Interpretar não é adivinhar

Há tempos venho querendo escrever sobre esse tema. Faço alertas nas entrelinhas de alguns de meus artigos, mas nunca redigi um texto somente sobre as tão comuns adivinhações na interpretação da linguagem corporal.

Para ilustrar e iniciar a nossa conversa, assista um pequeno trecho do primeiro filme Sherlock Holmes:

Essa breve cena é bastante esclarecedora. Quando observamos indicadores, tecemos as conexões entre eles. Essas conexões, é óbvio, são conjecturas de probabilidade.

O analista cuidadoso nunca esquece que o comportamento é multideterminado! Isso significa que podem existir diversas relações de causa e consequência entre os comportamentos que observamos e as suas verdadeiras razões.

Em nosso exemplo, o sagaz Sherlock Holmes atribuiu à ganância da noiva de Watson o fato de não ser mais noiva. Afinal, segundo ele, depois de descobrir que seu noivo não seria tão vantajoso, deixou-o para buscar alguém mais “interessante”.

O momento em que a jovem senhora joga o vinho na cara de Holmes é magistral. Uma das minhas cenas prediletas nesse filme! Pura indignação com a falta de respeito.

Já experimentei isso ao ver como algumas pessoas adivinham as emoções e sentimentos dos outros de forma tão irresponsável quanto a representada na cena desse filme. Sherlock Holmes, nessa cena, não analisa linguagem corporal, mas os passos que segue para realizar as conexões entre as suas observações e tirar as conclusões são os mesmos de quem observa o comportamento não verbal. Sobre isso, leia o artigo: Dedução e Análise do Comportamento.

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Vejo, na Internet, pessoas fazendo verdadeiros rosários de ilações a partir de fotos. Um exemplo disso, foram as interpretações publicadas na Rede a partir de fotos da família de policiais militares mortos em São Paulo, aparentemente pelo filho, caso nacionalmente famoso.

Esse tipo de coisa me lembra Lombroso, que desejava prever o comportamento criminoso a partir das medidas do corpo, algo que foi abominado na época e que continua sendo abominável hoje.

Psicologia não é adivinhação!  Existem princípios que orientam o comportamento humano. Cada abordagem em Psicologia reúne um conjunto coeso desses princípios e o fato de não termos apenas um deve-se, entre outros motivos, à complexidade do funcionamento biológico e do psiquismo humano.

Imagino que, um dia, nascerá alguém que consiga encontrar uma forma de compatibilizar a visão fragmentada do ser humano e será criada uma teoria geral do psiquismo humano e não haverá, por exemplo, oposição entre princípios behavioristas e psicanalíticos. Entretanto, estamos ainda distantes desse dia.

Meu caro leitor, preciso dizer que isso é péssima psicologia e um grande desrespeito à memória das pessoas, além de adivinhação, é claro.

Quando utilizamos os princípios do psiquismo humano para descrever e explicar o comportamento, é preciso ter em mente que isso não é uma brincadeira. Devido à complexidade das teorias, das metodologias e técnicas utilizadas para isso, é necessário muito estudo, perspicácia, respeito às pessoas e, principalmente, humildade para reconhecer que os métodos à nossa disposição possuem severas limitações.

É isso que ensino aos meus alunos em primeiro lugar: reconhecer as possibilidades e limitações das ferramentas que dispomos para realizar as nossas interpretações.

Alguém pode se contentar em reconhecer que uma pessoa está com raiva ou triste ou com medo. Para mim, não sei se resultado das grandes dificuldades que enfrentei na minha vida, sempre achei que o mais importante não era como uma pessoa se sentia, mas sim o que eu faria no contexto das suas emoções. Alguém pode estar com raiva e não perder a cabeça….. Outro, por motivos fúteis pode produzir um dano irreparável como  tirar a vida de alguém.

O comportamento não decorre automaticamente apenas de nossas emoções. Por isso, alguém pode sentir um medo paralisante e mesmo assim ser capaz de atos de extremo heroísmo.

É por isso e por meio desses exemplos que eu desejo mostrar para você que é nosso leitor a importância de realizar uma análise profunda, sem conclusões apressadas. Se você entender a minha argumentação e adotar esses cuidados, certamente evitará levar vinho na cara e a expressão de desaprovação do amigo Watson (pois é meu caro…).

Um abraço e aprofunde os seus estudos acompanhando as nossas matérias.


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Como citar este artigo:

Formato Documento Eletrônico (ABNT)

PIRES, Sergio Fernandes Senna. Interpretar não é adivinhar. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/interpretar-nao-adivinhar/> . Acesso em 2 Dec 2016.

Formato Documento Eletrônico (APA)

Pires, Sergio Fernandes Senna. (2013). Interpretar não é adivinhar. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Recuperado em 2 Dec 2016, de https://ibralc.com.br/interpretar-nao-adivinhar/.

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Sergio Senna
Psicólogo, doutor em psicologia (UnB), possui diversas especializações na área de educação, segurança e políticas públicas. Tem larga experiência acadêmica e profissional na interpretação da linguagem corporal, presta assessoria institucional no Congresso Nacional e desenvolve trabalhos acadêmicos nas temáticas da análise da mentira e da linguagem corporal. Veja o currículo completo aqui!
Sergio Senna

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9 Comments

  1. Por esse motivo eu gosto da abordagem apresentada sobre o assunto pelo IBRALC. Nos vários artigos do site as dicas apresentadas são simples, mas seguras e fáceis de aplicar. É muito melhor se focar no simples e confiável, do que aplicar técnicas mirabolantes com o risco de fazer julgamentos precipitados.

  2. Dr Sergio,
    Adorei sua matéria, parabéns!! Excelente!
    Pensei o tempo todo em uma pessoa que interpreta as pessoas utilizando padrões já pré-definidos em sua concepção de pessoas e de mundo, e acaba se utilizando de pré conceitos e errando em suas interpretações.
    Abraços!

    • Obrigado Marluce.

      Minha intenção é destacar para os nossos leitores que o comportamento das pessoas não decorre única e exclusivamente de suas emoções.

      Apesar de muito importantes, elas não determinam o que vai ocorrer. São preditores dos comportamentos, não seus determinadores.

      Muitas pessoas se encantam com a aquisição dessa capacidade de realizar previsões razoáveis do comportamento de seus interlocutores, mas ficarão a um passo do desastre se não considerarem outras formas de um mesmo sujeito reagir, o que, na verdade, todo mundo que aprende essas técnicas quer quer fazer: prever o comportamento dos outros com razoável acerto.

      Siga lendo nossas matérias
      Um abraço
      Sergio Senna

  3. Pois é Edinaldo, eu venho tentando alertar as pessoas sobre esse fetiche.
    Entendo que essas práticas de parecer onisciente é um reflexo da insegurança emocional e da falta de conhecimento técnico dessas pessoas.

    É muito óbvio que não temos acesso aos pensamentos e comportamentos privados das pessoas. Nem precisa entender de Psicologia para compreender isso.

    Entretanto as pessoas se encantam quando aparece algum gaiato que articula bem a Língua Portuguesa e parece ter um poder especial de saber o que ocorre nesse mundo interior das pessoas.

    Costumo dizer que ninguém conhece o seu mundo melhor do que o próprio sujeito. Mesmo assim, nem mesmo a própria pessoa sabe tudo o que ocorre com ela. Isso sem falar nos processos psicológicos superiores que nos dão consciência de parte do que ocorre conosco e que podem alterar, voluntariamente, o que seria esperado de alguém.

    É o exemplo que dei quando argumento que sentir medo não determina o comportamento consequente. Se assim fosse, não teríamos heróis ou nossos heróis seriam todos psicopatas…..

    Os auto-proclamados especialistas esquecem disso e saem disparando profecias sobre a personalidade de alguém porque a sobrancelha está mais arqueada (??? WTF) ou o sorriso está amarelo, fazendo previsões sobre como alguém é e não como alguém está…..

    Nesse ponto eu lembro de uma parábola da Bíblia que envolvia pessoas que consentiam ou resistiam a uma tarefa. Um aceitou, não resistiu, disse que ia fazer e não fez. Outro resistiu, disse que não, depois se arrependeu e foi fazer. Quem foi o justo?

    Então, não são apenas as emoções que contam e que definem o nosso comportamento. Existe todo um processo decisório consciente e não consciente como pano de fundo e que deve sim ser tomado em conta com muita seriedade. Essas previsões quase que “astrológicas” sobre a personalidade de alguém esquecem disso.

    Esquecem também que, na fronteira da produção do conhecimento em Psicologia, o termo personalidade vem sendo substituído por construtos mais modernos e mais assertivos para explicar comportamentos aparentemente paradoxais que não encontram respaldo em teorias de personalidade desenvolvidas no início até a metade do Sec. XX. Novas teorias sobre o Self, como o Self Dialógico (eg. Dialogical Self) são muito mais ricas nesse campo. Quantos conhecem essas novidades teóricas?

    No final, fica o alerta aos nossos leitores: não se deixem levar pelo canto da sereia…..

    Um abraço
    Sergio Senna

    • Pois é…é também um pouco da necessidade do “para ontem” do mundo moderno, todos querem tudo muito rápido, e nem sempre os atalhos são os melhores caminhos…

      Abraço!

  4. Dr. Sérgio,

    Achei bastante pertinente o assunto, por vezes passamos por estas ondas de adivinhações (a última foi o caso do garoto, citado no artigo). Muitos tentam ganhar espaço as custas de tais eventos….lamentável.

    E quanto ao vídeo…Holmes é Holmes rsrsrs Muito bom!

    Abraço!

    Edinaldo

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