As esferas de análise do comportamento: a filogênese do medo

Diversos posts aqui no Ibralc são baseados no constructo das emoções básicas, que seriam aquelas mais simples e compartilhadas por todos os humanos independentemente da cultura, inclusive, por outros animais também.

A compreensão dessas emoções depende fortemente de uma boa base de conhecimentos em evolução. Sobretudo, aplicada ao comportamento. 

É comum pensarmos que uma análise desse tipo reduz o comportamento humano e desconsidera seu poder de abstração simbólica e modificação pelo meio. Nesse sentido, acho essencial mostrar que não trata-se disso.

Como primeiro post com foco nesse assunto aqui no Ibralc, achei interessante abordar suas bases para que o leitor não fique com uma impressão errônea da abordagem.

Os quatro porques de Nikolaas Tinbergen

Em meados do século XX, o proeminente etólogo Nikolaas Tinbergen postulou duas abordagens teóricas para estudar o comportamento animal – que também podem ser aplicadas ao comportamento humano: as causas próximas e as distantes.

As causas Próximas

Tinbergen

 Considere como exemplo o medo. Qual sua causa? Essa pergunta pode ser respondida sob diversos ângulos. O primeiro deles pode ser o fisiológico. Como o corpo reage quando somos tomados pelo medo? A condutância da pele aumenta, o fluxo sanguíneo é direcionado para os membros inferiores, a frequência dos batimentos cardíacos aumenta e etc. Podemos ainda mencionar a fisiologia cerebral, caracterizada principalmente por intensa ativação de uma estrutura límbica chamada amígdala.

Podemos responder a questão invocando também a ontogênese, ou seja, a história do indivíduo. Um exemplo icônico é o das fobias. Praticamente qualquer estímulo pode ser desencadeador desse transtorno, desde bananas até serpentes.

O estabelecimento dessa resposta patológica ao estímulo é fruto geralmente de alguma experiência traumática em algum momento da vida. Isto é, através da neuroplasticidade a resposta normal de medo pode ser modulada por alguma experiência, tanto para o bem quanto para o mal, no último caso, resultando em fobias – um medo desproporcional em relação a algo que, muitas vezes, nem representa o mínimo perigo real.

[box]Para ver um exemplo de como podemos modular o cérebro à nosso favor, veja o texto sobre as extraordinárias respostas dos monges budistas tibetanos.[/box]

Na ontogênese também é considerada a cultura em que o indivíduo está inserido. Se compararmos a nossa com a de nativos caçadores-coletores de Papua Nova Guiné, veremos que há grandes diferenças entre o que é temido numa e em outra cultura. Por exemplo, dificilmente um nativo dessa área temerá uma arma de fogo se vir uma. Nós, todavia, provavelmente reagiremos de forma mais acentuada pois sabemos o que é aquilo e qual seu potencial de destruição.

Outra esfera de análise dentro das causas próximas é a história evolutiva. Como o medo aparece em outras espécies? Se analisarmos a atividade cerebral dessa emoção, perceberemos que ela diferente muito pouco entre os mamíferos, inclusive humanos.

O circuito do medo no ser humano se divide em dois: aquele em que o impulso vai direto para a amígdala e outro que passa primeiro pelo córtex pré-frontal. O primeiro caminho é aquele que também está espalhado pelo reino animal, fazendo com que as respostas de medo sejam sempre automáticas. A segunda é específica do ser humano, já que somos a única espécie com um córtex pré-frontal tão avantajado, área capaz de exercer controle sobre essas respostas automáticas típicas de estruturas do sistema límbico.

Agora fechamos as chamadas causas próximas. Esse conjunto de planos de análise é invocado sempre que somos solicitados a explicar o porquê de algum comportamento.

Causas Últimas

Por último, temos as causas últimas. Esse grupo de causas refere-se à utilidade evolutiva do comportamento analisado. Assim, podemos mostrar como a emoção do medo pôde ser útil aos nossos ancestrais e ajudá-los em sua sobrevivência e passagem de seus genes adiante.

Tentativa de simulação de expressão de medo em boneco

Ao contrário das próximas, as causas últimas não podem ser usadas para explicar o porquê de determinado comportamento num sentido causal. Elas são úteis, entretanto, para lançar luz sobre a questão de por qual motivo tal repertório de respostas do organismo se colocam para nós.

Por exemplo, por que o mecanismo do medo é flexível a ponto de sentirmos medo de coisas inusitadas, impensáveis para outras pessoas? Por que numa situação de ameaça de agressão física, uma pessoa geralmente foge ou ataca?

E, claro, esses argumentos servem para explicar o motivo pelo qual existem expressões faciais específicas para cada emoção, bem como um conjunto peculiar de reações fisiológicas.

Esse texto foi só um pano de fundo para os que virão, para que o leitor já tenha uma plataforma teórica sólida que sustente suas questões e insights sobre os próximos textos com esse viés evolucionista.

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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

. As esferas de análise do comportamento: a filogênese do medo. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/as-esferas-de-analise-do-comportamento-a-filogenese-do-medo/> . Acesso em 3 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

. (). As esferas de análise do comportamento: a filogênese do medo. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 3 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/as-esferas-de-analise-do-comportamento-a-filogenese-do-medo/.

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Estudante de psicologia, com interesse em psicologia cognitiva, psicologia evolucionista, neuropsicologia e neurociência. Atualmente estudo as expressões faciais das emoções básicas sob a perspectiva evolucionista e neurocientífica. Editor do blog de variedades www.nerdworkingbr.blogspot.com
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