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Congresso FIESP de Segurança Pública – 2026: quatro leituras para avançar

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Em 31 de agosto de 2026, a FIESP reuniu em São Paulo autoridades, integrantes do sistema de justiça, gestores, pesquisadores e representantes do setor produtivo para discutir segurança pública a partir de experiências nacionais e internacionais. O Congresso FIESP de Segurança Pública colocou no mesmo ambiente temas que muitas vezes aparecem separados: crime organizado, controle territorial, economia formal, sistema prisional, decisão criminosa, inteligência, tecnologia e capacidade institucional.

As conferências de Gustavo Villatoro, ministro responsável pela Justiça e Segurança Pública de El Salvador, e do procurador italiano Giovanni Tartaglia Polcini, assessor jurídico do Ministério das Relações Exteriores da Itália e diretor adjunto do programa europeu EL PAcCTO 2.0, trouxeram duas experiências estrangeiras bastante diferentes. Villatoro apresentou a recuperação do controle territorial em El Salvador. Tartaglia examinou décadas de enfrentamento às máfias italianas, com atenção à corrupção, à economia, às prisões e à cooperação internacional.

Ao longo do dia, os painéis brasileiros ampliaram o campo de observação. Representantes da segurança pública, do Ministério Público, do sistema penitenciário, da indústria e da pesquisa discutiram desde a infiltração de organizações criminosas em cadeias econômicas até as razões que influenciam a entrada e a permanência de pessoas no crime. A FIESP também apresentou pesquisas sobre percepção da segurança pública, população prisional e vitimização da indústria.

Dos debates surgiram quatro leituras publicadas nesta série. Elas não resumem o congresso. Cada uma seleciona uma questão que merece continuar depois do evento e procura levá-la até uma consequência prática para quem formula políticas, investiga organizações criminosas ou administra capacidades públicas.

1. O que realmente precisa viajar com um modelo estrangeiro



A exposição de Gustavo Villatoro colocou El Salvador no centro do congresso. Mais tarde, Lincoln Gakiya reconheceu os resultados alcançados pelo país e fez uma pergunta decisiva para o Brasil: o que seria necessário para reproduzi-los aqui? Sua resposta começou com uma expressão simples: seria preciso considerar “o pacote todo”.

Em O pacote todo: que cuidados devemos ter para importar um modelo de segurança, acompanhamos as consequências dessa pergunta. Gakiya tratou da escala de encarceramento, dos custos, das condições jurídicas, da sustentabilidade das intervenções e da necessidade de diferenciar organizações criminosas com capacidades muito distintas. Trouxe também as UPPs para lembrar que recuperar território e sustentar a nova situação exigem capacidades diferentes.

A partir desse material, aplicamos a ideia de erro de transposição: transportar o resultado desejado sem reconstruir as condições que permitiram produzi-lo.

2. Onde a infiltração se transforma em capacidade



Giovanni Tartaglia Polcini recuperou uma conhecida imagem do magistrado italiano Giovanni Falcone: a máfia procura fissuras da mesma maneira que um líquido procura passagem em um sólido. Sua conferência mostrou essas passagens em situações concretas envolvendo corrupção, lavagem de capitais, empresas, administração pública e controle das prisões. Também aproximou a experiência italiana do Brasil ao tratar do PCC e da cooperação entre os dois países.

Em Da fissura ao acoplamento: o que Giovanni Tartaglia Polcini revela sobre a infiltração mafiosa, levamos essa metáfora um passo adiante. A fissura identifica uma oportunidade de entrada; chamamos de acoplamento a relação que efetivamente passa a entregar alguma capacidade à organização.

Um agente fornece informação, uma empresa conecta patrimônio ilícito à economia formal, um intermediário oferece proteção ou uma liderança presa conserva canais de comando. Investigar essas relações permite perguntar quais funções sustentam a rede, quanto ela depende delas e quão facilmente consegue substituí-las.

3. O que as empresas enxergam antes do Estado



A exposição de Emerson Kapaz sobre a cadeia de combustíveis mostrou organizações criminosas atuando dentro de mercados regulares e explorando logística, fornecedores, tributação e estruturas empresariais. Outras falas sobre cibersegurança e tecnologia reforçaram uma constatação semelhante: quem trabalha diariamente em determinado setor percebe alterações de preços, rotas, fornecedores e práticas operacionais que podem revelar mudanças no ambiente criminal.

Em Como setores econômicos podem fortalecer a inteligência contra o crime organizado, desenvolvemos a inteligência econômico-setorial como forma de organizar esse conhecimento distribuído. Empresas e entidades setoriais fornecem sinais, enquanto autoridades públicas podem validá-los, integrá-los a outras informações e produzir inteligência.

O artigo amplia, assim, a relação entre setor produtivo e segurança pública: além de vítimas ou destinatárias de proteção, empresas podem contribuir para perceber mais cedo transformações nos mercados que organizações criminosas procuram explorar.

4. Por que custo e punição não explicam toda decisão criminosa



No painel sobre o sistema prisional, Pery Shikida, Roberto Motta e Filipe Regueira chegaram à decisão criminosa por caminhos diferentes. As entrevistas apresentadas por Shikida trouxeram cobiça, ganho fácil, status e influência de terceiros. Motta recuperou a teoria econômica de Gary Becker. Regueira discutiu autocontrole e avaliação de risco. O resultado foi um debate que recolocou a responsabilidade individual no centro, sem reduzir toda escolha a uma única variável.

Em Crime, desejos e decisões: como robustecer a lógica de custo decisório?, ampliamos essa discussão. Punição, probabilidade de detecção e retorno esperado influenciam decisões, mas pertencimento, coerção, vínculos familiares, relações dentro das prisões e controle territorial também reorganizam aquilo que cada pessoa percebe como possível ou vantajoso.

Para a segurança pública, isso muda a pergunta: interessa saber não apenas quanto custa cometer o crime, mas o que sustenta a decisão de entrar, permanecer ou sair de uma rede ilícita.

Quem participou do Congresso FIESP de Segurança Pública

A abertura institucional ficou a cargo do presidente da FIESP, Paulo Skaf, e do senador Sergio Moro, presidente do Conselho Superior de Segurança da FIESP. O congresso organizou duas conferências internacionais, três painéis temáticos e a apresentação do Programa Integrado de Pesquisas FIESP.

  • Conferências internacionais: Gustavo Villatoro apresentou a experiência de El Salvador na recuperação do controle territorial. Giovanni Tartaglia Polcini apresentou a experiência italiana de enfrentamento às máfias e de cooperação internacional.
  • Crime organizado, territorialidade e economia formal: desafios à governança: Sergio Moro moderou o painel com os deputados federais Guilherme Derrite e Alfredo Gaspar, o escritor e ex-integrante do BOPE Rodrigo Pimentel e o presidente do Instituto Combustível Legal, Emerson Kapaz.
  • Programa Integrado de Pesquisas FIESP: Frederico Aguiar apresentou resultados sobre percepção da segurança pública; o professor Pery Shikida tratou da pesquisa realizada com presos; Rony Vainzof apresentou os dados de vitimização da indústria. As pesquisas permitiram observar segurança pública sob três perspectivas distintas: população, pessoas presas e empresas.
  • Controle do Sistema Prisional e Limites Institucionais: o delegado da Polícia Federal Fabiano Bordignon moderou as exposições de Danielle Amorim Silva, secretária de Estado de Justiça e Reintegração Social de Santa Catarina; dos promotores de Justiça Filipe Regueira e Lincoln Gakiya; e do colunista Roberto Motta.
  • Ecossistemas de inovação e tecnologias estratégicas para a segurança pública: Frederico Aguiar moderou o painel com Fabiana Botelho Zapata, Cláudio Trapaga, Osvaldo Maia, Antônio Rebouças e Rony Vainzof, em discussões sobre proteção de mulheres, soluções tecnológicas, indústria e cibersegurança.

A diversidade dos participantes ajuda a entender por que alguns dos melhores argumentos do congresso surgiram na conexão entre exposições diferentes. Crime organizado apareceu como problema territorial, econômico, prisional, institucional e humano. As quatro leituras abaixo seguem justamente essas conexões.

O debate continua depois do congresso

O Congresso FIESP reuniu experiências fortes justamente porque seus participantes observaram o problema a partir de posições muito diferentes. Ao aproximar investigação, empresas, prisões, decisões humanas e experiências estrangeiras, o evento oferece matéria para uma pergunta que permanece aberta: onde uma organização criminosa está adquirindo capacidade e qual intervenção consegue retirar essa capacidade de forma sustentável?

Qualquer das postagens serve de entrada para a leitura, mas, para percorrer a série como uma sequência, recomendamos iniciar por “Como setores econômicos podem fortalecer a inteligência contra o crime organizado”. A leitura amplia o campo de observação e prepara as três questões seguintes:

  • Quem decide participar dessas redes criminosas;
  • Quais relações sustentam sua capacidade; e
  • Quais respostas públicas conseguem sobreviver quando mudamos de escala ou de contexto?
Inteligência econômico-setorial aplicada ao enfrentamento do crime organizado em cadeias produtivas

Congresso FIESP de Segurança Pública - 2026

Como setores econômicos podem fortalecer a inteligência contra o crime organizado

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