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Diversas vezes já me perguntaram se assistir episódios do seriado Lie To Me ajuda a interpretar a linguagem corporal. Nesse artigo, vou sintetizar as respostas que ofereço aos meus alunos e conhecidos.
Para uma compreensão melhor dessa questão, é necessário lembrar que o seriado Lie to Me é uma obra de ficção, cujo propósito principal é entreter as pessoas. Muitos fãs acreditam que a colaboração do Dr. Paul Ekman (que ninguém sabe ao certo qual foi, além de um obscuro título de “consultor”) torna o conteúdo dos episódios 100% científicos, o que não é necessariamente verdade.
Ademais, um episódio de um seriado não dispõe de tempo suficiente para expor todos os detalhes necessários e os roteiristas e a equipe de produção podem sofrer a tentação de dar dicas rápidas visando ao desenvolvimento do show, sem compromisso com o rigor técnico. Como se trata de uma obra de entretenimento, não vejo nada de errado em “encurtar o caminho” para caber no tempo do episódio. Errado seria eu ensinar meus alunos dessa forma…..
Nesse contexto, penso que seria esperar muito do seriado que, além de entreter, fosse pedagógico no ensino da análise do comportamento.
Nos episódios da série, é comum que o Dr. Carl Lightman resolva casos intrincados em pouco tempo, tire conclusões a partir de poucos ou de até mesmo um detalhe e consiga sempre “a verdade”.
Na vida real não é bem assim. Muitas vezes, um único indicador nos chama a atenção para certa pessoa, para certo momento de sua fala ou de suas reações emocionais. Esse sim é uma utilização correta de um indicador, prestar mais atenção em determinado aspecto, priorizar falas ou momentos das pessoas.
Esse indicador é a deixa para que investiguemos mais aquele aspecto, mas nunca para concluirmos definitivamente a partir dele, exclusivamente.
Feitas essas considerações, posso dizer que existem muitos motivos para que uma pessoa não apresente emoções na face. É necessário lembrar dos muitos tipos de paralisia facial, uma quantidade considerável de síndromes que afetam nossas emoções e a sua expressão, como a Síndrome de Moebius, cujas pessoas acometidas por ela não sorriem (mas experimentam a alegria como qualquer um de nós). Veja um vídeo sobre essa síndrome:
A jovem que dá o seu depoimento no vídeo tem uma paralisia severa. Entretanto, há diversos graus de paralisia, o que pode complicar a identificação de indicadores na face.
Além disso, cada dia aparece uma maluquice atrás da outra no que diz respeito á análise do comportamento não verbal. Tem gente que gostaria de reconhecer um psicopata somente olhando para ele. Infelizmente, isso não é possível e nem é tão simples assim…. Leia o nosso artigo: O que uma pessoa precisa para ser especialista em linguagem corporal?
O diagnóstico da psicopatia é um desafio mesmo para psicólogos e psiquiatras experientes e conhecedores das técnicas adequadas. Então, me parece um pouco irresponsável chegar a uma conclusão tão gravosa com base em apenas esse indicador. Além disso, muitos psicopatas conhecidos, que foram sujeitos de estudos clínicos, se mostraram capazes de reproduzir o display de certas emoções de forma muito convincente, mesmo sem as experimentarem da mesma forma como nós as vivenciamos.
Para mim, essa constatação é suficiente para adotarmos cautela nessas avaliações e evitarmos essas “dicas rápidas”, deixando a realização do diagnóstico para profissionais devidamente habilitados e que trabalhem com psicodiagnóstico.
Lembre-se que para ser um bom analista do comportamento não verbal são necessários conhecimentos técnicos, capacidades avançadas de observação e muita cautela e paciência. O seriado foi ótimo para despertar o seu interesse e não é à toa que não passou da terceira temporada. Então, não fique apenas no Lie to Me. Busque uma capacitação adequada.
Um abraço
Sergio Senna