. O debate sobre segurança pública costuma procurar uma palavra forte para substituir uma análise difícil. Ora, se promete importar El Salvador. Ora, defende-se classificar facções como organizações terroristas. Ora, se imagina que prender lideranças visíveis desmonta, por si só, o sistema criminal.

Laterza questiona esse caminho. E esse questionamento fortalece uma premissa central dos nossos trabalhos no IBRALC: rigor não é simplificação; rigor é precisão operacional, jurídica e estratégica.

Crime organizado não é cópia estrangeira

Laterza começa por uma advertência importante: o Brasil não deve ser lido como cópia direta da Colômbia, do México ou de El Salvador. Cada país possui variáveis criminais próprias, trajetórias institucionais específicas e formas distintas de organização ilegal. Essa distinção parece simples, mas evita um erro recorrente: importar diagnóstico junto com a solução.

No nosso vocabulário, esse é um problema de erro de transposição. Uma resposta pode fazer sentido em determinado arranjo histórico, territorial e institucional, mas fracassar quando aplicada a outro ambiente. Copiar o símbolo de uma política sem copiar suas condições de funcionamento produz decisão vistosa, não necessariamente decisão eficaz.

Facção, empresa, milícia e captura institucional

Outro mérito da análise de Laterza está em ampliar o campo de observação. Ele não trata crime organizado apenas como facção ultraviolenta. Chama atenção para milícias, grupos paramilitares, estruturas empresariais criminosas e infiltração na economia, na política e nas instituições. Essa leitura é decisiva porque desloca o foco do ator mais visível para as funções que sustentam o sistema.

Em Countering Adaptive Organized Crime, chamamos essa leitura de CRIMOR: mercados e recursos ilícitos, redes criminosas adaptativas, ambientes sociais e institucionais e decisões humanas. O crime organizado persiste quando essas dimensões se acoplam. Não basta localizar quem aparece armado no território. É preciso identificar quem financia, protege, transporta, lava, decide, silencia, facilita, consome, tolera ou substitui funções quando a pressão estatal aumenta.

Essa é a razão pela qual operações contra lideranças podem produzir ganhos reais e, ainda assim, não desmontar o regime criminal. Se logística, proteção institucional, mercado consumidor, fluxo financeiro e controle de informação continuam ativos, outro ator assume a função. A pessoa muda. A função permanece. A estrutura aprende.

Bukele sem fetiche político

A entrevista também ganha força quando Laterza comenta El Salvador. Ele não nega a relevância do controle prisional e da recuperação de territórios pelo Estado. Mas recusa a narrativa segundo a qual Bukele, sozinho, teria resolvido o problema. Laterza aponta uma sequência anterior de políticas: ordenamento territorial, integração de comunidades, programas sociais, desmobilização, controle de prisões e continuidade institucional.

Esse é o tipo de cautela que falta ao debate brasileiro. Transformar El Salvador em slogan eleitoral empobrece a análise. O que interessa não é copiar a estética da força. É entender quais acoplamentos foram alterados, quais lideranças perderam capacidade de coordenação, como o sistema prisional deixou de funcionar como centro de comando e quais custos jurídicos, sociais e institucionais acompanharam o processo.

Terrorismo pode ser um rótulo ruim para um problema real

A parte mais relevante da entrevista talvez seja a crítica à classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Laterza argumenta que terrorismo possui motivação política ou ideológica específica, enquanto facções brasileiras operam prioritariamente por mercados ilícitos, controle territorial, proteção, reputação e lucro. A distinção importa juridicamente e estrategicamente.

Quando o Estado usa um rótulo impreciso, ele pode piorar a resposta. Laterza alerta para riscos concretos: sobrecarga da Polícia Federal, conflito de atribuições, problemas de cooperação internacional, efeitos geopolíticos e até legitimação política indevida de organizações criminosas. O nome forte pode produzir sensação de rigor, mas a categoria errada cobra preço.

No IBRALC, tratamos esse problema como diferença entre conceito jurídico e conceito analítico. O direito precisa estabilizar responsabilidade, garantir legalidade e permitir aplicação previsível da norma. A análise estratégica precisa compreender adaptação, recomposição, deslocamento e persistência. Confundir essas duas tarefas cria decisões ruidosas: pune-se pior, investiga-se pior e aprende-se menos.

O que a entrevista ajuda a ver

A contribuição de Rodolfo Laterza é valiosa porque recoloca o crime organizado no lugar certo: não como caricatura, nem como entidade abstrata, mas como arranjo adaptativo sustentado por pessoas, mercados, instituições, territórios e decisões. Isso não enfraquece o rigor estatal. Ao contrário, exige mais rigor.

Rigor é prender quando há base legal. É :

  • confiscar o patrimônio;
  • proteger a investigação;
  • controlar as prisões;
  • atingir os fluxos financeiros;
  • reduzir a proteção institucional aos criminosos;
  • impedir a substituição funcional;
  • aprender com a reação criminal;
  • evitar os rótulos que parecem fortes, mas desviam a atenção dos acoplamentos que mantêm o crime funcionando.

O enfrentamento ao crime organizado brasileiro precisa de força, mas também de leitura. Laterza oferece uma boa advertência pública: sem precisão conceitual, o Estado pode agir muito, gastar muito, prender muito e, ainda assim, deixar intactas as funções que permitem ao crime se reorganizar.

Acompanhe a entrevista: