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Como setores econômicos podem fortalecer a inteligência contra o crime organizado

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No Congresso FIESP de Segurança Pública, em 2026, várias exposições acabaram convergindo sobre uma dificuldade prática. A inteligência econômico-setorial ganhou relevância justamente porque quem atua diariamente em uma cadeia produtiva percebe alterações que dificilmente aparecem com a mesma rapidez nas estruturas públicas. O Estado, por sua vez, investiga, fiscaliza e reúne informações que nenhuma empresa poderia obter por conta própria.

Preços, fornecedores, rotas, margens e mudanças operacionais fazem parte dessa experiência cotidiana. Quando organizações criminosas entram em setores econômicos regulares, passa a importar também a forma como o crime organizado funciona como infraestrutura, utilizando mercados, logística e estruturas legítimas para preservar suas atividades.

As apresentações sobre combustíveis e cibersegurança permitiram observar esse problema em situações bastante diferentes. Em ambas, as empresas apareciam como vítimas de práticas criminosas, mas também como fontes de conhecimento sobre mudanças ocorridas dentro dos próprios mercados.

O crime organizado já conhece a cadeia produtiva

Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal, descreveu uma transformação no mercado de combustíveis. A sonegação continua relevante, assim como adulteração e fraudes encontradas no varejo, mas organizações criminosas passaram a explorar etapas muito anteriores da cadeia.

Kapaz usou uma expressão que resume bem essa extensão: o crime opera “do poço ao posto”. Falou de logística, transporte, terminais e estruturas financeiras e associou parte desse conhecimento ao trabalho que antecedeu a Operação Carbono Oculto. Segundo ele, as autoridades precisavam compreender como determinados agentes funcionavam dentro de uma cadeia bastante especializada, e o setor privado ajudou a tornar essas relações mais visíveis.

Quem conhece combustíveis sabe quando determinados preços deixam de fazer sentido, quando uma operação apresenta margens incompatíveis com os custos regulares ou quando um participante cresce em condições difíceis de explicar apenas pela dinâmica normal do mercado. O mesmo raciocínio pode valer para logística, telecomunicações, sistema financeiro ou outros segmentos.

Isso não transforma uma anomalia em prova criminal. Um preço estranho pode ter várias explicações. A relevância aparece porque alguém que conhece profundamente aquela atividade percebe cedo que existe algo a conferir.

Kapaz chamou atenção justamente para essa experiência acumulada. Empresários reconhecem concorrentes que praticam preços incompatíveis com os custos de quem recolhe tributos e cumpre as regras do setor. Quando essas percepções permanecem espalhadas entre empresas, seu alcance é pequeno. Organizadas e relacionadas a outras informações, podem orientar uma fiscalização ou uma investigação muito melhor direcionada.

O que uma empresa aprende pode proteger outras

A discussão sobre segurança cibernética levou o problema para outro ambiente.

Osvaldo Maia, do SENAI, apresentou o Industry Information Sharing and Analysis Center, o ISAC da indústria. A proposta reúne compartilhamento e análise de informações para que experiências ocorridas em uma organização possam ajudar outras empresas submetidas a ameaças semelhantes.

Rony Vainzof explicou uma dificuldade bastante concreta. Empresas atacadas evitam muitas vezes divulgar incidentes por receio de dano à reputação, problemas jurídicos ou exposição de vulnerabilidades perante concorrentes. Para o criminoso, esse isolamento é conveniente.

Vainzof resumiu a consequência numa frase que vale guardar: “o custo desse silêncio é coletivo”. Uma técnica bem-sucedida pode atingir uma empresa e depois reaparecer em várias outras, enquanto cada vítima tenta compreender sozinha o que aconteceu. Quando há compartilhamento, a empresa atingida ajuda o restante do setor a reconhecer aquele padrão mais cedo.

Segundo foi informado no evento, a FIESP já mantém acordo de cooperação técnica com a Polícia Federal que permite anonimizar dados empresariais durante o compartilhamento de informações sobre ataques. A experiência indica uma saída interessante: preservar aquilo que precisa permanecer protegido e fazer circular o conhecimento que pode impedir a repetição do ataque. Esse é também o problema discutido quando analisamos como transformar informação em aprendizagem institucional.

Essa lógica interessa ao crime organizado para além do ambiente digital. Uma nova forma de fraude financeira, uma empresa de fachada, determinado arranjo logístico ou uma modalidade de infiltração pode aparecer primeiro em um setor e depois migrar para outros. Isso faz parte de como o crime organizado aprende com as respostas que encontra. Se cada segmento guardar sua experiência, o Estado receberá fragmentos separados de uma dinâmica que atravessa vários mercados.

Há informação que só aparece para quem está dentro do setor

Esse problema me interessa há algum tempo. No preprint Business Intelligence Integrada ao SISBIN: fundamentos para um marco normativo de proteção econômica, examinei como o conhecimento produzido dentro dos setores econômicos poderia contribuir para a inteligência pública sem transferir às empresas atribuições que pertencem ao Estado.

A diferença entre as capacidades é bastante concreta. Empresas conhecem seus mercados, operações e cadeias. Trabalhadores acompanham rotinas que nem sempre aparecem nos relatórios gerenciais. Entidades representativas conseguem comparar situações entre organizações do mesmo segmento. O Estado reúne outras informações e possui competências para investigar, fiscalizar e decidir sobre providências previstas em lei.

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Uma percepção empresarial, isoladamente, continua sendo uma percepção. Ela ganha outra qualidade quando alguém compara ocorrências, identifica recorrências e acrescenta contexto. A partir daí, as instituições públicas podem confrontar aquele sinal com informações de outras origens e avaliar se existe alguma razão para agir. É nessa qualidade das passagens entre informação e decisão que uma observação dispersa pode ganhar utilidade institucional.

O modelo desenvolvido no estudo trabalha justamente com essa passagem. Em vez de uma transferência indiscriminada de bases de dados, empresas e entidades podem produzir análises direcionadas a necessidades específicas. Os dados brutos permanecem com quem os detém e circula aquilo que efetivamente interessa à decisão.

Essa divisão preserva responsabilidades. Empresas não realizam operações próprias da inteligência estatal e não recebem acesso indiscriminado a bases públicas. Informações empresariais e pessoais precisam de proteção, e qualquer análise destinada a orientar uma ação pública precisa passar por procedimentos de verificação e controle.

Há ainda um componente que merece mais atenção. Um trabalhador pode perceber uma mudança de rotina, uma ordem incomum ou a chegada de um fornecedor estranho muito antes que aquilo apareça num sistema corporativo. Essa informação nasce em outro lugar da cadeia e pode completar algo que dirigentes e autoridades enxergam apenas parcialmente.

A Itália encontrou o mesmo problema na economia legal

Giovanni Tartaglia Polcini abordou essa relação ao apresentar a experiência italiana contra as máfias. Parte significativa de sua fala tratou justamente da presença criminosa na economia formal, em empresas, licitações, contratos e diferentes atividades produtivas.

Tartaglia foi cuidadoso ao definir os papéis. O setor privado participa, mas cada instituição mantém suas atribuições. A razão é prática: uma organização criminosa que se infiltra na economia não pode ser compreendida apenas a partir de ocorrências de rua ou de processos judiciais. Parte de sua capacidade passa a existir dentro de atividades regulares.

Em outro trecho, ele defendeu que a cooperação deixe de ocorrer apenas em ocasiões excepcionais. Segurança, política econômica, administração penitenciária e setor privado precisam manter algum grau de interlocução permanente diante de organizações que circulam entre esses ambientes com muito mais facilidade.

Esse talvez seja o desafio brasileiro mais difícil. Operações de grande repercussão conseguem juntar instituições e setores quando a ameaça já se tornou visível. Depois, equipes mudam, prioridades se alteram e boa parte das relações construídas durante a crise se perde.

Enquanto isso, as cadeias produtivas continuam funcionando todos os dias e continuam produzindo informação sobre aquilo que mudou.

Mais capacidade de observar antes de agir

O Congresso FIESP trouxe situações diferentes, mas todas apontaram para a mesma possibilidade. Há conhecimento relevante para a segurança pública sendo produzido fora das instituições tradicionais de segurança.

O setor de combustíveis reconhece alterações na própria cadeia. Empresas atacadas aprendem como determinadas técnicas funcionam. Trabalhadores acompanham rotinas que escapam aos registros formais. Entidades econômicas conseguem comparar situações entre organizações que, isoladamente, enxergam apenas a própria experiência.

A contribuição desses atores está justamente aí. O Estado continua responsável pelas decisões que exigem autoridade pública, mas passa a receber sinais de lugares aos quais normalmente chega mais tarde.

O desafio começa quando tentamos transformar essa capacidade dispersa em algo permanente. Como fazer circular conhecimento sem expor segredos empresariais? Como evitar conflitos de interesse? Quem verifica a qualidade das análises? O que pode ser compartilhado e o que deve permanecer restrito? Como impedir que uma estrutura criada para enfrentar o crime seja usada em disputas comerciais ou políticas?

Essas perguntas levam a uma discussão institucional mais ampla. No estudo Business Intelligence Integrada ao SISBIN: fundamentos para um marco normativo de proteção econômica, desenvolvo uma proposta para organizar inteligência econômico-setorial, produtos de inteligência, canais de cooperação e salvaguardas para sua possível articulação com o Sistema Brasileiro de Inteligência.

Para avançar dessa experiência prática para a arquitetura institucional, consulte o estudo completo: Business Intelligence Integrada ao SISBIN: fundamentos para um marco normativo de proteção econômica.

Capa visual do estudo Business Intelligence Integrada ao SISBIN sobre proteção econômica e inteligência econômico-setorial

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