No Congresso FIESP de Segurança Pública, o procurador italiano Giovanni Tartaglia Polcini recuperou uma imagem do magistrado Giovanni Falcone para explicar a infiltração mafiosa. A máfia se comporta como um líquido diante de um sólido: encontra dificuldade onde instituições, economia e sociedade mantêm coesão e procura passagem onde surgem fissuras. A infiltração do crime organizado obrigou o Estado italiano a olhar além de quem integrava formalmente a organização.
Tartaglia desenvolveu a metáfora ao examinar organizações capazes de combinar violência, atividade empresarial, corrupção e influência institucional. A experiência italiana obrigou o Estado a olhar além de quem integrava formalmente a organização. Prisões e apreensões podiam atingir pessoas e patrimônio sem necessariamente interromper as relações que forneciam dinheiro, proteção, informação ou comando.
No IBRALC, o conceito de acoplamento nos permite avançar a partir dessa imagem. A fissura indica uma possibilidade de entrada. O acoplamento identifica a relação que efetivamente se estabeleceu, a função que ela entrega à rede e a dependência criada a partir dela.
Um problema italiano que já alcançou o PCC
Tartaglia aproximou a experiência italiana do Brasil ao relatar a Operação Sampa, investigação realizada em Turim contra o tráfico de drogas. Segundo sua exposição, autoridades italianas aplicaram a integrantes do Primeiro Comando da Capital uma qualificação relacionada à criminalidade de tipo mafioso.
Na experiência descrita por Tartaglia, identificar uma organização mafiosa exige observar a estrutura interna e as relações que ampliam sua capacidade de atuação. Comando, presença econômica, acesso a instituições e conexões com atividades lícitas passam a integrar o diagnóstico.
Por isso, corrupção, lavagem de capitais e cárcere ocuparam posição central em sua conferência. Os três ambientes permitem à organização utilizar capacidades que não estão necessariamente dentro de sua estrutura formal.
| Canal destacado por Tartaglia | Capacidade que pode entregar à organização |
|---|---|
| Corrupção | Acesso, informação, proteção e influência na administração pública. |
| Lavagem de capitais | Circulação patrimonial e presença na economia lícita. |
| Controle das prisões | Comando, recrutamento e preservação de relações a partir do cárcere. |
A investigação continua buscando autores, operadores e lideranças. Tartaglia acrescenta outra tarefa: localizar as relações que mantêm disponíveis dinheiro, proteção e comando.
Da fissura ao acoplamento
Uma fragilidade administrativa pode permanecer durante anos sem produzir benefício para uma organização criminosa. A situação ganha outra natureza quando uma liderança estabelece relação recorrente com um agente público capaz de fornecer informação, interferir numa fiscalização ou proteger determinada atividade.
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É nessa passagem que o conceito de acoplamento ganha utilidade. A fragilidade oferece a oportunidade; a relação estabelecida passa a fornecer uma função.
Para o gestor, isso produz perguntas mais específicas do que a procura genérica por vulnerabilidades: quem está conectado a quem, o que circula nessa ligação, quanto a organização depende dela e com que facilidade conseguiria substituí-la?
Uma rede pode trocar rapidamente um intermediário pouco especializado. Outra conexão concentra informação, acesso ou confiança e sustenta várias operações ao mesmo tempo. Romper essas relações produz consequências muito diferentes, embora ambas possam parecer semelhantes quando observadas apenas como “fissuras”.
Tartaglia não empregou o conceito de acoplamento. O que descreveu, entretanto, permite identificá-lo com bastante clareza em corrupção, lavagem, relações empresariais e controle prisional. O vocabulário sistêmico acrescenta precisão operacional sem alterar o diagnóstico que ele apresentou.
Quando a corrupção deixa de ser episódica
Tartaglia diferenciou estágios de corrupção observados na experiência italiana. No nível mais simples, alguém paga uma propina para obter determinado favor. Em seguida aparecem agentes que passam a colocar sua função pública repetidamente a serviço da organização. Em situações mais avançadas, interesses criminosos conquistam presença estável dentro da administração e podem alcançar posições de maior influência.
Uma propina produz uma vantagem determinada. A relação continuada pode oferecer informação, acesso ou proteção sempre que a organização necessita.
Quando isso ocorre, a corrupção passa a funcionar como acoplamento. A responsabilização individual permanece necessária, enquanto a investigação precisa reconstruir a relação que transformou aquela conduta em capacidade recorrente da rede.
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Tartaglia apresentou ainda o que chamou de “triângulo vicioso”. Em um vértice está a estrutura criminosa; nos demais aparecem atores que a auxiliam na administração pública e na economia. Corrupção e lavagem podem existir sem uma organização mafiosa. As máfias de maior capacidade, segundo sua exposição, dependem dessas conexões para manter presença institucional e econômica.
A economia amplia as possibilidades de infiltração
Empresas, contratos, obras e licitações também ocuparam espaço relevante na conferência. Tartaglia explicou que a influência criminosa pode anteceder a própria competição formal. Em determinados casos, começa na definição da obra, alcança as condições estabelecidas para sua execução e interfere em quem consegue participar.
Nesse estágio, procurar somente irregularidades no edital pode revelar uma parte tardia da infiltração. Relações construídas anteriormente já podem ter influenciado decisões, informações e condições de acesso ao contrato público.
Tartaglia também chamou atenção para novas formas de patrimônio. Enquanto investigadores aperfeiçoam técnicas para localizar bens tradicionais, integrantes de organizações como PCC e ’Ndrangheta já exploram criptomoedas e aplicações baseadas em blockchain. O desafio está no intervalo entre a adaptação dos operadores criminosos e a capacidade institucional de acompanhá-la.
Esse problema aparece de forma mais ampla em Por que o crime organizado aprende mais rápido que o Estado?. Uma conexão interrompida pode ser substituída por outra; por isso, a investigação precisa observar também o que surge depois da intervenção.
Quando o cárcere mantém aquilo que deveria retirar
O caso prisional deu à exposição um exemplo particularmente concreto. Tartaglia recuperou a experiência da Nova Camorra Organizzata, a Nova Camorra Organizada, que se desenvolveu dentro do cárcere sob a liderança de um preso. A organização recrutava, fortalecia vínculos e difundia aprendizagem criminal dentro da própria instituição penitenciária.
A prisão retirava liberdade de circulação, mas determinadas lideranças continuavam comandando relações externas e influenciando outros presos. A custódia física, portanto, não eliminava todas as funções organizacionais.
O problema fica mais preciso quando identificamos as conexões que permanecem ativas. Lideranças podem transmitir ordens, distribuir proteção, recrutar integrantes e conservar contato funcional com operadores externos. Enquanto essas relações funcionam, parte do poder criminal sobrevive ao encarceramento.
Tartaglia situou o artigo 41-bis do ordenamento penitenciário italiano dentro dessa necessidade. Separação, controle de comunicações e inteligência penitenciária procuram impedir que determinadas lideranças continuem exercendo funções mafiosas. O regime conhecido na Itália como carcere duro, prisão de maior rigor, interessa estrategicamente porque busca romper relações de comando.
A questão deixa então de ser apenas quanto rigor aplicar a determinado preso. O problema operacional passa a ser identificar qual conexão permite que ele continue comandando apesar da prisão.
O que a experiência italiana ensina a procurar
A imagem de Falcone indica onde começar: procurar as fissuras pelas quais uma organização alcança instituições, economia e prisões. Tartaglia mostrou que algumas dessas passagens permitem acesso episódico, enquanto outras se transformam em relações estáveis capazes de fornecer funções essenciais.
O conceito de acoplamento ajuda a distinguir essas situações. Uma empresa ganha relevância quando conecta patrimônio ilícito à economia formal. Um agente público torna-se estratégico para a rede quando entrega informação ou proteção de forma recorrente. Uma liderança presa conserva poder enquanto mantém relações capazes de transmitir comando e sustentar recrutamento.
A experiência apresentada por Giovanni Tartaglia Polcini orienta, assim, uma pergunta mais precisa do que simplesmente saber onde o Estado é vulnerável. É preciso descobrir quais relações permitem que a organização utilize capacidades externas à sua própria estrutura e quais delas produzirão maior perda quando forem rompidas.

