A proxêmica na comunicação não verbal.
Termo criado por Edward T. Hall, a proxêmica refere-se “às observações e teorias inter-relacionadas, relativas ao uso que o homem faz do espaço como elaboração especializada da cultura.”
Parte componente da comunicação não verbal, este assunto é fascinante e ao mesmo tempo de extrema relevância, pois é parte integrante do nosso comportamento, e mais: rege nossa relação com o mundo, a sobrevivência e o desenvolvimento da tecnologia.
Já debatemos alguns artigos que se utilizavam de princípios da proxêmica aqui no portal IBRALE, dois exemplos:
(1) “Diz-me onde sentas, e te direi quem és”
(2) “Prezado cliente, sinta-se em casa!”
Mais artigos na série “Marketing, publicidade e vendas.“
Componentes da comunicação não verbal.
Deixemos claro inicialmente as áreas que compõem a comunicação não verbal, o artigo “O que é Comunicação Não Verbal?“, de autoria do Dr. Sérgio Senna, destaca o seguinte texto:
“Campos de estudo da comunicação não verbal
Knapp (1972), em uma tentativa de sistematizar os campos da comunicação não verbal, propôs o seguinte:
a) cinésica (movimento do corpo);
b) proxêmica (uso e organização do espaço físico);
c) paralinguagem (modificação das características sonoras da voz);
d) tacêsica (linguagem do toque); e
e) características físicas (forma e aparência do corpo).”

Iremos explicar ao longo de diversos artigos, especificamente, o uso do espaço na comunicação não-verbal, ou seja, como o homem estrutura ( consciente ou não-consciente) seu próprio espaço e como esta relação é determinada pelos aspectos culturais e sensoriais (visual, auditivo, olfativo e tátil), estes aspectos sofrem “ajustes” de cultura para cultura (Norte-Americanos possuem uma relação com seu meio, bem diferente dos alemães ocidentais, por exemplo).
A proxêmica estuda o espaço em três perspectivas: Fixas (ex.: paredes e portas), semi-fixas (ex.: mobiliários) e o espaço das relações interpessoais (interação humana).
Imagine que a proxêmica está presente em algumas situações possíveis do nosso nascimento, como no cenário proposto no artigo “Comunicação proxêmica entre mãe e recém-nascido de risco na unidade neonatal“, na nossa relação com os demais, durante o percurso de nossa vida, conforme abordagem do artigo “Análise da proxêmica na comunicação com pacientes portadores de HIV/AIDS” e no final de nossas vidas, conforme pode ver no artigo “Proxêmica: As situações reconhecidas pelo idoso hospitalizado que caracterizam sua invasão do espaço pessoal e territorial.”
Como podem perceber, temos infinitas formas de explorar o assunto, por isso minha admiração por este tema.
Iremos ainda entender conceitos como zona de fuga, zona crítica, espaço íntimo, pessoal, social e público, entre outros conceitos, que tendo-os em mente, podemos utilizá-los em nossas relações cotidianas, visando tornar nosso ambiente mais favorável ao nosso bem-estar.
Espaço Pessoal
O espaço pessoal é um conceito antigo e vem sendo estudado há algum tempo (Burgoon & Jones, 1976; Ciolek, 1983; Hall, 1966; Sommer, 1959), é mais uma sensação invisível, é uma “bolha” ajustável que as pessoas percebem ao seu redor. Invadir essas distâncias pode causar extremos desconforto. Por outro lado, quando desejado, a proximidade pode ser muito gratificante. Então, o espaço pessoal é um conceito e uma realidade muito particular para cada um de nós. A sua valência [positiva-negativa] depende da percepção subjetiva e da autorização para que essas distâncias imaginárias sejam diminuídas.
Estudos recentes, sugerem a necessidade de ampliação da definição de espaço pessoal para incluir “não apenas a bolha invisível ao redor do corpo, mas todas as os sentidos”, com o espaço pessoal sendo violado por ruídos altos, cheiros desagradáveis, os telefones celulares das pessoas tocando, ou alguém olhando para você em um elevador (Chávez & Hill, 2021; Trotta, 2020).

Proxêmica, entendendo melhor o espaço que nos rodeia.
Gostaria que assistissem o vídeo abaixo, foi um trabalho de alunos do curso de Psicologia, acredito ter sido feito aqui mesmo no Brasil.
Podemos ter um exemplo bastante interessante, de uma experiência prática, e como podemos nos tornar invasores do espaço alheio, a ponto de gerar motivação no comportamento das pessoas que nos rodeiam. O vídeo se utiliza de todos os componentes da comunicação não-verbal (cinésica, proxêmica, paralinguagem, tacênica e características físicas), e não somente da proxêmica, como nos informa o título do vídeo, mas é bem interessante.
“Proxêmia- Distância entre indivíduo.” Vídeo desenvolvido para a disciplina de Proxêmia.
Perceberam como, sem expressar nenhuma palavra ou contato físico, podemos influenciar no comportamento do próximo? Evidentemente que foi um experimento bastante simples, mas que ilustra o básico.
Diferentemente do tema proposto pelos autores do vídeo (proxêmica), as justificativas por eles apresentadas para destacar o desconforto (retirar os pertences e apresentar certos gestos) são temas da cinésica (que estuda a parte do movimento e suas interpretações).
No que diz respeito à proxêmica, podemos perceber os seus aspectos quando analisamos a disposição das mesas (semi-fixas), o seu formato e a aproximação de um desconhecido, sem falar a razão pela qual se aproximava, que foi “agravada” pelo fato do espaço ainda dispor de mesas desocupadas.
Vamos ao longo de outros artigos, aprofundar nossa viagem neste instigante tema, em uma tentativa de explicá-lo um pouco mais, partindo do básico e rumando ao encontro dos estudos mais recentes. Neste artigo temos um panorama geral e introdutório, recomendo que assistam o vídeo e leiam os artigos destacados.
Novidades na Proxêmica
Estudo da Universidade de Stanford (Bailenson & Blascovich, 2011) mostrou que as pessoas que jogam um jogo de realidade virtual chamado Second Life moveram seus avatares (a representação digital de si mesmos no jogo) quando outros avatares ou objetos ficaram muito próximos a eles, o que espelha o que as pessoas fazem em vida real quando seu espaço é invadido. Estudos mais recentes mostram conclusões semelhantes (Ionescu, 2021; Hofman, Walters & Hughes, 2022; Scarborough & Bailenson, 2014).
O conceito de espaço pessoal visual também ajuda a explicar por que escurecer as luzes cria um ambiente mais aconchegante para conhecer alguém – reduz o nível geral de estimulação sensorial (Engineer, Sternberg & Najafi, 2018)
Saudações e prossiga acompanhando os nossos artigos.
Conteúdo atualizado e ampliado por Sergio Senna com a colaboração de Edinaldo Oliveira
Referências
Bailenson, J. N., & Blascovich, J. (2011). This is your mind online. IEEE Spectrum, 48(6), 78-83.
Burgoon, J. K., & Jones, S. B. (1976). Toward a theory of personal space expectations and their violations. Human communication research, 2(2), 131-146
Chávez, K. R., & Hill, A. (2021). The Visual and Sonic Registers of Neighbourhood Estrangement. Journal of Intercultural Studies, 42(1), 68-83.
Ciolek, T. M. (1983). The proxemics lexicon: A first approximation. Journal of Nonverbal Behavior, 8, 55-79.
Engineer, A., Sternberg, E. M., & Najafi, B. (2018). Designing interiors to mitigate physical and cognitive deficits related to aging and to promote longevity in older adults: a review. Gerontology, 64(6), 612-622.
Hall, Edward. “A dimensão oculta”.2ª edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora S.A. 1981. Edição original em inglês The Hidden Dimension.. Anchor Books, 1966
Hofman, K., Walters, G., & Hughes, K. (2022). The effectiveness of virtual vs real-life marine tourism experiences in encouraging conservation behaviour. Journal of Sustainable Tourism, 30(4), 742-766.
Ionescu, A. (2021). Does it have to be human to be credible? perception of digital avatars communications in helthcare sector. Analele Universitatii” Constantin Brancusi” din Targu Jiu. Serie Litere si Stiinte Sociale, (2), 117-127.
Knapp, M. L., Hall, J. A., & Horgan, T. G. (2013). Nonverbal communication in human interaction. Cengage Learning.
Prochet, T. C., & Silva, M. J. P. D. (2008). Proxêmica: as situações reconhecidas pelo idoso hospitalizado que caracterizam sua invasão do espaço pessoal e territorial. Texto & Contexto-Enfermagem, 17, 321-326.
Scarborough, J. K., & Bailenson, J. N. (2014). Avatar psychology. The Oxford handbook of virtuality, 129-144.
Sommer, R. (1959). Studies in personal space. Sociometry, 22(3), 247-260.
Trotta, F. (2020). Annoying music in everyday life. Bloomsbury Publishing USA.