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Eleições 2026: como serão analisadas as propostas de segurança pública

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Segurança pública deixou há muito tempo de ser um desafio restrito a países pobres, sociedades muito desiguais ou Estados com instituições frágeis. Redes criminosas, violência juvenil, mercados ilícitos e novas formas de recrutamento também pressionam países com elevada renda, educação de qualidade e ampla proteção social.

A Suécia oferece um exemplo recente. Depois de anos de violência associada a redes criminosas e crescente utilização de adolescentes, o Parlamento sueco aprovou, em agosto de 2026, a redução temporária da idade de responsabilidade penal de 15 para 14 anos nos crimes graves, por cinco anos. A decisão sucedeu uma proposta ainda mais severa, que pretendia alcançar adolescentes de 13 anos e foi abandonada por falta de apoio parlamentar.

O caso interessa menos como modelo a copiar e mais pelo problema que revela. Mesmo onde educação, renda e proteção social alcançam níveis excepcionalmente elevados, pessoas continuam tomando decisões, respondendo a incentivos, entrando em redes, assumindo riscos e participando de mercados criminosos.

É por isso que uma análise de segurança pública precisa observar tanto as condições sociais quanto os desejos e as decisões humanas.

Por que olhar para o crime como um sistema adaptativo?

Sistemas complexos e violência

Sistemas complexos e violência
16 de agosto de 2026

Sistemas complexos e violência: compreender a dinâmica sistêmica da violência é essencial para orientar decisões públicas e políticas de segurança...

Uma política de segurança interfere em pessoas, redes, mercados, instituições e territórios que respondem uns aos outros. Quando uma rota fecha, operadores podem procurar outra. Quando uma liderança sai, outra pessoa pode assumir suas funções. Quando determinada fonte de renda perde espaço, uma organização pode buscar outra.

Esse tipo de comportamento aproxima o problema dos sistemas adaptativos complexos, ou CAS. Neles, diferentes agentes interagem, aprendem e alteram seu comportamento conforme o ambiente muda. Uma introdução mais ampla a essa perspectiva está em Sistemas complexos e violência: como a teoria da complexidade pode orientar o enfrentamento da violência.

Essa orientação também sustenta os livros O Crime que Aprende e Countering Adaptive Organized Crime: A Strategic Guide for Public Safety Leaders. Neste último, o crime organizado é examinado como sistema capaz de reagir à pressão, explorar oportunidades e reorganizar funções quando o ambiente muda.

Capa do livro O Crime que Aprende, de Sergio Senna
O Crime que Aprende apresenta uma abordagem sistêmica e adaptativa para compreender o crime organizado e orientar intervenções em segurança pública.
Cover of Countering Adaptive Organized Crime: A Strategic Guide for Public Safety Leaders, by Sergio Senna
Countering Adaptive Organized Crime: A Strategic Guide for Public Safety Leaders desenvolve uma abordagem estratégica para enfrentar organizações criminosas capazes de aprender, adaptar-se e reorganizar suas funções.

Onde cada proposta pretende intervir?

Para organizar essa leitura, utilizamos o CRIMOR, que separa quatro dimensões interdependentes do sistema criminal. O modelo pode ser examinado em maior detalhe no artigo Tetraedro CRIMOR: um mapa para entender o crime organizado.

DimensãoO que observamos
Mercados e recursosReceitas, armas, drogas, logística, lavagem de dinheiro e outros recursos que sustentam atividades criminosas.
Redes criminosasLideranças, operadores, intermediários, funções, conexões e formas de organização das redes.
Ambiente facilitadorCondições territoriais, sociais, tecnológicas e institucionais que ampliam ou restringem oportunidades para o crime.
Desejos e decisões humanasIncentivos, expectativas, adesão, recrutamento, desistência, percepção de risco e escolhas das pessoas envolvidas.

A última dimensão impede uma simplificação frequente. Melhorar educação, renda ou serviços públicos modifica as condições nas quais as pessoas decidem. Não elimina a decisão. O caso sueco ajuda justamente a perceber essa diferença.

Infográfico sobre a metodologia usada para analisar propostas de segurança pública nas Eleições 2026
Resumo visual dos critérios usados para analisar propostas de segurança pública nas Eleições 2026, incluindo CRIMOR, capacidades estatais, execução e acompanhamento contínuo da campanha.

E o que observamos nas propostas?

Inteligência, equipamentos, formação profissional, presídios, interoperabilidade e coordenação aumentam capacidades públicas. A análise procura então responder: capacidade para interferir em quê e de que maneira?

Por isso, expressões como “mais inteligência”, “mais tecnologia” ou “integração de dados” não encerram a análise. Procuramos identificar sua função, os dados utilizados, os responsáveis, o destinatário do resultado e a decisão que aquele instrumento pretende apoiar.

Também observamos quanto cada proposta explica sua execução, como diferentes medidas se conectam e se existem formas de perceber a reação do sistema criminal depois da intervenção.

Quais programas entram na análise?

O corpus inicial reúne os programas oficiais apresentados por Ronaldo Caiado, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Luiz Inácio Lula da Silva.

A seleção é inicial, não definitiva. Outros candidatos serão incorporados à medida que a campanha avance e haja material suficiente para aplicar os mesmos critérios. A entrada posterior de uma candidatura não altera o protocolo utilizado com as anteriores.

Os programas registrados no TSE funcionam como linha de base. Entrevistas completas, debates, sabatinas, discursos e outras manifestações públicas relevantes também serão incorporados, sempre com identificação de fonte, data e contexto.

Assim poderemos observar se uma proposta permanece consistente, recebe detalhamento, amplia seu alcance, muda de prioridade, passa por reformulação ou entra em tensão com formulações anteriores.

Nosso método é aberto ao aprimoramento

A metodologia não pretende oferecer uma representação perfeita de todos os aspectos de um programa de governo. Seu objetivo é mais operacional: criar critérios suficientemente claros, rastreáveis e estáveis para descrever propostas diferentes sob uma base comum e permitir comparações responsáveis.

Por isso, o processo inclui revisão das classificações e continuará aberto a sugestões de pesquisadores, gestores, profissionais de segurança pública, candidatos e demais leitores. Quando uma contribuição melhorar os critérios, aumentar a precisão ou revelar uma variável relevante, ela poderá ser incorporada de maneira documentada e aplicada de forma consistente ao corpus.

O interesse está justamente nisso: construir uma análise que também possa aprender enquanto a campanha avança.

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