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Entenda como o preconceito se forma

O importante para nós é termos em mente que os preconceitos:

  • são constituídos por unidades indissociáveis de premissas e emoções;
  • não são necessariamente negativos ou positivos;
  • são crenças que não precisam de qualquer sustentação em evidências para operarem os seus efeitos cognitivos, emocionais e comportamentais (UDDENBERG, 2023);
  • após construídos, como toda crença, são resistentes à mudança;
  • pessoa preconceituosa não será sensível a estratégias cognitivas de mudança;
  • são as emoções, entrelaçadas com as premissas, que mantém o preconceito e representam a sua resistência.

Vejamos um exemplo:

Premissa: Pessoas azuis são preguiçosas

Ao longo do tempo, o indivíduo que adota essa premissa [por qualquer razão que seja] começa a experimentar raiva ao ver, lidar ou até mesmo pensar em pessoas azuis.

Então, esse processo orienta a construção de uma crença, por nós chamada de preconceito, como uma forma de dar um significado negativo ao mesmo construto. Todo preconceito é uma crença e obedece aos mesmos processos biopsicológicos de construção. Nesse sentido, ele não é nem negativo ou positivo. É apenas um conjunto de premissas sem sustentação e muito resistente à mudança.

Na comunicação não verbal, temos um campo de estudo que se interconecta com a pesquisa sobre preconceitos: é o estudo das percepções que a aparência física causa no observador.

Nesse caso, podem existir elementos culturais ou evolutivos que nos orientam a termos, não conscientemente, impressões semelhantes.

Os estudos mostram que as primeiras impressões ocorrem muito rápido [30 milissegundos], e não são, necessariamente, resultado de um processo avaliativo cognitivamente elaborado (TODOROV; OH, 2021; UDDENBERG, 2023).

Não se assuste se você notou um padrão nas escolhas. O importante é saber que qualquer viés pode ser regulado conscientemente desde que:

  • a pessoa perceba esse viés;
  • tenha o desejo de alterá-lo e conte com a ajuda para isso, caso precise; e
  • pague o preço da mudança, pois qualquer transformação exige esforço.

Se você sentiu curiosidade ou quer aprender mais sobre isso, veja:

Leitura Recomendada:

Desvendando caminhos: uma perspectiva integrada na Psicologia Cultural e na Teoria Cognitivo-Comportamental sobre a violência e o preconceito, de Sergio Senna Pires (2024)


Veja outro texto, mais recente, do mesmo autor:

Cultural dynamics of prejudice: emotions, beliefs, communications and transformative interaction (2025)

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Para entender melhor a formação e o enfrentamento aos preconceitos

Origem

Como nascem os preconceitos: crenças, valores e emoções

O preconceito não surge do nada. Ele não aparece apenas porque alguém “é mau” ou “não foi bem-educado”. O preconceito se forma ao longo do tempo, a partir de crenças, valores e, principalmente, emoções que se combinam e passam a orientar como enxergamos o mundo e as outras pessoas.

Crenças são ideias que adotamos como verdadeiras. Muitas delas nunca foram testadas, questionadas ou confirmadas por evidências. Frases como “tal grupo é assim”, “essas pessoas não mudam” ou “isso sempre dá problema” parecem opiniões, mas, na prática, funcionam como atalhos mentais. Elas economizam esforço de pensar, mas cobram um preço alto: reduzem pessoas reais a rótulos simplificados.

Valores entram nesse processo como critérios do que consideramos certo ou errado, aceitável ou inaceitável. Eles são aprendidos na família, na escola, nas igrejas, nos grupos de amigos, na mídia. O problema não é ter valores. O problema surge quando valores se transformam em regras rígidas, usadas para julgar quem é diferente. Nesse ponto, o preconceito deixa de ser apenas uma opinião e passa a orientar comportamentos.

O elemento decisivo, porém, são as emoções. Preconceitos são crenças carregadas de emoção. Medo, raiva, nojo, desprezo e ressentimento funcionam como cola emocional que mantém essas crenças vivas, mesmo quando a realidade mostra o contrário. Quando uma emoção negativa se associa a uma ideia, a pessoa passa a “sentir” que aquilo é verdade, mesmo sem provas.

É por isso que discutir preconceito apenas com dados e argumentos racionais costuma falhar. A pessoa pode até entender o argumento, mas continua sentindo da mesma forma. O preconceito não é apenas pensado, ele é sentido.

Outro ponto importante é que o preconceito se generaliza facilmente. Uma experiência isolada, uma história mal contada ou um episódio negativo pode ser usado como “prova” de que todo um grupo é igual. Esse tipo de generalização ignora a diversidade real das pessoas e cria uma lógica perigosa: se “todo mundo daquele grupo é assim”, então qualquer ação contra eles parece justificável.

Ao mesmo tempo, o preconceito não é apenas individual. Ele é reforçado socialmente. Piadas, expressões comuns, silêncios coniventes e discursos públicos normalizam certas crenças e fazem com que elas pareçam naturais. Quando a cultura repete, o indivíduo internaliza.

Compreender a formação do preconceito exige reconhecer essa combinação: crenças frágeis, valores rígidos e emoções não elaboradas, sustentadas por contextos sociais que reforçam essas ideias. Isso não significa desculpar atitudes preconceituosas, mas entender que as combater exige mais do que condenação moral. Exige transformação emocional, reflexão crítica e experiências que desafiem essas crenças, na prática.

Enfrentamento

Como enfrentar o preconceito no cotidiano: da compreensão à ação

Entender como o preconceito se forma é o primeiro passo. O segundo é saber o que pode ser feito, na prática, para enfrentá-lo no cotidiano, em casa, na escola, no trabalho e na comunidade. A boa notícia é que, se o preconceito é aprendido, ele também pode ser transformado.

O primeiro ponto é reconhecer que não basta mandar a pessoa “parar de ser preconceituosa”. Quando alguém é confrontado apenas com acusações, tende a se fechar, se defender ou reforçar ainda mais suas crenças. Isso acontece porque o preconceito está ligado à identidade e às emoções. Atacar diretamente a pessoa costuma fortalecer a resistência.

Uma estratégia mais eficaz começa pela identificação das crenças envolvidas. Perguntas simples ajudam mais do que discursos longos: “De onde vem essa ideia?”, “Isso vale para todas as pessoas?”, “Você já teve alguma experiência diferente?”. Essas perguntas não anulam o preconceito imediatamente, mas abrem uma fissura na certeza absoluta.

O segundo ponto é trabalhar as emoções associadas. Preconceitos costumam ser sustentados por medo e raiva. Criar espaços seguros de convivência, onde o contato com o “outro” não seja ameaçador, reduz essas emoções negativas. Experiências concretas valem mais do que explicações abstratas. Ver, conviver, cooperar e compartilhar atividades desafiam crenças de forma muito mais profunda do que debates teóricos.

No ambiente escolar, por exemplo, atividades artísticas, esportivas e cooperativas têm um papel central. Quando uma criança ou adolescente presencia alguém quebrando um estereótipo – dançando bem, liderando um grupo, ajudando outros –, a crença preconceituosa perde força. Não porque alguém disse que ela está errada, mas porque a experiência emocional contradiz a ideia antiga.

Outro aspecto fundamental é fortalecer a autonomia. Pessoas que se sentem inseguras, desvalorizadas ou sem voz tendem a se apoiar mais em crenças rígidas. Empoderar indivíduos, incentivar o pensamento crítico e a responsabilidade pelas próprias escolhas reduz a necessidade de culpar ou desumanizar o outro.

Também é importante agir no plano coletivo. Normas sociais informais, como piadas ofensivas ou rótulos depreciativos, precisam ser questionadas. O silêncio comunica aceitação. Intervenções simples, como dizer “isso não é engraçado” ou “não concordo com essa forma de falar”, ajudam a alterar o clima do grupo. O preconceito se sustenta na repetição e no silêncio; ele enfraquece quando encontra resistência cotidiana.

Por fim, é essencial reconhecer que não existe solução única. Algumas situações exigem diálogo, outras exigem limites claros. Em cenários de baixa e média violência, estratégias educativas e vivenciais funcionam bem. Em contextos mais graves, é necessário combinar educação, proteção e responsabilização.

Enfrentar o preconceito não é uma ação pontual, mas um processo contínuo. Ele começa pela compreensão, passa pela experiência emocional e se consolida em práticas cotidianas. Mudar crenças é possível, desde que se mude também o modo de sentir, conviver e agir.

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