Os acoplamentos da governança criminal ajudam a explicar por que organizações criminosas conseguem produzir ordem, proteger mercados e condicionar decisões, mesmo onde o Estado continua presente. Um estudo realizado em 18 países latino-americanos oferece uma ampla base empírica para observar essas conexões e relacioná-las ao que o IBRALC já desenvolveu sobre corrupção, funções criminais, mercados, território, adaptação e regimes de operação.
Os autores estimam que entre 77 e 101 milhões de latino-americanos convivam com alguma forma de governança criminal. Cerca de 14% dos entrevistados afirmaram que grupos criminosos locais ofereciam ordem ou reduziam crimes. O achado mais provocador, porém, não está apenas na escala: a governança criminal apareceu associada tanto à percepção de melhor governança estatal quanto a medidas objetivas de maior presença do Estado.
Também estimam quantas pessoas vivem com alguma forma de governança criminal, isto é, em contextos em que grupos locais oferecem ordem ou reduzem a ocorrência de certos crimes. Essa medida é mais ampla do que viver sob suas regras: parte das pessoas pode conviver diretamente com essas atividades sem se considerar pessoalmente submetida a deveres ou controles impostos pelo grupo.
A pesquisa mede principalmente a extensão do fenômeno, não todas as suas formas, intensidades ou relações com o Estado. Ainda assim, seus resultados reforçam uma percepção central: organizações criminosas não governam apenas onde instituições públicas desapareceram. Elas também governam onde conseguem estabelecer relações funcionais com capacidades estatais, mercados, estruturas prisionais e decisões humanas.
Nossa proposta neste artigo é avançar para além da constatação de que o crime produz regras e ordem. Vamos apontar alguns dos acoplamentos que mantêm essa autoridade em funcionamento.
O que são os acoplamentos da governança criminal?
Uma organização não sustenta autoridade apenas porque possui armas, dinheiro ou integrantes dispostos à violência. Ela precisa conectar esses recursos a relações que preservem informação, receita, proteção, disciplina, circulação e capacidade de impor consequências.
Acoplamento, termo proveniente da teoria dos sistemas complexos adaptativos, é uma relação funcional e recorrente entre elementos do sistema, pela qual a atividade de um passa a sustentar, proteger ou ampliar capacidades do outro. A mera proximidade não basta. A presença de uma delegacia e de uma facção no mesmo território não comprova acoplamento. A relação aparece quando informações, rotinas, decisões, omissões ou recursos produzidos em uma parte alteram de forma recorrente as condições de operação da outra.
O Tetraedro CRIMOR oferece o mapa geral dessa análise. Mercados e recursos, redes criminosas adaptativas, ambientes sociais e institucionais e decisões humanas não operam separadamente. O sistema ganha resiliência quando essas dimensões se conectam, compensam perdas e preservam funções ao longo do tempo.
Em O Crime que Aprende, Sergio Senna Pires desenvolve a relação entre intervenção estatal, adaptação e regimes de operação. Em Countering Adaptive Organized Crime, o autor sistematiza acoplamentos críticos, substituição funcional, sensores e leitura posterior à intervenção.
Identificar atores mostra quem participa. Identificar os acoplamentos da governança criminal revela como a ordem ilícita continua funcionando. Essa mudança importa porque uma operação pode retirar pessoas visíveis e manter intactas as relações que fornecem dinheiro, proteção, informação e autoridade.
Que resultados do estudo tornam esses acoplamentos visíveis?
O levantamento não foi elaborado para testar os conceitos do IBRALC. Seus achados, contudo, oferecem evidência convergente para observar relações que uma explicação baseada apenas em ausência estatal deixaria de perceber.
| Resultado do estudo | O que se torna visível |
|---|---|
| Governança criminal associada a maior presença estatal | Presença física não assegura autonomia institucional. Estado e crime podem atuar no mesmo território e condicionar mutuamente suas decisões. |
| Sobreposição relativamente estável entre autoridades | A governança pode persistir sem expulsar o Estado. Relações de conflito, tolerância, negociação e complementaridade ajudam a estabilizar a configuração. |
| Influência sobre policiamento, eleições e serviços | A autoridade criminal se conecta a estruturas formais da vida pública e deixa de operar apenas na margem dos mercados ilícitos. |
| Repressão associada a mais governança em alguns contextos | A pressão estatal pode alterar incentivos, fortalecer disciplina interna e ampliar recursos destinados à proteção dos mercados criminosos. |
Esses resultados não apontam uma causa única. Eles revelam algo mais útil para a decisão: a governança criminal nasce de configurações diferentes. Em alguns lugares, grupos corrompem agentes. Em outros, permitem a entrada seletiva de serviços públicos. Também podem disciplinar moradores para reduzir chamadas à polícia, proteger mercados varejistas ou projetar para as ruas capacidades desenvolvidas no sistema prisional.
Como a corrupção acopla o sistema criminal ao sistema estatal?
A corrupção oferece o exemplo mais direto de conexão entre os dois sistemas. Uma rede criminosa não precisa controlar todo o Estado. Ela precisa encontrar acessos capazes de transformar informação, fiscalização, decisão administrativa, comunicação prisional ou proteção política em recursos para suas próprias funções.
Corrupção como Acoplamento: quando o crime usa o Estado para aprender
Vantagem adaptativa criminal explica por que ações previsíveis podem fortalecer a recomposição do crime organizado.
O estudo recupera a literatura sobre zonas de conluio entre crime e Estado, inclusive relações que alcançam comandantes locais, altos funcionários e autoridades responsáveis pela segurança pública. Ao mesmo tempo, os autores mostram que a corrupção, sozinha, não explica a associação regional entre governança criminal e presença estatal. Essa distinção fortalece a análise: corrupção é um acoplamento central, mas não o único.
Na postagem Corrupção como Acoplamento, mostramos que a rede não compra apenas uma decisão. Ela compra tempo, informação, previsibilidade, proteção e acesso a rotinas que deveriam limitar sua adaptação. Quando outro agente consegue ocupar a mesma passagem, a prisão ou o afastamento do primeiro responsável não rompe a relação funcional.
Esse é um dos acoplamentos da governança criminal mais resistentes. A responsabilização individual continua indispensável, mas a intervenção precisa perguntar qual função a corrupção preservava, quais acessos a tornavam útil e por que outro intermediário conseguiria restabelecer a conexão.
Por que produzir ordem pode proteger mercados criminosos?
Governar custa dinheiro, pessoas e capacidade de coerção. Organizações criminosas assumem esse custo quando a disciplina territorial protege receitas, reduz exposição e cria condições mais previsíveis para mercados que desejam controlar.
Os autores mostram que portos, fronteiras e mercados locais oferecem oportunidades para proteção contratual, resolução de disputas e regulação de atividades formais, informais e ilícitas. Também observam que grupos podem reduzir crimes próximos aos seus mercados para diminuir chamadas à polícia, responder com maior rapidez e conquistar cooperação de moradores durante operações.
Essa relação já aparece no canônico Crime como infraestrutura. Mercados ilícitos, logística, proteção territorial, dinheiro, comunicação, medo e decisões humanas formam uma base capaz de recompor operadores e funções. A governança acrescenta uma dimensão decisiva: regular comportamentos e conflitos pode proteger essa infraestrutura econômica.
A organização não oferece ordem porque deixou de ser criminosa. Ela oferece ordem porque a previsibilidade pode proteger o negócio. Entre os acoplamentos da governança criminal, essa conexão entre mercado, coerção e proteção explica por que a queda de alguns delitos visíveis pode coexistir com maior controle ilícito sobre a comunidade.
Como território, proteção e medo se transformam em autoridade?
A força física sustenta a possibilidade de punição. A autoridade cotidiana, porém, se consolida quando moradores, comerciantes e agentes públicos aprendem quem responde, quem autoriza, quem cobra e quem consegue impor consequências imediatas.
O estudo define governança criminal como imposição de regras ou restrições por uma organização criminosa. Essa atividade pode garantir ordem diária e proteção patrimonial, enquanto reduz liberdade de circulação, devido a processo e acesso autônomo a serviços. Também pode interferir em normas comunitárias, eleições, policiamento e decisões públicas.
- comerciantes incorporam cobranças ilícitas ao custo de funcionamento;
- moradores recorrem à arbitragem criminal porque esperam resposta rápida;
- profissionais públicos ajustam horários, rotas ou procedimentos;
- candidatos e lideranças locais calculam se podem circular ou fazer campanha;
- famílias evitam denúncias por medo, dependência ou ausência percebida de alternativa.
Essas decisões não significam necessariamente apoio à organização. Pessoas podem rejeitar a ordem criminal e, ao mesmo tempo, adaptar sua conduta às consequências que esperam. A soberania de proximidade ajuda a observar essa diferença: a competência jurídica permanece com o Estado, mas a decisão imediata recebe forte influência de quem controla acesso, proteção e punição no território.
Por que retirar líderes pode manter a governança intacta?
A autoridade criminal não depende apenas de quem ocupa a liderança. Ela depende da continuidade das funções de cobrança, arbitragem, proteção, comunicação, disciplina e controle territorial.
Prender o chefe não basta: funções antes de atores
Antes de medir sucesso por prisões, pergunte quais funções continuaram operando, quem as assumiu e que mercado permaneceu ativo.
O estudo destaca que encarceramento em massa e políticas antigangues favoreceram o crescimento de gangues prisionais e sua capacidade de projetar poder para as ruas. A repressão pode retirar operadores e, simultaneamente, criar ambientes de coordenação, recrutamento e disciplina capazes de sustentar a governança sobre mercados e civis.
Em Prender o chefe não basta: funções antes de atores, a pergunta central é o que precisa continuar depois da queda de uma liderança. Se outra pessoa assume a comunicação, a cobrança ou a arbitragem, o sistema preserva sua capacidade. O resultado operacional depende do custo e do tempo necessários para recompor cada função.
Os acoplamentos da governança criminal ficam mais claros quando acompanhamos essas substituições. A rede pode perder um chefe e conservar acesso institucional, receitas, proteção local e capacidade de punir. A mudança de nomes não altera a configuração quando as relações decisivas permanecem disponíveis.
Como saber se os acoplamentos mudaram depois da intervenção?
Prisões e apreensões registram atividade estatal. Para avaliar a transformação, gestores precisam observar quem voltou a regular, cobrar, proteger, arbitrar e controlar a circulação depois da operação.
As perguntas divulgadas com o estudo oferecem boas entradas: policiais conseguem atuar sem negociar? Professores e profissionais de saúde circulam livremente? Empresas abrem sem autorização informal? Esses sinais indicam onde olhar, mas um sensor exige acompanhamento, comparação temporal e relação com a função observada.
Na postagem A operação funcionou mesmo? Sensores de Adaptação, indicadores de esforço recebem uma segunda camada. O gestor acompanha velocidade de substituição, deslocamento territorial, estabilidade de preços, retorno de funções, mudanças de comunicação e alterações nas regras impostas aos moradores.
- Autonomia institucional: agentes públicos recuperaram capacidade de entrar, fiscalizar e decidir sem autorização ilícita?
- Continuidade funcional: novos atores reassumiram cobrança, disciplina, comunicação ou arbitragem?
- Dependência econômica: comerciantes continuam pagando, comprando de fornecedores, impostos ou usando serviços controlados?
- Recomposição territorial: a atividade desapareceu, migrou, ficou menos visível ou retornou com novas regras?
A operação funcionou mesmo? Sensores de Adaptação
Antes de comemorar o resultado, observe recomposição funcional, deslocamento de rotas, sucessores ativos e mudança no regime de operação.
O estudo mostra onde observar. Os sensores permitem acompanhar o que mudou. Essa passagem transforma os acoplamentos da governança criminal em unidade prática de avaliação, sem reduzir a análise a uma contagem de operações.
O que os regimes de operação acrescentam à análise?
Dizer que uma organização governa identifica uma atividade. Ainda falta compreender a configuração que tornou essa atividade estável e como ela pode reagir a novas pressões.
Os próprios autores reconhecem que sua medida reúne experiências muito diferentes. Uma pequena gangue que proíbe roubos perto de um mercado, uma rede que regula amplamente uma comunidade e um cartel associado a autoridades locais entram no mesmo indicador de prevalência. A atividade observada é semelhante, mas as relações que a sustentam podem variar radicalmente.
O canônico O tetraedro das organizações criminosas e seus regimes ajuda a distinguir estabilização local, adaptação contínua e desorganização episódica. A mesma operação pode reduzir violência em um território, acelerar a aprendizagem em outro e ampliar a disputa em um terceiro.
A governança criminal informa que o grupo produz regras. Os acoplamentos mostram como ele mantém essa capacidade. As funções revelam o que precisa sobreviver. Os regimes indicam como a configuração opera naquele período. Os sensores permitem verificar se a intervenção alterou o sistema ou apenas modificou sua aparência.
Conceitos deste artigo
Governança criminal: imposição de regras ou restrições por organizações criminosas sobre mercados, atores ilícitos ou civis, com efeitos sobre ordem, proteção, circulação e acesso a serviços.
Acoplamento: relação funcional e recorrente pela qual elementos de diferentes dimensões ou sistemas passam a sustentar capacidades uns dos outros. O pneu representa o acoplamento entre um carro e o solo. Sem ele, tudo pode estar funcionando, mas não há movimento sustentável do veículo.
Função criminal: atividade que o sistema precisa preservar, como comunicação, cobrança, proteção, logística, arbitragem ou disciplina, independentemente de quem a execute.
Regime de operação: configuração relativamente estável de coordenação, adaptação e acoplamentos que orienta como o sistema criminal funciona e responde à pressão.
Qual acoplamento precisa ser desfeito primeiro?
O estudo amplia a escala da governança criminal na América Latina, mas a sua contribuição mais fértil está em deslocar a pergunta. Estado e crime podem permanecer presentes no mesmo território. O desafio consiste em identificar quais são as relações que transformam:
- a presença em autoridade;
- os recursos em proteção; e
- a pressão estatal em aprendizagem criminal.
Os acoplamentos da governança criminal tornam essa arquitetura visível. Eles mostram por que algumas operações retiram atores sem alterar funções e por que certas formas de ordem aparente protegem mercados, conexões institucionais e capacidades de recomposição. A próxima decisão já não é apenas onde intervir, mas qual relação precisa perder sua utilidade para que a governança deixe de se reorganizar.
Caminho principal: acompanhe a resposta do sistema
A operação funcionou mesmo? Sensores de Adaptação mostra como transformar substituição, deslocamento e retorno de funções em acompanhamento posterior à intervenção.
Duas rotas para aprofundar a estrutura dos acoplamentos
Entenda a conexão institucional. Em Corrupção como Acoplamento, veja como informação, proteção e previsibilidade produzidas dentro do Estado podem fortalecer a aprendizagem criminal.
Analise a base econômica. Em Crime como infraestrutura, acompanhe como mercados, logística e proteção preservam o funcionamento mesmo depois de prisões e apreensões.
Referência empírica principal
URIBE, Andres; LESSING, Benjamin; SCHOUELA, Noah; STECHER, Elayne. Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates. Perspectives on Politics, v. 24, n. 1, p. 124-142, 2026.


